Seder Nezikin · Massechet Bava Kamma · Perek Bet · Mishná 4 de 6

Três dias ou três vezes: a disputa de Rabi Yehudá e Rabi Meir

אֵיזֶה הוּא תָם וְאֵיזֶה הוּא מוּעָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná define com precisão os critérios que tornam um boi "avisado" e os que o fazem retornar a "inocente" — uma disputa entre Rabi Yehudá (contagem de dias) e Rabi Meir (contagem de reincidências e teste com crianças).

Qual é o inocente, e qual é o avisado? Avisado é todo aquele sobre o qual testemunharam três dias. E inocente, desde que se afaste dele por três dias — palavras de Rabi Yehudá. Rabi Meir diz: avisado é aquele sobre o qual testemunharam três vezes. E inocente é todo aquele que as crianças tocam nele e ele não chifra.A mishná retoma a pergunta central que fecha o Perek Alef — qual a diferença entre o boi inocente e o avisado — e agora define com precisão os critérios técnicos de cada estado. Segundo Rabi Yehudá, o que transforma um boi inocente em avisado é o testemunho de que ele chifrou (ou realizou outro dos cinco atos) em três dias distintos — não bastando reincidências no mesmo dia; e o que faz o boi avisado retornar ao estado de inocente é o fato de ele se abster do ato por três dias consecutivos, mostrando que a tendência cessou. Rabi Meir discorda quanto à contagem: para ele, o que importa não é o número de dias, mas o número de reincidências testemunhadas — três vezes, mesmo que todas no mesmo dia, já bastam para tornar o boi avisado. E quanto ao retorno ao estado inocente, Rabi Meir propõe um critério comportamental, não temporal: o boi volta a ser inocente quando crianças podem tocá-lo, puxá-lo e brincar com ele sem que ele chifre — evidenciando que perdeu de fato sua tendência agressiva.

אֵיזֶה הוּא תָם, וְאֵיזֶה הוּא מוּעָד. מוּעָד, כֹּל שֶׁהֵעִידוּ בוֹ שְׁלשָׁה יָמִים. וְתָם, מִשֶּׁיַּחֲזֹר בּוֹ שְׁלשָׁה יָמִים, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, מוּעָד, שֶׁהֵעִידוּ בוֹ שָׁלשׁ פְּעָמִים. וְתָם, כֹּל שֶׁיְּהוּ הַתִּינוֹקוֹת מְמַשְׁמְשִׁין בּוֹ וְאֵינוֹ נוֹגֵחַ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam fixa a halachá, dividindo entre as duas opiniões: como Rabi Yehudá quanto ao boi avisado, e como Rabi Meir quanto ao boi inocente. Bartenura detalha os termos técnicos de cada posição.

Rambam · Perush HaMishná, Bava Kamma 2:4
אֵיזֶה הוּא תָם וְאֵיזֶה הוּא מוּעָד כוּ׳: מְמַשְׁמְשִׁין רְצוֹנוֹ לוֹמַר שֶׁמּוֹשְׁכִין אוֹתוֹ וּמְשַׂחֲקִים בּוֹ וְאֵינוֹ נוֹגְחָם. וְהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה בְּפֵרוּשׁ שׁוֹר הַמּוּעָד וְהֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר בְּפֵרוּשׁ שׁוֹר תָּם. וְכָל זְמַן שֶׁהוּעַד הַשּׁוֹר לִנְגִיחָה לֹא יַחֲזֹר לְתַמּוּתוֹ עַד שֶׁיְּשַׂחֲקוּ בּוֹ הַנְּעָרִים וְלֹא יַזִּיקֵם בִּנְגִיחָה

Rambam explica que "as crianças tocam nele" significa que elas o puxam e brincam com ele, e ele não as chifra. E fixa a halachá de modo dividido entre os dois tanaim: quanto à definição de boi avisado, a halachá segue Rabi Yehudá (três dias de testemunho); mas quanto à definição de boi inocente — isto é, o que faz o boi avisado retornar ao estado de inocente —, a halachá segue Rabi Meir: enquanto o boi estiver avisado para chifrar, ele não retorna à sua inocência até que crianças brinquem com ele e ele não as danifique chifrando.

Bartenura · Bava Kamma 2:4
מִשֶּׁיַּחֲזֹר בּוֹ שְׁלֹשָׁה יָמִים. שֶׁרוֹאֶה שְׁוָרִים וְאֵינוֹ נוֹגֵחַ, חוֹזֵר לְתַמּוּתוֹ. שָׁלֹשׁ פְּעָמִים. וַאֲפִלּוּ בְּיוֹם אֶחָד. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר, דְּלֹא הָוֵי מוּעָד עַד שֶׁיָּעִידוּ בּוֹ שְׁלֹשָׁה יָמִים. מְמַשְׁמְשִׁים בּוֹ. מוֹשְׁכִים אוֹתוֹ וּמְשַׂחֲקִים בּוֹ וְאֵינוֹ נוֹגֵחַ. וּבְהָא הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר, שֶׁאֵין שׁוֹר מוּעָד חוֹזֵר לְתַמּוּתוֹ עַד שֶׁיְּהוּ תִּינוֹקוֹת מְשַׂחֲקִים בּוֹ

Bartenura explica que "desde que se afaste dele por três dias" significa que o boi vê outros bois e não os chifra, retornando assim à sua inocência. "Três vezes" segundo Rabi Meir vale mesmo que ocorridas num único dia — mas a halachá não segue Rabi Meir neste ponto: o boi só se torna avisado quando testemunharam contra ele em três dias distintos. Já quanto a "as crianças tocam nele" — que puxam o boi e brincam com ele sem que chifre —, a halachá segue Rabi Meir: um boi avisado não retorna ao estado de inocente até que crianças brinquem com ele sem serem chifradas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 23b), explicando o critério do retorno à inocência segundo Rabi Yehudá.

Rashi · רש״י
Bava Kamma 23b, s.v. מתני' משיחזור בו שלשה ימים; שלשה פעמים
מַתְנִי׳ מִשֶּׁיַּחֲזֹר בּוֹ שְׁלֹשָׁה יָמִים - שֶׁרוֹאֶה שְׁוָרִים וְאֵינוֹ נוֹגֵחַ חוֹזֵר לְתַמּוּתוֹ: שְׁלֹשָׁה פְּעָמִים - וַאֲפִלּוּ בְּיוֹם אֶחָד

Rashi explica que "desde que se afaste dele por três dias" significa que, ao ver outros bois em três dias distintos e não os chifrar, o boi já demonstrou o abandono de sua tendência e retorna ao estado de inocente. E, sobre a opinião de Rabi Meir, confirma que "três vezes" vale mesmo que as três reincidências tenham ocorrido em um único dia — distinguindo assim claramente a lógica de contagem por dias (Rabi Yehudá) da contagem por ocorrências (Rabi Meir).