Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Bet · Mishná 5 de 7

O diálogo de Rabi Yishmael e Rabi Yehoshua sobre os queijos dos gentios

מִפְּנֵי מָה אָסְרוּ גְבִינוֹת הַגּוֹיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Um diálogo narrativo único no capítulo: Rabi Yishmael pergunta a Rabi Yehoshua, enquanto caminham juntos, o motivo da proibição do queijo dos gentios; duas explicações são propostas e refutadas, e Rabi Yehoshua finalmente desvia a conversa para uma questão de leitura gramatical de um versículo do Cântico dos Cânticos.

Disse Rabi Yehudá: perguntou Rabi Yishmael a Rabi Yehoshua, enquanto caminhavam pelo caminho. Disse-lhe: por que proibiram os queijos dos gentios? Disse-lhe: porque os coagulam com o estômago de um animal morto sem abate ritual. Disse-lhe: mas o estômago de um animal de holocausto é mais grave que o estômago de um animal morto sem abate ritual, e disseram: um sacerdote de bom juízo o queima ainda cru! E não concordaram com ele, mas disseram: não se aproveita dele, mas também não há sacrilégio. Voltou e disse-lhe: porque os coagulam com o estômago de bezerros de idolatria. Disse-lhe: se assim é, por que não o proibiram com proibição de proveito? Desviou-o para outro assunto; disse-lhe: Yishmael, meu irmão, como lês tu, "porque são bons os teus amores, mais que o vinho" — no masculino, ou "porque são bons os teus amores" — no feminino? Disse-lhe: "porque são bons os teus amores", no feminino. Disse-lhe: não é assim, pois o versículo companheiro o ensina: "ao aroma dos teus óleos, que são bons".Esta mishná rompe com o padrão formal do capítulo — não apresenta uma regra seca, mas um diálogo narrado em primeira pessoa por Rabi Yehudá, testemunha do que se passou entre seus mestres. Rabi Yishmael pergunta o fundamento da proibição do queijo de gentios, já estabelecida na mishná anterior; Rabi Yehoshua responde que se deve ao temor de que o coalho usado para coagular o leite tenha sido extraído do estômago de um animal morto sem abate ritual válido (nevelá), o que tornaria proibido tudo o que dele derivasse. Rabi Yishmael contesta com um argumento a fortiori: mesmo o estômago de um animal oferecido como holocausto no Templo — categoria de santidade muito mais rigorosa que a de um simples nevelá — é tratado, segundo tradição citada por ele, com relativa leveza: um sacerdote sensato pode simplesmente queimá-lo cru, sem maiores cuidados rituais adicionais; e mesmo essa posição não foi aceita integralmente pelos Sábios, que apenas concordaram que dele não se tira proveito, mas negaram que seu uso indevido configure sacrilégio (meilá). Se mesmo o estômago do animal mais sagrado de todos recebe tratamento relativamente brando, argumenta Rabi Yishmael, como pode o estômago de um simples nevelá justificar proibição tão severa quanto a do queijo inteiro? Diante dessa objeção, Rabi Yehoshua reformula sua resposta: a verdadeira razão seria o temor de que o coalho viesse do estômago de bezerros usados especificamente em sacrifício idólatra — categoria de gravidade muito maior. Mas Rabi Yishmael pressiona ainda mais: se a preocupação é idolatria, por que então o queijo não foi proibido também com proibição de proveito pleno, como ocorre tipicamente com objetos ligados à idolatria? Diante dessa segunda objeção, sem resposta satisfatória à mão, Rabi Yehoshua desvia habilmente a conversa para uma questão totalmente diferente — uma sutileza gramatical na leitura de um versículo do Cântico dos Cânticos, testando se Yishmael lê a palavra "teus amores" na forma masculina ou feminina, e demonstrando, a partir do paralelismo do versículo seguinte, que a leitura correta é a feminina. A Guemará compreende esse desvio não como fuga arbitrária, mas como reflexo de uma prática pedagógica documentada: quando os Sábios promulgavam um novo decreto rabínico, evitavam divulgar seu verdadeiro fundamento durante os primeiros doze meses, por temor de que a razão fosse contestada ou menosprezada antes que o próprio decreto se consolidasse na prática popular.

אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, שָׁאַל רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אֶת רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, כְּשֶׁהָיוּ מְהַלְּכִין בַּדֶּרֶךְ. אָמַר לוֹ, מִפְּנֵי מָה אָסְרוּ גְבִינוֹת הַגּוֹיִם. אָמַר לוֹ, מִפְּנֵי שֶׁמַּעֲמִידִין אוֹתָהּ בְּקֵבָה שֶׁל נְבֵלָה. אָמַר לוֹ, וַהֲלֹא קֵבַת עוֹלָה חֲמוּרָה מִקֵּבַת נְבֵלָה, וְאָמְרוּ, כֹּהֵן שֶׁדַּעְתּוֹ יָפָה, שׂוֹרְפָהּ חַיָּה. וְלֹא הוֹדוּ לוֹ, אֲבָל אָמְרוּ, אֵין נֶהֱנִין וְלֹא מוֹעֲלִין. חָזַר, אָמַר לוֹ, מִפְּנֵי שֶׁמַּעֲמִידִין אוֹתָהּ בְּקֵבַת עֶגְלֵי עֲבוֹדָה זָרָה. אָמַר לוֹ, אִם כֵּן, לָמָּה לֹא אֲסָרוּהָ בַהֲנָאָה. הִשִּׂיאוֹ לְדָבָר אַחֵר, אָמַר לוֹ, יִשְׁמָעֵאל אָחִי, הֵיאַךְ אַתָּה קוֹרֵא (שיר השירים א), כִּי טוֹבִים דֹּדֶיךָ מִיָּיִן, אוֹ כִּי טוֹבִים דֹּדַיִךְ. אָמַר לוֹ, כִּי טוֹבִים דֹּדַיִךְ. אָמַר לוֹ, אֵין הַדָּבָר כֵּן, שֶׁהֲרֵי חֲבֵרוֹ מְלַמֵּד עָלָיו, לְרֵיחַ שְׁמָנֶיךָ טוֹבִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 2:5
אָמַר רַבִּי יְהוּדָה שָׁאַל רַבִּי יִשְׁמָעֵאל וְכוּ׳: מַה שֶּׁהֵבִיא שֶׁלֹּא יוֹדִיעוּ בְּטַעַם אִסּוּרוֹ לְקֵרוּב אוֹתָהּ גְּזֵרָה, דִּלְמָא אָתֵי לְזַלְזוּלֵי בָּהּ... וְטַעַם אִסּוּר גְּבִינַת הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים שֶׁמָּא יַעֲמִידֶנָּה בְּעוֹר קֵבַת נְבֵלָה... וְקֵבַת הַנְּבֵלָה עַצְמָהּ הִיא מֻתֶּרֶת, לְפִי שֶׁהִיא פִּרְשָׁא בְעָלְמָא, וְלָכֵן מֻתָּר לָנוּ לִיקַּח קֵבוֹת הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים וְנַעֲמִיד בָּהֶן הַגְּבִינָה, וְכֵן כְּשֶׁאָנוּ רוֹאִין הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים שֶׁהֶעֱמִיד הֶחָלָב בְּקֵבָה עַצְמָהּ, מֻתָּר לָנוּ לֶאֱכֹל אוֹתָהּ גְּבִינָה.

Rambam explica a lógica pedagógica por trás do desvio de Rabi Yehoshua: quando os Sábios decretavam uma proibição por medida preventiva, era seu costume não revelar de imediato o verdadeiro motivo do decreto, precisamente para aproximar seus efeitos — pois, se a razão fosse conhecida cedo demais, alguém poderia discordar dela e acabar menosprezando a própria proibição antes que se consolidasse. Sobre o conteúdo halachico, Rambam esclarece um ponto técnico central: o próprio estômago de um animal nevelá é, em si, permitido — pois é considerado mero excremento (pirsha), sem qualquer proibição intrínseca; por isso é permitido a um judeu pegar estômagos de animais abatidos por gentios e neles coagular seu próprio queijo, e mesmo quando se vê o gentio coagulando o leite diretamente no próprio estômago do animal, é permitido comer esse queijo. A proibição do queijo de gentios decorre exclusivamente da incerteza sobre a origem do coalho quando não presenciada — nunca da substância do estômago em si.

Bartenura · Avodá Zará 2:5
מִפְּנֵי מָה אָסְרוּ גְבִינוֹת שֶׁל נָכְרִים. בַּאֲכִילָה, וּלְרַבָּנָן קָא בָעֵי, וּמִשּׁוּם חָלָב שֶׁל בְּהֵמָה טְמֵאָה לֵיכָּא לְמֵיחַשׁ, דְּקִים לָן דַּחֲלֵב בְּהֵמָה טְמֵאָה אֵינוֹ נִקְפֶּה: שׂוֹרְפָהּ חַיָּה. דְּפִרְשָׁא בְעָלְמָא הִיא: הִשִּׂיאוֹ לְדָבָר אַחֵר. וְלֹא רָצָה לְהַגִּיד לוֹ טַעְמוֹ שֶׁל דָּבָר, מִפְּנֵי שֶׁעֲדַיִן לֹא עָבְרוּ שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ שֶׁנִּגְזְרָה גְזֵרָה זוֹ.

Bartenura esclarece que a pergunta de Rabi Yishmael se dirige à posição dos Sábios — não à de Rabi Meir —, e que não há motivo para temer que o leite usado tenha vindo de um animal impuro, pois é sabido que o leite de animal impuro não coagula naturalmente. Sobre "queima-o cru", explica que isso é permitido porque o estômago em si é considerado mero excremento, sem santidade própria. E confirma a explicação de Rambam quanto ao desvio de Rabi Yehoshua: ele não quis revelar o verdadeiro motivo porque ainda não haviam se passado os doze meses desde que o decreto fora promulgado — pois é costume dos Sábios não divulgar de imediato o fundamento de uma nova proibição rabínica, precisamente para que ela se consolide antes de ser posta em questão.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 34b (Guemará sobre esta mishná)
מִפְּנֵי מָה אָסְרוּ גְבִינַת עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים. בַּאֲכִילָה, וְלְרַבָּנָן קָבָעֵי לָהּ, דְּהָא מִשּׁוּם חֵלֶב שֶׁל בְּהֵמָה טְמֵאָה לֵיכָּא לְמֵיחַשׁ, דְּקַיְמָא לָן חֵלֶב טָמֵא אֵינוֹ עוֹמֵד, כְּלוֹמַר אֵינָהּ נִקְפֵּית: אַחְדְּבוֹי. שֵׁם חָכָם: שׁוֹר הַנִּסְקָל. אָסוּר בַּהֲנָאָה הוּא.

Rashi confirma, no ponto exato em que a Guemará retoma o diálogo desta mishná, que a pergunta de Rabi Yishmael se dirige à posição dos Sábios sobre a proibição do queijo apenas ao consumo — e não à posição de Rabi Meir, que o proíbe também com proibição de proveito — e reafirma que não há necessidade de temer leite de animal impuro, pois é regra estabelecida que tal leite não coagula. Rashi identifica ainda "Achadevoi" como o nome de um sábio citado na continuação da sugia, e nota, de passagem, que o "touro condenado à lapidação" (shor hanisqal) — mencionado na mesma discussão como paralelo para o princípio de que o produto de um processo proibido segue o destino do próprio processo — é proibido com proibição de proveito plena, reforçando por analogia o raciocínio de Rabi Yishmael sobre a gravidade crescente que deveria, em tese, acompanhar a origem idólatra do coalho.