Qual é o inocente, e qual é o avisado? Avisado é todo aquele sobre o qual testemunharam três dias. E inocente, desde que se afaste dele por três dias — palavras de Rabi Yehudá. Rabi Meir diz: avisado é aquele sobre o qual testemunharam três vezes. E inocente é todo aquele que as crianças tocam nele e ele não chifra. — A mishná retoma a pergunta central que fecha o Perek Alef — qual a diferença entre o boi inocente e o avisado — e agora define com precisão os critérios técnicos de cada estado. Segundo Rabi Yehudá, o que transforma um boi inocente em avisado é o testemunho de que ele chifrou (ou realizou outro dos cinco atos) em três dias distintos — não bastando reincidências no mesmo dia; e o que faz o boi avisado retornar ao estado de inocente é o fato de ele se abster do ato por três dias consecutivos, mostrando que a tendência cessou. Rabi Meir discorda quanto à contagem: para ele, o que importa não é o número de dias, mas o número de reincidências testemunhadas — três vezes, mesmo que todas no mesmo dia, já bastam para tornar o boi avisado. E quanto ao retorno ao estado inocente, Rabi Meir propõe um critério comportamental, não temporal: o boi volta a ser inocente quando crianças podem tocá-lo, puxá-lo e brincar com ele sem que ele chifre — evidenciando que perdeu de fato sua tendência agressiva.
Rambam fixa a halachá, dividindo entre as duas opiniões: como Rabi Yehudá quanto ao boi avisado, e como Rabi Meir quanto ao boi inocente. Bartenura detalha os termos técnicos de cada posição.
Rambam explica que "as crianças tocam nele" significa que elas o puxam e brincam com ele, e ele não as chifra. E fixa a halachá de modo dividido entre os dois tanaim: quanto à definição de boi avisado, a halachá segue Rabi Yehudá (três dias de testemunho); mas quanto à definição de boi inocente — isto é, o que faz o boi avisado retornar ao estado de inocente —, a halachá segue Rabi Meir: enquanto o boi estiver avisado para chifrar, ele não retorna à sua inocência até que crianças brinquem com ele e ele não as danifique chifrando.
Bartenura explica que "desde que se afaste dele por três dias" significa que o boi vê outros bois e não os chifra, retornando assim à sua inocência. "Três vezes" segundo Rabi Meir vale mesmo que ocorridas num único dia — mas a halachá não segue Rabi Meir neste ponto: o boi só se torna avisado quando testemunharam contra ele em três dias distintos. Já quanto a "as crianças tocam nele" — que puxam o boi e brincam com ele sem que chifre —, a halachá segue Rabi Meir: um boi avisado não retorna ao estado de inocente até que crianças brinquem com ele sem serem chifradas.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 23b), explicando o critério do retorno à inocência segundo Rabi Yehudá.
Rashi explica que "desde que se afaste dele por três dias" significa que, ao ver outros bois em três dias distintos e não os chifrar, o boi já demonstrou o abandono de sua tendência e retorna ao estado de inocente. E, sobre a opinião de Rabi Meir, confirma que "três vezes" vale mesmo que as três reincidências tenham ocorrido em um único dia — distinguindo assim claramente a lógica de contagem por dias (Rabi Yehudá) da contagem por ocorrências (Rabi Meir).