Dois que caminhavam em via pública, um correndo e um caminhando, ou eram ambos correndo, e se lesaram um ao outro, ambos estão isentos. — A mishná trata da colisão entre dois transeuntes quando pelo menos um deles corre. Embora correr em via pública seja, em geral, um desvio do comportamento costumeiro — e por isso quem se choca correndo poderia ser considerado responsável —, esta mishná está incompleta e deve ser entendida à luz da Guemará: trata-se especificamente das vésperas de Shabat e de festas, quando é costume correr para preparar as necessidades do dia sagrado, tornando a corrida um comportamento permitido e não uma negligência; ou de dias comuns em que ambos corriam igualmente, de modo que nenhum dos dois pode alegar que o outro se desviou do comportamento normal.
Rambam e Bartenura completam o texto da mishná com a distinção entre vésperas de Shabat e festas — quando correr é permitido — e os demais dias, quando ambos correndo se equiparam.
Rambam estabelece o princípio geral: correr em via pública é um comportamento incomum, e quem causa dano correndo é, em regra, responsável — a menos que seja véspera de Shabat ou de festa, quando as pessoas se apressam para cumprir os preparativos do dia sagrado, tornando a corrida um ato permitido. Rambam observa explicitamente que o texto da mishná está incompleto, e propõe a leitura correta: um correndo e um caminhando nas vésperas de Shabat e festas, ou ambos correndo nos demais dias do ano, e se lesaram mutuamente — ambos estão isentos.
Bartenura confirma que a mishná está incompleta e deve ser lida com o acréscimo da Guemará: um correndo e um caminhando apenas nas vésperas de Shabat e festas — quando quem corre o faz com permissão, por ir cumprir os preparativos do dia sagrado —, ou ambos correndo nos demais dias do ano — pois, sendo ambos em desvio igual do costume, nenhum pode responsabilizar o outro.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 32a), explicando a distinção entre a mishná e a opinião de Isi ben Yehudá.
Rashi, retomando a comparação com o caso paralelo da vaca deitada e da que caminha normalmente, explica que a mishná de nossa seção também se apoia na distinção entre o comportamento costumeiro — sem desvio — e o comportamento que se desvia da norma; e remete à explicação, adiante na Guemará, de por que aquele que corre nas vésperas de Shabat e festas o faz com permissão.