Seder Nezikin · Massechet Avodá Zará · Perek Dalet · Mishná 9 de 12

Pisar uvas com o gentio, mas não colher

דּוֹרְכִין עִם הַגּוֹי בַּגַּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Distingue as diferentes fases do processo de produção do vinho — pisar as uvas e colhê-las — quanto à permissão de trabalhar junto com um gentio, e traça um paralelo com o caso do israelita que produz em estado de impureza ritual.

Pisa-se com o gentio no lagar, mas não se colhe com ele. Um israelita que trabalha em impureza — não se pisa nem se colhe com ele, mas se levam com ele barris ao lagar, e se traz com ele do lagar. Um padeiro que trabalha em impureza — não se amassa nem se molda com ele, mas se leva com ele o pão ao vendedor.

דּוֹרְכִין עִם הַגּוֹי בַּגַּת, אֲבָל לֹא בוֹצְרִין עִמּוֹ. יִשְׂרָאֵל שֶׁהוּא עוֹשֶׂה בְטֻמְאָה, לֹא דוֹרְכִין וְלֹא בוֹצְרִין עִמּוֹ, אֲבָל מוֹלִיכִין עִמּוֹ חָבִיּוֹת לַגַּת, וּמְבִיאִין עִמּוֹ מִן הַגָּת. נַחְתּוֹם שֶׁהוּא עוֹשֶׂה בְטֻמְאָה, לֹא לָשִׁין וְלֹא עוֹרְכִין עִמּוֹ, אֲבָל מוֹלִיכִין עִמּוֹ פַת לַפַּלְטֵר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Avodá Zará 4:9
דּוֹרְכִין עִם הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים וְכוּ׳: דּוֹרְכִין עִם הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים בַּגַּת אֲבָל לֹא בוֹצְרִין עִמּוֹ, הִיא מִשְׁנָה רִאשׁוֹנָה. וְדַע כִּי אָסוּר לְיִשְׂרָאֵל שֶׁיִּשְׁתַּמֵּשׁ לוֹ עוֹבֵד כּוֹכָבִים בַּבָּצִיר לְכַתְּחִלָּה בְּשׁוּם פָּנִים, וְכֵן בָּאֵר הַתַּלְמוּד מִשּׁוּם לֵךְ לֵךְ אָמְרִין נְזִירָא, סְחוֹר סְחוֹר לְכַרְמָא לֹא תִקְרַב.

Rambam explica que "pisa-se com o gentio no lagar, mas não se colhe com ele" reflete a formulação da "primeira mishná". A razão de vedar a colheita conjunta está no princípio de que aquilo que é colhido para o lagar já se torna suscetível à impureza, e o toque do gentio o torna efetivamente impuro — de modo que o israelita que colhe junto com ele estaria contribuindo para essa transgressão. Precisa, porém, que é proibido ao israelita valer-se de um gentio para a colheita de sua vinha de forma alguma, nem sequer para simplesmente levar as uvas ao lagar — como o Talmud fundamenta no ditado "afasta-te, afasta-te, dizem ao nazireu: não te aproximes sequer das cercanias da vinha".

Bartenura · Avodá Zará 4:9
דּוֹרְכִין עִם הַגּוֹי בַּגַּת. וְלֹא אָמְרִינַן מִשְׂתַּכֵּר בְּאִסּוּרֵי הֲנָאָה הוּא... וּמִשּׁוּם גּוֹרֵם טֻמְאָה לֵיכָּא, שֶׁמִּשָּׁעָה שֶׁדָּרַךְ בָּהֶם הַנָּכְרִי מְעַט, נִטְמְאוּ: אֲבָל לֹא בוֹצְרִין עִמּוֹ. לְפִי שֶׁנּוֹתְנָם בְּגַת טְמֵאָה, וְהַנָּכְרִי מְטַמֵּא הָעֲנָבִים בְּמַגָּעוֹ... מִיהוּ יִשְׂרָאֵל הַבּוֹצֵר כַּרְמוֹ לְכַתְּחִלָּה לֹא יִקַּח נָכְרִי עִמּוֹ אֲפִלּוּ לְהָבִיא עֲנָבִים לַגַּת, מִשּׁוּם לֵךְ לֵךְ אָמְרִינַן נְזִירָא כוּ׳: וְיִשְׂרָאֵל הָעוֹשֶׂה פֵרוֹתָיו בְּטֻמְאָה. עוֹבֵר עֲבֵרָה הוּא: אֲבָל מוֹלִיכִין עִמּוֹ. חָבִיּוֹת רֵיקָנִיּוֹת לַגַּת: וּמְבִיאִין עִמּוֹ. חָבִיּוֹת מְלֵאוֹת מִן הַגַּת.

Bartenura explica que se pode pisar com o gentio no lagar sem que se veja nisso lucro proveniente do que é proibido para benefício, porque, desde o instante em que o gentio pisou minimamente as uvas, elas já se tornaram suscetíveis à impureza por conta própria. "Mas não se colhe com ele" porque as uvas colhidas são levadas a um lagar impuro, e o gentio as torna impuras com o próprio toque. Ainda assim, precisa que o israelita que colhe sua própria vinha não deve, de saída, levar consigo um gentio nem mesmo para simplesmente transportar uvas ao lagar, conforme o princípio "afasta-te, dizem ao nazireu". Já o "israelita que trabalha em impureza" comete de fato uma transgressão; mas pode "levar com ele" barris vazios ao lagar e "trazer com ele" barris cheios do lagar, pois nisso não há parte ativa na transgressão.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Talmud Bavli, Avodá Zará 55a–55b (Guemará sobre esta mishná)
דּוֹרְכִין עִם הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים בַּגַּת — וְלֹא אָמְרִינַן מִשְׂתַּכֵּר בְּאִסּוּרֵי הֲנָאָה הוּא, וּמִשּׁוּם גּוֹרֵם טֻמְאָה לֵיכָּא, שֶׁמִּשָּׁעָה שֶׁדָּרַךְ בָּהֶן הָעוֹבֵד כּוֹכָבִים מְעַט נִטְמְאוּ: אֲבָל לֹא בוֹצְרִין — לְפִי שֶׁנּוֹתְנִין בְּגַת טְמֵאָה, וְגוֹרֵם טֻמְאָה הוּא: וְיִשְׂרָאֵל הָעוֹשֶׂה בְּטֻמְאָה עוֹבֵר עֲבֵרָה הוּא, שֶׁהֲרֵי נִצְטַוָּה עַל כָּךְ, הִלְכָּךְ אֲפִלּוּ דּוֹרְכָן נַמִּי אָסוּר: אֲבָל מוֹלִיכִין עִמּוֹ חָבִיּוֹת — רֵיקָנִיּוֹת לַגַּת, וּמְבִיאִין עִמּוֹ חָבִיּוֹת מְלֵאוֹת מִן הַגַּת, דְּאֵין כָּאן עֲבֵרָה: לֹא לָשִׁין וְלֹא עוֹרְכִין עִמּוֹ — שֶׁכׇּל מַעֲשֵׂה עֲרִיכָה זוֹ בַּעֲבֵרָה:

Rashi explica que se pode pisar as uvas com o gentio no lagar sem que se considere que o israelita lucra com algo proibido para benefício, e que não há aqui "causar impureza", pois, desde que o gentio pisou minimamente as uvas, elas já se tornaram impuras por si mesmas. "Mas não se colhe com ele" porque as uvas colhidas são depositadas num lagar impuro, e esse próprio ato de colher constitui causar impureza. Sobre o israelita que trabalha em impureza, esclarece que ele comete de fato uma transgressão, pois foi advertido contra isso — por isso, nesse caso, é proibido até mesmo pisar com ele. Mas "leva-se com ele" barris vazios ao lagar, e "traz-se com ele" barris cheios do lagar, pois nisso não há transgressão alguma. E "não se amassa nem se molda o pão com ele" porque todo o ato de moldar constitui parte ativa da própria transgressão.