A casa caiu sobre ele e sobre seu pai, ou sobre ele e sobre os que o deixariam herança, e recaía sobre ele a ketubá de uma mulher e um credor. — Descreve o caso trágico em que pai e filho morrem juntos sob o desabamento de uma casa, sem que se saiba quem morreu primeiro, e o filho tinha dívidas — o pagamento da ketubá de sua esposa e a dívida a um credor — que só poderiam ser cobradas da herança que ele receberia de seu pai.
Os herdeiros do pai dizem: o filho morreu primeiro e depois morreu o pai. — Se o filho morreu primeiro, ele nunca chegou a herdar de seu pai, e portanto os credores não têm nada a cobrar dessa herança, que passa inteira aos demais herdeiros do pai.
Os credores dizem: o pai morreu primeiro e depois morreu o filho. — Os credores, ao contrário, afirmam que o pai morreu primeiro, de modo que o filho chegou a herdar seus bens antes de morrer — e assim essa herança, agora nas mãos dos herdeiros do filho, responde pelas dívidas dele.
Bet Shamai dizem: dividem. — Como não se pode determinar quem morreu primeiro, Bet Shamai propõe dividir os bens em disputa meio a meio entre os herdeiros do pai e os credores do filho.
E Bet Hilel dizem: os bens permanecem em sua posse anterior. — Bet Hilel aplica o princípio de que o ônus recai sobre quem quer tirar bens da posse estabelecida: como o último dono conhecido dos bens era o pai, eles permanecem com os herdeiros do pai, e os credores — que teriam de provar que o filho chegou a herdá-los — não conseguem cobrar.
Rambam esclarece um ponto sutil na formulação da mishná: a alegação dos herdeiros do pai (“o filho morreu primeiro”) não lhes traz vantagem alguma contra os herdeiros do próprio filho — pois estes herdariam o avô de qualquer forma — mas sim contra os credores. E confirma explicitamente o sentido da expressão final de Bet Hilel: “os bens permanecem em sua posse” significa em posse dos herdeiros do pai.
Bartenura explica a consequência prática direta da alegação dos herdeiros do pai: se o filho morreu antes do pai, ele jamais chegou a adquirir aqueles bens — e por isso o credor não tem como se pagar a partir deles.
O Rashbam concretiza o caso com nomes: Reuven e seu pai Yaacov morrem juntos sob a casa, sem que se saiba a ordem. Explica que a alegação “os herdeiros do pai” também pode incluir tios de Reuven — irmãos de Yaacov — que herdariam se Reuven for considerado premorto. Sobre a razão de Bet Shamai, remete ao tratado de Yevamot: Bet Shamai considera que um documento de dívida pronto para ser cobrado equivale, para este fim, a já ter sido cobrado — de modo que o crédito do credor concorre igualmente com a herança certa. Bet Hilel, por sua vez, aplica o princípio geral de que a posse presumida (chazaká) prevalece: como Yaacov era o último dono certo dos bens, seus herdeiros — certos por definição — têm precedência sobre o credor, cujo direito é apenas duvidoso, e uma reivindicação duvidosa não retira bens de quem tem posse certa.