Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Bet · Mishná 2 de 6

Os meses embolismais, os dois pães, o pão da proposição e a circuncisão

אֵין פּוֹחֲתִין מֵאַרְבָּעָה חֳדָשִׁים הַמְעֻבָּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os meses de trinta dias no calendário, o prazo de consumo dos dois pães e do pão da proposição, e o prazo da circuncisão

Não se reduz a menos de quatro meses embolismais no ano, e não se via bem acrescentar mais que oito. Os dois pães são comidos não antes de dois dias, nem depois de três. O pão da proposição é comido não antes de nove dias, nem depois de onze. O menino é circuncidado não antes de oito dias, nem depois de doze.

— Esta mishná reúne quatro leis, todas sobre contagem de dias, sob a mesma fórmula de mínimo e máximo. A primeira trata do calendário lunar: como o mês da lua tem cerca de vinte e nove dias e meio, o ano hebraico alterna meses “cheios” de trinta dias com meses “deficientes” de vinte e nove; os sábios ensinam que, num ano comum, não se fixam menos de quatro meses cheios, nem, via de regra, mais de oito — ainda que ocasionalmente, por necessidade do cálculo, esse limite superior seja ultrapassado. A segunda lei trata dos shtei halechem, os dois pães de trigo fermentado oferecidos no Templo na festa de Shavuot: assados na véspera do feriado, eles só podem ser consumidos pelos sacerdotes a partir do segundo dia após serem assados, e nunca depois do terceiro. A terceira lei trata do lechem hapanim, o pão da proposição disposto semanalmente sobre a mesa de ouro do santuário: assado na sexta-feira e trocado no sábado seguinte, ele é consumido normalmente no nono dia após ter sido assado, mas esse prazo pode se estender até o décimo primeiro dia quando as duas festas de Rosh Hashaná caem na quinta e na sexta-feira, adiando a troca do pão para o sábado seguinte. A quarta lei, por fim, trata da circuncisão: embora a regra geral seja circuncidar o menino no oitavo dia de vida, esse prazo pode se antecipar ou se adiar por causa da incerteza sobre o momento exato do nascimento durante o crepúsculo, ou por causa de um sábado seguido por dias festivos, chegando no máximo ao décimo segundo dia.

אֵין פּוֹחֲתִין מֵאַרְבָּעָה חֳדָשִׁים הַמְעֻבָּרִים בְּשָׁנָה, וְלֹא נִרְאֶה יָתֵר עַל שְׁמֹנָה. שְׁתֵּי הַלֶּחֶם נֶאֱכָלוֹת אֵין פָּחוּת מִשְּׁנַיִם וְלֹא יָתֵר עַל שְׁלשָׁה. לֶחֶם הַפָּנִים נֶאֱכָל אֵין פָּחוּת מִתִּשְׁעָה וְלֹא יָתֵר עַל אַחַד עָשָׂר. קָטָן נִמּוֹל אֵין פָּחוֹת מִשְּׁמֹנָה וְלֹא יָתֵר עַל שְׁנֵים עָשָׂר:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Vayikra 12:3
וּבַיּוֹם הַשְּׁמִינִי יִמּוֹל בְּשַׂר עׇרְלָתוֹ׃
“E no oitavo dia será circuncidada a carne de seu prepúcio.”
Bemidbar 9:2
וְיַעֲשׂוּ בְנֵי־יִשְׂרָאֵל אֶת־הַפָּסַח בְּמוֹעֲדוֹ׃
“Que os filhos de Israel façam o sacrifício pascal em seu tempo determinado.”
O oitavo dia de Vayikra 12:3 é a fonte direta do prazo mínimo da circuncisão. Rambam observa, sobre a primeira lei da mishná, que o próprio cálculo do calendário lunar — a alternância entre meses de vinte e nove e de trinta dias — deriva da duração real do ciclo da lua, pouco menos de vinte e nove dias e meio, cujo resto acumulado obriga os sábios a, por vezes, declarar oito meses cheios no mesmo ano. Já a expressão “em seu tempo determinado”, dita a respeito do sacrifício pascal, é a base pela qual a Guemará deriva, por analogia verbal, o prazo de exame prévio exigido para os cordeiros do sacrifício perpétuo, tratado na Mishná 2:5 adiante.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 2:2
אין פוחתין מארבעה חדשים המעוברין בשנה כו': ידוע שחדשינו חדשי הלבנה וכן ידוע ששנת הלבנה שנ"ד יום ותשע שעות פחות חומש שעה שלא בצמצום וכשאנו עושים חדשי השנה מל' יום והוא הנקרא מעובר... ושתי הלחם ולחם הפנים כבר בארנו זה בי"א ממנחות וקטן נמול נתבאר ג"כ בי"ט משבת:

Rambam explica que os meses hebraicos seguem o ciclo da lua, cuja duração real gira em torno de vinte e nove dias e meio, com um pequeno resto de horas que se acumula ano após ano; por isso, é necessário ora declarar seis meses cheios e seis deficientes, ora ajustar essa proporção para até oito meses cheios, conforme esse resto se acumula ou se consome. Ele remete o leitor a seus próprios comentários sobre o tratado de Menachot para os detalhes dos dois pães e do pão da proposição, e ao tratado de Shabat para os detalhes da circuncisão adiada por causa do sábado e das festas.

Bartenura · Arachin 2:2
אֵין פּוֹחֲתִין מֵאַרְבָּעָה חֳדָשִׁים מְעֻבָּרוֹת. שֶׁל שְׁלֹשִׁים יוֹם לְשָׁנָה. דְּלֹא עָבְדִינַן טְפֵי מִשְּׁמֹנָה חֲסֵרִים... לֶחֶם הַפָּנִים נֶאֱכָל אֵין פָּחוּת מִתִּשְׁעָה. שֶׁהוּא נֶאֱפֶה בְעֶרֶב שַׁבָּת וְנֶאֱכָל לְשַׁבָּת אַחֶרֶת... וְלֹא יָתֵר עַל שְׁנֵים עָשָׂר. כֵּיצַד, נוֹלַד בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת שֶׁל עֶרֶב שַׁבָּת, אֵינוֹ נִמּוֹל בְּשַׁבָּת, דְּשֶׁמָּא תְשִׁיעִי הוּא...

Bartenura detalha o cálculo lunar: o mês da lua dura vinte e nove dias, meio dia e uma pequena fração de hora, de modo que, a cada dois meses, somam-se cerca de cinquenta e nove dias — um mês de vinte e nove e outro de trinta. Por causa dessa fração residual que se acumula, às vezes é preciso declarar oito meses cheios no ano e apenas quatro deficientes. Sobre a circuncisão, ilustra o caso do menino nascido no crepúsculo da véspera de sábado: como esse período é duvidosamente dia ou noite, não se pode circuncidá-lo no sábado seguinte — pois talvez esse sábado seja apenas o nono dia, e a circuncisão fora de seu tempo próprio não suplanta o sábado nem a festa; e se, depois desse sábado, caírem ainda as duas festas de Rosh Hashaná, a circuncisão só ocorre na terça-feira, o décimo segundo dia de vida do menino.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 8b, sobre a Guemará desta mishná
מתני' אין פוחתין מארבעה חדשים מעוברין — של שלשים יום בשנה ועולא מפרש טעמא בגמ': פחות משנים — ליום שני לאפייתן: ולא יותר על שלש — ליום שלש לאפייתן נאכלין ותו לא... קטן — נימול לשנים עשר. כיצד נולד בין השמשות של ערב שבת אינו נימול בשבת דשמא תשיעי הוא...

Rashi explica cada cláusula em sequência: os quatro meses embolismais mínimos são de trinta dias cada, e a razão de nunca se ultrapassar oito é desenvolvida adiante pela Guemará, na explicação de Ulá. Os dois pães de Shavuot, assados na véspera por não poderem ser assados no próprio sábado ou festa, são consumidos a partir do segundo dia após a agitação ritual, no máximo até o terceiro. O pão da proposição, assado normalmente na sexta-feira e trocado no sábado seguinte — o nono dia desde que foi assado —, pode ter seu consumo adiado até o décimo primeiro dia quando as duas festas de Rosh Hashaná caem imediatamente antes do sábado de troca, obrigando a assá-lo dois dias mais cedo. Sobre a circuncisão, Rashi detalha o caso do nascimento no crepúsculo: por ser um período de dúvida entre dia e noite, a circuncisão não pode suplantar o sábado quando talvez já seja o nono dia, e se depois ainda sobrevierem as duas festas de Rosh Hashaná, o menino só é circuncidado na terça-feira seguinte, no décimo segundo dia.