Disse Rabi Yehudá: perguntou Rabi Yishmael a Rabi Yehoshua, enquanto caminhavam pelo caminho. Disse-lhe: por que proibiram os queijos dos gentios? Disse-lhe: porque os coagulam com o estômago de um animal morto sem abate ritual. Disse-lhe: mas o estômago de um animal de holocausto é mais grave que o estômago de um animal morto sem abate ritual, e disseram: um sacerdote de bom juízo o queima ainda cru! E não concordaram com ele, mas disseram: não se aproveita dele, mas também não há sacrilégio. Voltou e disse-lhe: porque os coagulam com o estômago de bezerros de idolatria. Disse-lhe: se assim é, por que não o proibiram com proibição de proveito? Desviou-o para outro assunto; disse-lhe: Yishmael, meu irmão, como lês tu, "porque são bons os teus amores, mais que o vinho" — no masculino, ou "porque são bons os teus amores" — no feminino? Disse-lhe: "porque são bons os teus amores", no feminino. Disse-lhe: não é assim, pois o versículo companheiro o ensina: "ao aroma dos teus óleos, que são bons". — Esta mishná rompe com o padrão formal do capítulo — não apresenta uma regra seca, mas um diálogo narrado em primeira pessoa por Rabi Yehudá, testemunha do que se passou entre seus mestres. Rabi Yishmael pergunta o fundamento da proibição do queijo de gentios, já estabelecida na mishná anterior; Rabi Yehoshua responde que se deve ao temor de que o coalho usado para coagular o leite tenha sido extraído do estômago de um animal morto sem abate ritual válido (nevelá), o que tornaria proibido tudo o que dele derivasse. Rabi Yishmael contesta com um argumento a fortiori: mesmo o estômago de um animal oferecido como holocausto no Templo — categoria de santidade muito mais rigorosa que a de um simples nevelá — é tratado, segundo tradição citada por ele, com relativa leveza: um sacerdote sensato pode simplesmente queimá-lo cru, sem maiores cuidados rituais adicionais; e mesmo essa posição não foi aceita integralmente pelos Sábios, que apenas concordaram que dele não se tira proveito, mas negaram que seu uso indevido configure sacrilégio (meilá). Se mesmo o estômago do animal mais sagrado de todos recebe tratamento relativamente brando, argumenta Rabi Yishmael, como pode o estômago de um simples nevelá justificar proibição tão severa quanto a do queijo inteiro? Diante dessa objeção, Rabi Yehoshua reformula sua resposta: a verdadeira razão seria o temor de que o coalho viesse do estômago de bezerros usados especificamente em sacrifício idólatra — categoria de gravidade muito maior. Mas Rabi Yishmael pressiona ainda mais: se a preocupação é idolatria, por que então o queijo não foi proibido também com proibição de proveito pleno, como ocorre tipicamente com objetos ligados à idolatria? Diante dessa segunda objeção, sem resposta satisfatória à mão, Rabi Yehoshua desvia habilmente a conversa para uma questão totalmente diferente — uma sutileza gramatical na leitura de um versículo do Cântico dos Cânticos, testando se Yishmael lê a palavra "teus amores" na forma masculina ou feminina, e demonstrando, a partir do paralelismo do versículo seguinte, que a leitura correta é a feminina. A Guemará compreende esse desvio não como fuga arbitrária, mas como reflexo de uma prática pedagógica documentada: quando os Sábios promulgavam um novo decreto rabínico, evitavam divulgar seu verdadeiro fundamento durante os primeiros doze meses, por temor de que a razão fosse contestada ou menosprezada antes que o próprio decreto se consolidasse na prática popular.
Rambam explica a lógica pedagógica por trás do desvio de Rabi Yehoshua: quando os Sábios decretavam uma proibição por medida preventiva, era seu costume não revelar de imediato o verdadeiro motivo do decreto, precisamente para aproximar seus efeitos — pois, se a razão fosse conhecida cedo demais, alguém poderia discordar dela e acabar menosprezando a própria proibição antes que se consolidasse. Sobre o conteúdo halachico, Rambam esclarece um ponto técnico central: o próprio estômago de um animal nevelá é, em si, permitido — pois é considerado mero excremento (pirsha), sem qualquer proibição intrínseca; por isso é permitido a um judeu pegar estômagos de animais abatidos por gentios e neles coagular seu próprio queijo, e mesmo quando se vê o gentio coagulando o leite diretamente no próprio estômago do animal, é permitido comer esse queijo. A proibição do queijo de gentios decorre exclusivamente da incerteza sobre a origem do coalho quando não presenciada — nunca da substância do estômago em si.
Bartenura esclarece que a pergunta de Rabi Yishmael se dirige à posição dos Sábios — não à de Rabi Meir —, e que não há motivo para temer que o leite usado tenha vindo de um animal impuro, pois é sabido que o leite de animal impuro não coagula naturalmente. Sobre "queima-o cru", explica que isso é permitido porque o estômago em si é considerado mero excremento, sem santidade própria. E confirma a explicação de Rambam quanto ao desvio de Rabi Yehoshua: ele não quis revelar o verdadeiro motivo porque ainda não haviam se passado os doze meses desde que o decreto fora promulgado — pois é costume dos Sábios não divulgar de imediato o fundamento de uma nova proibição rabínica, precisamente para que ela se consolide antes de ser posta em questão.
Rashi confirma, no ponto exato em que a Guemará retoma o diálogo desta mishná, que a pergunta de Rabi Yishmael se dirige à posição dos Sábios sobre a proibição do queijo apenas ao consumo — e não à posição de Rabi Meir, que o proíbe também com proibição de proveito — e reafirma que não há necessidade de temer leite de animal impuro, pois é regra estabelecida que tal leite não coagula. Rashi identifica ainda "Achadevoi" como o nome de um sábio citado na continuação da sugia, e nota, de passagem, que o "touro condenado à lapidação" (shor hanisqal) — mencionado na mesma discussão como paralelo para o princípio de que o produto de um processo proibido segue o destino do próprio processo — é proibido com proibição de proveito plena, reforçando por analogia o raciocínio de Rabi Yishmael sobre a gravidade crescente que deveria, em tese, acompanhar a origem idólatra do coalho.