Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Bet · Mishná 7 de 7

Alimentos de gentios permitidos: leite supervisionado, mel, gafanhotos

אֵלּוּ מֻתָּרִין בַּאֲכִילָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná final do Perek Bet: em espelho à mishná anterior, agora se lista o que é permitido — leite ordenhado sob a vista de um israelita, mel, cachos que gotejam sem tornar-se suscetíveis à impureza, conservados sem vinho, tainha inteira, salmoura com peixe visível, com a disputa de Rabi Yossei sobre azeitonas amolecidas e a regra final sobre gafanhotos.

Estas são permitidas quanto à comida: o leite que um gentio ordenhou e um israelita o vê; e o mel; e os cachos, ainda que gotejem, não há neles a lei de tornar apto a receber impureza por líquido; e os conservados cujo costume não é colocar neles vinho e vinagre; e a tainha que não é picada; e a salmoura em que há peixe; e a folha de assafétida; e as azeitonas prensadas enroladas. Rabi Yossei diz: as amolecidas são proibidas. Os gafanhotos que vêm do cesto são proibidos; do local de armazenamento, são permitidos. E o mesmo vale para a teruma.Esta mishná fecha o Perek Bet em espelho exato à anterior, item por item: onde a mishná 2:6 listava o que é proibido ao consumo, esta lista o que é permitido, muitas vezes tratando-se exatamente da mesma categoria de alimento em circunstâncias distintas. O leite ordenhado por um gentio é permitido quando um israelita o observa diretamente durante a ordenha, eliminando a dúvida sobre a origem do animal que fundamentava a proibição anterior. Os "cachos" — favos de mel ou cachos de uva colhidos da colmeia ou do pé — são permitidos mesmo quando gotejam líquido, pois esse gotejamento não é considerado suficiente para tornar o alimento "apto a receber impureza" através de contato com líquido, uma categoria técnica da lei de pureza ritual; a razão, como explicam os comentadores, é que o próprio dono não deseja aquele líquido, tornando-o irrelevante para esse efeito legal. Os conservados sem costume de receber vinho ou vinagre, a tainha inteira e reconhecível, e a salmoura em que se vê claramente o peixinho kilvit nadando, são todos permitidos pela ausência da dúvida que motivava a proibição paralela. A folha inteira de assafétida — em contraste com o pedaço cortado a faca da mishná anterior — é permitida, pois não houve corte que pudesse reter gordura proibida. Quanto às azeitonas prensadas e enroladas, a mishná registra uma disputa: a opinião anônima as permite, mas Rabi Yossei considera proibidas as que ficaram tão amolecidas a ponto do caroço se soltar sozinho ao serem tocadas — sinal de que foram amolecidas com vinho. A mishná encerra com os gafanhotos comestíveis: os vendidos avulsos, expostos num cesto diante do comerciante, são proibidos, por temor de que tenham sido borrifados com vinho para parecerem mais frescos; mas os que vêm diretamente do depósito onde foram armazenados em conjunto, sem esse tipo de manipulação comercial, são permitidos — e a mesma lógica, conclui a mishná, aplica-se à teruma, a porção sacerdotal separada dos produtos agrícolas.

אֵלּוּ מֻתָּרִין בַּאֲכִילָה. חָלָב שֶׁחֲלָבוֹ גוֹי וְיִשְׂרָאֵל רוֹאֵהוּ. וְהַדְּבַשׁ. וְהַדַּבְדָּנִיּוֹת אַף עַל פִּי שֶׁמְּנַטְּפִין, אֵין בָּהֶם מִשּׁוּם הֶכְשֵׁר מַשְׁקֶה. וּכְבָשִׁין שֶׁאֵין דַּרְכָּן לָתֵת לְתוֹכָן יַיִן וָחֹמֶץ. וְטָרִית שֶׁאֵינָהּ טְרוּפָה. וְצִיר שֶׁיֶּשׁ בָּהּ דָּגָה. וְעָלֶה שֶׁל חִלְתִּית. וְזֵיתִים גְּלֻסְקָאוֹת הַמְגֻלְגָּלִין. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, הַשְּׁלוּחִין, אֲסוּרִין. הַחֲגָבִים הַבָּאִים מִן הַסְּלוּלָה, אֲסוּרִין. מִן הַהַפְתֵּק, מֻתָּרִין. וְכֵן לִתְרוּמָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 2:7
וְאֵלּוּ מֻתָּרִין בַּאֲכִילָה וְכוּ׳: וְאָמְרוֹ בְּכָאן רוֹאֵהוּ, שֶׁהוּא מָצוּי עִמּוֹ, שֶׁהוּא יָכוֹל לִרְאוֹתוֹ בְּשָׁעָה שֶׁהוּא חוֹלֵב... וְהַדַּבְדָּנִיּוֹת, אוֹתָן הַחֲתִיכוֹת שֶׁרוֹדִין מִן הַכַּוֶּרֶת שֶׁבָּהֶן הַדְּבַשׁ, וְאַף עַל פִּי שֶׁהֵן נוֹטְפוֹת לַחוּת לֹא נֹאמַר שֶׁמָּא הִזִּיל עֲלֵיהֶן יַיִן... הַשְּׁלוּחִין, אוֹמֵר כְּשֶׁהָיוּ הַזֵּיתִים הַשְּׁרוּיִין בַּמַּיִם נִתְרַכֵּךְ עַד שֶׁכְּשֶׁתִּקַּח זַיִת אֶחָד מֵהֶם תִּקַּח אוֹתוֹ מִבְּלִי הַגַּרְעִין שֶׁלּוֹ וְיִפֹּל, הִנֵּה הוּא אָסוּר.

Rambam esclarece que "um israelita o vê" não exige presença ininterrupta durante toda a ordenha, mas basta que o israelita esteja habitualmente presente, de modo que possa observar o gentio a qualquer momento — pois o próprio gentio, temendo ser flagrado, evita usar leite de animal impuro quando sabe que pode ser visto a qualquer instante. Sobre "dabdaniot", esclarece tratar-se dos pedaços retirados da colmeia contendo o mel; e mesmo que gotejem líquido, não se teme que tenha sido borrifado vinho sobre eles. Sobre "shluchin", Rambam explica com precisão o critério de Rabi Yossei: quando as azeitonas embebidas em água se amoleceram a tal ponto que, ao se tomar uma delas na mão, o próprio caroço se solta e cai sozinho, isso é sinal de que foram amolecidas por vinho, e por isso ficam proibidas segundo sua opinião — mas a halachá não segue Rabi Yossei neste ponto.

Bartenura · Avodá Zará 2:7
וְיִשְׂרָאֵל רוֹאֵהוּ. לָאו דַּוְקָא רוֹאֵהוּ, אֶלָּא כֵיוָן דְּאִי קָאֵי חָזֵי לֵיהּ אַף עַל גַּב דְּכִי יָתֵיב לֹא חָזֵי לֵיהּ, הַנָּכְרִי אִרְתּוֹתֵי מִרְתַּת... הַשְּׁלוּחִין אֲסוּרִין. אִם נִתְרַכְּכוּ הַזֵּיתִים כָּל כָּךְ עַד שֶׁכְּשֶׁלּוֹקֵחַ הַזַּיִת בְּיָדוֹ הַגַּרְעִין שֶׁבְּתוֹכוֹ מִשְׁתַּלֵּחַ וְנוֹפֵל מֵאֵלָיו, אֲסוּרִין, דְּמֵחֲמַת הַיַּיִן נִתְרַכְּכוּ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי: מִן הַסְּלוּלָה. מִן הַסַּל שֶׁלִּפְנֵי הַחֶנְוָנִי, אֲסוּרִים, שֶׁמְּזַלֵּף עֲלֵיהֶם יַיִן.

Bartenura precisa que "um israelita o vê" não exige que ele esteja de fato olhando no exato momento da ordenha: basta que, se o israelita estivesse de pé, pudesse vê-lo — mesmo que, sentado, não veja no instante — pois o próprio gentio já teme a possibilidade de ser observado a qualquer momento, e por isso não arrisca usar leite impuro. Confirma o critério de Rabi Yossei sobre as azeitonas amolecidas a ponto do caroço cair sozinho, e reafirma que a halachá não o segue. Por fim, esclarece que "do cesto" refere-se aos gafanhotos expostos no cesto do vendedor diante da loja, proibidos porque o comerciante costuma borrifá-los com vinho para que pareçam mais frescos e atraentes aos compradores; já os provenientes diretamente do local de armazenamento em conjunto não recebem esse tratamento, permanecendo permitidos.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 39b–40a (Guemará sobre esta mishná, encerramento do Perek Bet)
מַתְנִיתִין וְהַדַּבְדָּנִיּוֹת. אֶשְׁכּוֹלוֹת שֶׁל עֲנָבִים: שֶׁאֵינָהּ טְרוּפָה. שֶׁנִּיכָּרִין חֲתִיכוֹת דָּגִים: עָלֶה שֶׁל חִלְתִּית. דְּהָא לֹא מַפְסְקוּ לָהּ בְּסַכִּינָא: וְזֵיתֵי גְלֻסְקָאוֹת הַמְגֻלְגָּלִין. זֵיתִים הַכְּנוּסִים בִּכְלִי עָגוֹל וּמִתְחַמְּמִין וְנֶעֱצָרִים מֵאֲלֵיהֶן... שְׁלוּחִין אֲסוּרִין. אֲזֵיתִים קָמַהְדַּר... מִן הַסְּלוּלָה. הַנִּמְכָּרִין בְּסַל לִפְנֵי הֶחָנְוָנִי אֲסוּרִין... מִן הַהַפְתֵּק. מָקוֹם כִּנּוּסָן שֶׁל חֲגָבִים מְלוּחִים: מֻתָּרִין. דְּאֵין מְזַלֵּף עֲלֵיהֶן עַד שֶׁנּוֹתְנוֹ לְפָנָיו לִמְכֹּר.

No trecho gemárico que comenta o texto desta mishná final, Rashi identifica "dabdaniot" como cachos de uva; "não picada" significa que se conservam reconhecíveis os próprios pedaços dos peixes; "folha de assafétida" é permitida precisamente porque, sendo folha inteira, não foi cortada com faca — ao contrário do pedaço da mishná anterior, evitando o problema da gordura da lâmina; "azeitonas prensadas e enroladas" são as reunidas num recipiente redondo, onde se aquecem e se comprimem naturalmente por seu próprio peso. Sobre "shluchin", Rashi confirma tratar-se de azeitonas já amolecidas a ponto de "voltarem" — soltarem o caroço sozinho. E, no encerramento do capítulo, explica os dois termos finais: "do cesto" são os gafanhotos vendidos no cesto diante do comerciante, proibidos por presunção de terem sido borrifados com vinho; "do depósito" é o local onde os gafanhotos salgados são reunidos em conjunto, permitidos porque não recebem esse borrifo até o momento em que são de fato colocados à venda diante do cliente — encerrando, assim, a série de alimentos de gentios que ocupou a segunda metade do Perek Bet.