Não colocará um homem um forno dentro de casa, a não ser que haja sobre ele altura de quatro cúbitos. — É preciso deixar um vão livre de quatro cúbitos entre a boca do forno e o teto, para que o fogo não alcance e incendeie a estrutura de madeira do teto.
Se o colocasse no sótão, é necessário que haja debaixo dele um piso de argamassa de três palmos; e no fogareiro, um palmo. — Quando o forno fica no andar superior de uma casa de dois pisos, a preocupação se inverte: o calor de baixo para cima ameaça incendiar o teto do andar inferior. Por isso exige-se um piso de argamassa de barro de três palmos de espessura sob o forno — além da mesma exigência de quatro cúbitos de altura acima dele. Para o kirá, o fogareiro menor usado para assentar panelas e que não produz um fogo tão intenso quanto o forno, basta um palmo de argamassa.
E se causou dano, paga o que causou de dano. — Mesmo que o dono do forno tenha respeitado escrupulosamente todas as medidas de segurança acima, se ainda assim o fogo escapar e causar dano à propriedade do vizinho, ele é responsável e deve pagar pelo prejuízo causado — as medidas reduzem o risco, mas não eliminam a responsabilidade quando o dano de fato ocorre.
Rabi Shimon diz: não disseram todas essas medidas senão que, se causou dano, fica isento de pagar. — Rabi Shimon inverte a lógica da mishná: para ele, essas medidas de altura e espessura não são um requisito prévio para poder instalar o forno, mas sim uma condição de isenção — quem as cumpre e mesmo assim, por infelicidade, causa um dano, fica isento de pagar, precisamente porque tomou todo o cuidado exigido. A halachá não segue Rabi Shimon.
Rambam identifica a kirá como um fogão menor de duas panelas e confirma que a halachá não segue Rabi Shimon; Bartenura explica o motivo de cada medida e reafirma a decisão contra Rabi Shimon.
Rambam remete a uma explicação anterior sua sobre o que é a kirá: uma estrutura construída para cozinhar, sobre a qual se assentam duas panelas simultaneamente — diferente do forno, feito para uma única peça de pão ou prato de cada vez, e por isso submetido a uma exigência maior de distância. Rambam confirma, por fim, que a halachá não segue a opinião de Rabi Shimon.
Bartenura explica que o piso de argamassa de três palmos serve para que o teto do andar inferior não pegue fogo, e que, mesmo com essa proteção, ainda se exige os quatro cúbitos de altura acima do forno. Sobre "se causou dano, paga o que causou de dano", esclarece que, apesar de o dono ser responsável em caso de dano, ainda assim os vizinhos podem impedi-lo previamente de instalar o forno sem essas medidas — pois pode acontecer de o fogo incendiar as casas alheias e ele não ter com que pagar. E confirma: a halachá não segue Rabi Shimon.
O perush de Rashi sobre a Guemará em Bava Batra 20b, que aborda esta mishná logo após discutir a lei do vizinho de um armazém de vinho.
Rashi confirma que os quatro cúbitos exigidos são o espaço vazio entre a boca do forno e o teto acima dele, precisamente para que a chama não alcance e incendeie a madeira do teto.
Rashi identifica a ma'aziva — traduzida ao francês antigo como estrique — como um piso de argamassa de barro, e explica que o fogareiro (kirá) precisa apenas de um palmo de piso, e não três como o forno, porque é um utensílio de barro sobre o qual se assenta uma panela e no qual não se faz um fogo tão intenso quanto no forno.
Num trecho da Guemará que discute uma baraita paralela sobre esses mesmos números, Rashi explica que o forno doméstico comum — ao qual a mishná atribui a medida de três palmos — equivale, em intensidade de fogo, ao fogareiro usado por padeiros profissionais, que é aceso continuamente; daí a necessidade de esclarecer com precisão qual medida se aplica a qual tipo de instalação.