Seder Kodashim · Massechet Arachin · Perek Dalet · Mishná 3 de 4

A herança e o navio: o Templo nada tem sobre riqueza futura

אֲבָל בַּקָּרְבָּנוֹת אֵינוֹ כֵן, אֲפִלּוּ אָבִיו מֵת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Nos sacrifícios, ao contrário dos valores fixos, riqueza que ainda não chegou às mãos da pessoa não conta

Mas nos sacrifícios não é assim: mesmo que seu pai tenha morrido e lhe tenha deixado uma miríade, ou que seu navio esteja no mar e venha a chegar com miríades, ao Templo nada pertence disso.

— Esta mishná continua a distinção entre valores fixos e sacrifícios iniciada na anterior, agora sobre outro aspecto: o critério temporal da riqueza. Nos valores fixos, como já vimos, o que importa é a capacidade financeira de quem vota no momento em que essa capacidade é avaliada — incluindo mudanças futuras de condição antes do pagamento. Já nos sacrifícios, a condição econômica que determina se a pessoa deve trazer a oferenda de rico ou de pobre é fixada exclusivamente pelo momento em que ela se tornou obrigada a trazer o sacrifício — por exemplo, quando o leproso concluiu seu processo de purificação. Mesmo que, entre esse momento e a efetiva entrega da oferenda, a pessoa venha a se tornar riquíssima — por ter herdado uma fortuna do pai que faleceu nesse ínterim, ou por ter um navio a caminho carregado de mercadorias valiosas —, essa riqueza futura, que ainda não está efetivamente em suas mãos, não altera sua obrigação: ela continua trazendo o sacrifício de pobre, como estava obrigada originalmente. A Guemará explica que o caso do navio se refere a uma embarcação alugada a terceiros, cujo pagamento ainda não foi recebido — de modo que, apesar do valor prometido, a pessoa ainda não dispõe efetivamente de nada.

אֲבָל בַּקָּרְבָּנוֹת אֵינוֹ כֵן, אֲפִלּוּ אָבִיו מֵת וְהִנִּיחַ לוֹ רִבּוֹא, סְפִינָתוֹ בַיָּם וּבָאוּ בְרִבּוֹאוֹת, אֵין לַהֶקְדֵּשׁ בָּהֶן כְּלוּם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Arachin 4:3
אבל בקרבנות אינו כן אפי' אביו מת והניח לו כו': מה שאמר אפי' אביו מת ר"ל שאם היה אביו נוטה למות וא"א לחיות ויורש ממנו נכסים אבל היה עני באותו הפרק שנתחייב בקרבן הרי זה יביא קרבן עני ואפי' אחר שהגיעו לרשותו הנכסים: ומה שאמר ספינה אין דעתו שיהיה בתוכה מיני סחורות שא"כ הרי עשיר נקרא אלא שהיא טעונה מושכרת ברבואות הרי הוא נחשב עני עד שהגיעה הספינה לפי ששכירות אינה משתלמת אלא בסוף ואין אנו אומרים עליו עשיר מחמת היותו בעל ספינה לפי שאין בידו מחיה אלא בשכירתה והמשנה הזאת היא לר' אליעזר שאומר אין אנו מחמירים בערכים אלא כחמור ששוכר אותו להסתפק מחייתו משכירתו וכדי שלא נתבטל מחייתו כמו שיתבאר דעתו בששי מהמסכתא הזאת ואינה הלכה:

Rambam esclarece que “mesmo que seu pai tenha morrido” refere-se a um pai já agonizante e prestes a morrer no momento em que o filho se tornou obrigado pelo sacrifício — mas, como naquele momento o filho ainda era pobre, ele traz o sacrifício de pobre, mesmo depois de os bens já terem chegado à sua posse. E explica que o navio mencionado não está carregado de mercadorias do próprio dono — o que o tornaria rico de fato —, mas sim alugado a terceiros por uma soma vultosa ainda não recebida; por isso a pessoa continua sendo considerada pobre até que o navio efetivamente chegue, pois o aluguel só é pago ao final. Rambam observa que esta mishná segue a opinião de Rabi Eliezer, que sustenta que, nos valores fixos, não se é rigoroso a ponto de tomar do avaliado até mesmo o burro com que ganha sua subsistência — posição que será detalhada mais adiante neste tratado, mas que não é a lei estabelecida.

Bartenura · Arachin 4:3
אֲפִלּוּ אָבִיו מֵת. בְּשָׁעָה שֶׁנִּתְחַיֵּב זֶה בְּקָרְבָּן הָיָה אָבִיו גּוֹסֵס וְנוֹטֶה לָמוּת, וּמֵת וְיָרַשׁ מִמֶּנּוּ רִבּוֹא קֹדֶם שֶׁהֵבִיא קָרְבָּנוֹ, אֵינוֹ מֵבִיא אֶלָּא קָרְבַּן עָנִי, כְּמוֹ שֶׁהָיָה בְּשָׁעָה שֶׁנִּתְחַיֵּב בַּקָּרְבָּן: סְפִינָתוֹ בַיָּם. לֹא שֶׁהָיְתָה סְפִינָתוֹ טְעוּנָה מִסְּחוֹרוֹת שֶׁלּוֹ בְּרִבּוֹא, דְּאִם כֵּן עָשִׁיר הוּא. אֶלָּא שֶׁהָיְתָה סְפִינָתוֹ מֻשְׂכֶּרֶת לַאֲחֵרִים בְּרִבּוֹא שָׂכָר, וְהוּא אֵין בְּיָדוֹ אֶלָּא אוֹתָהּ סְפִינָה. וּמִשּׁוּם שְׂכָרָהּ לָאו עָשִׁיר הוּא, דְּאֵין שְׂכִירוּת מִשְׁתַּלֶּמֶת אֶלָּא בְּסוֹפָהּ, וְנִמְצָא שֶׁעַכְשָׁיו עָנִי הוּא. וּמִשּׁוּם הַסְּפִינָה עַצְמָהּ לָאו עָשִׁיר הוּא, דְּהַאי תַּנָּא סָבַר כְּמַאן דְּאָמַר לְקַמָּן שֶׁאִם הָיָה הַמַּעֲרִיךְ חַמָּר נוֹתֵן לוֹ הַכֹּהֵן חֲמוֹרוֹ וְאֵינוֹ נוֹטְלוֹ לַהֶקְדֵּשׁ, וְאִם הָיָה אִכָּר מַנִּיחַ לוֹ צֶמֶד בְּקָרוֹ דְּהִיא פַּרְנָסָתוֹ, וְהָכִי נַמִּי מַנִּיחַ לוֹ סְפִינָתוֹ:

Bartenura explica que “mesmo que seu pai tenha morrido” descreve um pai agonizante no momento em que o filho se tornou obrigado pelo sacrifício, que morre e deixa uma herança vultosa antes de o filho efetivamente trazer sua oferenda — ainda assim, o filho traz apenas o sacrifício de pobre, conforme sua condição no momento em que se tornou obrigado. E sobre o navio, esclarece que não se trata de um navio carregado de mercadorias próprias — o que tornaria a pessoa rica de fato —, mas de um navio alugado a terceiros por soma vultosa, sendo esse o único bem que a pessoa possui; como o aluguel só é pago ao final, ela continua sendo considerada pobre. E, quanto ao próprio navio, esse taná segue a opinião de que, assim como se deixa ao condutor de burros seu burro e ao agricultor sua junta de bois — instrumentos de sua subsistência —, também se deixa à pessoa seu navio, sem tomá-lo para o Templo.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Arachin 17b–18a, sobre a Guemará desta mishná
אבל בקרבנות אינו כן — שאם היה מצורע עשיר והעני או עני והעשיר הכל הולך אחר הבאת קרבנותיו כדאמר בברייתא בגמ' מצורע שהביא קרבנותיו כו' טעמא דאיקבע בקרא למר כדאית ליה ולמר כדאית ליה אבל מדברי כולן נלמד דבתר הבאת קרבנותיו אזלינן: אפי' מת אביו כו' — אערכין קאי ומלתא באפי נפשיה היא. אפי' מת אביו של מעריך זה בשעה שהכהן מעריכו והניח לו ריבוא מנה או ספינתו כו'. ובגמ' מפרש לה: כשהיתה — ספינתו מוחכרת ביד אחרים ואין לו בתוכה כלום אלא שכרה והיינו ריבוא דקתני במתני':

Rashi explica que, nos sacrifícios, seja o leproso rico ou pobre no momento em que efetivamente traz suas oferendas, é essa condição — a do momento da entrega — que determina o tipo de sacrifício, conforme se aprende da baraita da Guemará. Esclarece que o caso “mesmo que seu pai tenha morrido” retorna ao tema dos valores fixos, tratando de um assunto à parte: mesmo que o pai de quem está sendo avaliado tenha morrido justamente no momento em que o sacerdote o avalia, deixando-lhe uma herança vultosa, ou seu navio esteja a caminho com grande soma. E, sobre o navio, precisa que se trata de uma embarcação alugada a terceiros, da qual a pessoa nada possui além do direito ao aluguel futuro — e é a esse aluguel que a mishná se refere ao mencionar a “miríade”.