Quatro medidas há entre os vendedores: vendeu-lhe trigo bom e foi encontrado ruim — o comprador pode desistir. Ruim, e foi encontrado bom — o vendedor pode desistir. Ruim, e foi encontrado ruim, ou bom, e foi encontrado bom — nenhum dos dois pode desistir. — A regra geral é que apenas a parte prejudicada pela discrepância entre o prometido e o entregue tem o direito de cancelar o negócio; quando o produto corresponde exatamente ao que foi prometido — seja bom, seja ruim —, nenhuma das partes pode alegar erro e desfazer a venda.
Vendeu-lhe avermelhado e foi encontrado branco, ou branco e foi encontrado avermelhado; vendeu madeira de oliveira e foi encontrada de sicômoro, ou de sicômoro e foi encontrada de oliveira; vendeu vinho e foi encontrado vinagre, ou vinagre e foi encontrado vinho — em todos estes, ambos podem desistir. — Quando o que foi entregue não é apenas de qualidade diferente, mas de tipo diferente do que foi prometido — outra cor de trigo, outra madeira, outra bebida —, o próprio objeto da venda está em questão, e por isso qualquer uma das partes pode cancelar o negócio, já que cada tipo tem seus próprios apreciadores e ninguém pode presumir que a outra parte concordaria com a substituição.
Rambam explica o raciocínio por trás da distinção entre qualidade (que gera apenas direito da parte prejudicada) e tipo (que gera direito de ambas as partes); Bartenura detalha, caso a caso, por que cada combinação de "quatro medidas" segue a regra que segue.
Rambam explica que "avermelhado" (shechamtit) refere-se a trigo de coloração vermelha, e esclarece a lógica da diferença entre as duas primeiras categorias: quando o trigo entregue é apenas de qualidade inferior ao prometido, o comprador insatisfeito pode aceitar a mercadoria mesmo assim, mas o vendedor não pode forçar a devolução se o comprador estiver satisfeito. Já quando se trata de vinho trocado por vinagre ou vice-versa, qualquer uma das partes pode desistir, porque há pessoas que preferem vinho e outras que preferem vinagre — sendo perfeitamente possível que o vendedor precisasse justamente do vinagre e não do vinho, de modo que a substituição o prejudica tanto quanto poderia prejudicar o comprador.
Bartenura explica que, quando o vendedor prometeu trigo bom e entregou trigo ruim, isso equivale a um caso de enganação (ona'á) — e por isso apenas a parte enganada, aqui o comprador, pode desistir; o vendedor não pode reclamar mesmo que o preço do trigo tenha subido bastante depois. Já com trigo avermelhado trocado por branco (ou vice-versa), há quem prefira um tipo e quem prefira outro — e por isso qualquer combinação assim configura erro de negócio (mekach ta'ut) para ambas as partes, permitindo que qualquer uma delas desista; isso contrasta com o caso de "bom" trocado por "ruim", onde todos preferem invariavelmente o bom, restando claro quem foi prejudicado.
Rashbam sobre o daf 83b introduz as "quatro medidas" como quatro leis distintas e explica com precisão por que, no caso de trigo ruim trocado por bom, é o vendedor quem tem o direito de desistir.
Rashbam abre explicando que as "quatro medidas" são quatro leis distintas: um caso em que só o comprador pode desistir, um em que só o vendedor pode, um em que nenhum dos dois pode, e um em que ambos podem. Explica que "avermelhado" (shechamtit) recebe esse nome por associação ao sol (chamá), que avermelha os grãos. E esclarece o princípio por trás da última categoria: quando trigo avermelhado é trocado por branco, ambas as partes se enganaram — pois o vendedor, tendo se comprometido a entregar avermelhado, desejava reter o branco para si (talvez por ter maior valor ou uso diferente), e o próprio comprador não queria o branco, mas especificamente o avermelhado — de modo que nenhum dos dois obteve o que realmente pretendia.