Em campo de herança há o que é para leniência e o que é para rigor: como assim? Tanto aquele que consagra nas areias do distrito quanto aquele que consagra nos pomares de Sebaste dá, por área de semeadura de um kor de cevada, cinquenta siclos de prata. E em campo comprado, dá o seu valor. Rabi Eliezer diz: tanto campo de herança quanto campo comprado. Qual a diferença entre campo de herança e campo comprado? Apenas que em campo de herança acrescenta um quinto, e em campo comprado não acrescenta um quinto.
— Esta mishná desenvolve o segundo caso anunciado na mishná anterior. Quando alguém consagra ao Templo um campo de herança — isto é, um campo recebido por herança familiar, dentro da terra de Israel —, a Torá fixa o valor de resgate em cinquenta siclos de prata para cada área capaz de receber a semeadura de um kor de cevada, independentemente da qualidade real do solo. Assim, tanto faz consagrar terreno arenoso e pouco fértil ao redor de uma cidade — onde há leniência, pois vale pouco no mercado mas se resgata pelo valor fixo, geralmente maior — quanto consagrar os pomares luxuriantes de Sebaste, de altíssimo valor comercial — onde há rigor, pois mesmo um campo tão valioso se resgata pela mesma soma fixa, bem menor que seu preço real. Já o campo comprado — adquirido no mercado, e não herdado — não segue essa tabela fixa: quem o consagra e deseja resgatá-lo paga exatamente o seu valor de mercado real, seja este maior ou menor que a tabela da Torá. Rabi Eliezer discorda desta última distinção: para ele, tanto o campo de herança quanto o campo comprado seguem a mesma tabela fixa de cinquenta siclos por kor de cevada. A única diferença real entre os dois, segundo Rabi Eliezer, é que apenas no resgate do campo de herança o dono original acrescenta um quinto ao valor pago, obrigação que não se aplica ao campo comprado.
Rambam explica que a Torá, ao falar do campo de herança, fixa a avaliação em cinquenta siclos por área de semeadura de um kor de cevada, seja a terra a mais fértil de Israel ou a mais pobre. Quando alguém consagra um campo de herança plantado de árvores, avalia-se as árvores por seu valor real e mede-se a terra separadamente pela tabela fixa. Já sobre o campo comprado, a Torá usa a expressão “o sacerdote lhe calculará a soma da avaliação”, e “soma” (michsat) significa dinheiro — ou seja, o valor real de mercado, como em outro versículo que usa o mesmo termo para tributo em dinheiro. Rambam relata a opinião de Rabi Eliezer, que deriva por analogia verbal entre os dois versículos que ambos os campos seguem a mesma tabela fixa, diferindo apenas quanto ao acréscimo de um quinto, exigido só no campo de herança — mas conclui que a halachá não segue Rabi Eliezer.
Bartenura identifica os dois extremos citados na mishná: as “areias do distrito” são os terrenos ao redor da cidade, pouco valorizados por serem pisoteados constantemente; os “pomares de Sebaste” são um lugar cujas árvores eram excepcionalmente valiosas. Explica que a soma de cinquenta siclos por área de um kor de cevada vale plenamente se a consagração ocorre logo no início do ciclo do jubileu; caso contrário, desconta-se um selá e um pundeon por cada ano já decorrido do ciclo. Sobre o campo comprado, confirma que a expressão bíblica “calculará a soma” se refere ao número real de moedas, isto é, ao valor de mercado — e conclui, como Rambam, que a halachá não segue Rabi Eliezer.
Rashi identifica a “areia do distrito” como os campos ao redor de uma cidade, de valor reduzido por causa do pisoteio constante, comparando a palavra cholat a expressão semelhante usada em outro contexto agrícola na Mishná. Explica que “Sebaste” é o nome de um lugar cujos pomares eram excelentes. E detalha que quem resgata o campo — seja o próprio dono, seja outra pessoa — paga cinquenta siclos por área de um kor de cevada apenas se o resgate ocorrer no início do ciclo do jubileu; caso contrário, desconta-se um selá e um pundeon por cada ano já passado, conforme está escrito no próprio versículo.