[Quem vende a casa] também não vendeu o poço, nem a cisterna (dut), mesmo que lhe tenha escrito "a profundidade e a altura". — O bor é um poço escavado no solo; o dut é uma construção de pedra erguida sobre o solo, com função semelhante. Como seu uso — armazenar água — é diferente do uso da casa, eles não são incluídos na venda genérica, mesmo que o contrato mencione expressamente "a profundidade e a altura" do imóvel, pois essa fórmula só serve para incluir o que está acima ou abaixo da superfície visível, não estruturas com finalidade própria.
E o vendedor precisa comprar para si um caminho pelo domínio do comprador — palavras de Rabi Akiva. — Como o poço e a cisterna ficam dentro do terreno agora vendido, e o vendedor os reteve para si, ele perde automaticamente o direito de atravessar a propriedade do comprador para chegar até eles. Rabi Akiva sustenta que "quem vende, vende com boa vontade" — presume-se que o vendedor não reservou nada além do que disse explicitamente, nem sequer o caminho de acesso — e por isso precisa adquiri-lo à parte.
E os Sábios dizem: não precisa comprar para si um caminho. — Os Sábios discordam: para eles, "quem vende, vende com má vontade" — presume-se que o vendedor, ao reter o poço e a cisterna para si, também reservou implicitamente o caminho necessário para alcançá-los, sem precisar comprá-lo à parte.
E Rabi Akiva concorda que, quando o vendedor lhe diz "exceto estes", ele não precisa comprar para si um caminho. — Se o vendedor, ao redigir o contrato, fez questão de dizer explicitamente "vendo a casa exceto o poço e a cisterna" — uma ressalva desnecessária, já que eles não seriam vendidos de qualquer forma —, Rabi Akiva concorda que essa ênfase extra revela a intenção de reservar também o caminho de acesso.
Vendeu-os a outro: Rabi Akiva diz que [o comprador] não precisa comprar para si um caminho; e os Sábios dizem que precisa comprar para si um caminho. — No caso inverso — o vendedor ficou com a casa, mas vendeu o poço e a cisterna a uma terceira pessoa — as posições se espelham: Rabi Akiva, fiel ao princípio de que se vende com boa vontade, entende que o caminho até o poço já foi incluído na venda ao terceiro; os Sábios, pelo princípio oposto, exigem que esse comprador adquira o caminho à parte.
Rambam explica a fórmula técnica exigida para incluir poço e cisterna na venda e resume a lógica das duas posições; Bartenura confirma que a halachá segue Rabi Akiva.
Rambam define o bor como uma escavação no solo e o dut como uma construção erguida sobre o solo com a mesma função. Explica que a fórmula "profundidade e altura" só transfere o que está visível acima ou abaixo do nível do chão — para incluir de fato o poço e a cisterna, seria necessário escrever explicitamente "adquira desde o fundo do abismo até a altura do firmamento". Também esclarece que "vendeu-os a outro" não significa vender sem ter direito de passagem — refere-se a uma venda separada, feita antes ou simultaneamente à venda da casa. Por fim, resume a lógica de cada posição — Rabi Akiva sustenta que quem vende, vende com boa vontade, sem reservar nada para si — e confirma que a halachá já foi estabelecida segundo Rabi Akiva.
Bartenura confirma as definições técnicas do poço e da cisterna, e explica cada cláusula da disputa: o vendedor, ao reservar o poço e a cisterna, precisa comprar caminho segundo Rabi Akiva (que vende com boa vontade) mas não segundo os Sábios (que vendem com má vontade e reservam implicitamente o caminho); no caso inverso — venda do poço e da cisterna a um terceiro —, o comprador não precisa comprar caminho segundo Rabi Akiva, pois o caminho já veio junto na venda generosa. E a halachá segue Rabi Akiva em ambas as direções.
Rashbam sobre os dapim 64a–65a: primeiro fecha a discussão sobre "profundidade e altura" que abriu esta mishná, depois consolida por que a halachá segue Rabi Akiva.
Rashbam retoma o argumento lógico que fecha a discussão do daf: se, ao vender a casa sem especificação, o comprador já adquirisse automaticamente "profundidade e altura" — isto é, tudo o que está abaixo e acima do imóvel —, então um telhado com parapeito de dez palmos (visto na mishná anterior) também deveria ser incluído, já que está "por cima" da casa. O fato de o telhado alto ficar de fora prova que a fórmula genérica não inclui automaticamente profundidade nem altura — reforçando por que poço e cisterna, que ficam abaixo do solo, exigem menção explícita para serem incluídos na venda.
Rashbam registra que uma versão da tradição chegou a transmitir a decisão halachica em sentido invertido — como se a lei seguisse os Sábios, que consideram que "o vendedor vende com má vontade" —, mas esclarece que a conclusão final e aceita é a oposta: a halachá segue Rabi Akiva, que sustenta que o vendedor vende com boa vontade. Cita o testemunho de Rav Huna a Rav Nachman, vindo da corte próxima ao Exilarca, onde os juízes eram mais experientes — reforçando por que esta é a versão confiável da tradição.