Um boi que se esfregava numa parede e ela caiu sobre uma pessoa: pretendia matar um animal e matou uma pessoa, [pretendia matar] um não judeu e matou um israelita, [pretendia matar] um feto não viável e matou um recém-nascido viável — está isento. — A mishná trata do caso de um boi já advertido a derrubar paredes sobre alguém — um boi muad para esse tipo específico de ação — mas cuja intenção, no momento do ato, mirava um alvo diferente daquele que efetivamente morreu. Assim como a responsabilidade penal humana pela morte de outra pessoa exige que a intenção tenha sido dirigida a essa vítima específica, a responsabilidade do boi (e, por extensão, a obrigação do dono de pagar o resgate) também depende de uma correspondência entre o alvo pretendido e o resultado: se o boi visava um animal e matou uma pessoa, visava um não judeu e matou um israelita, ou visava um feto que não sobreviveria de qualquer forma e matou um recém-nascido plenamente viável — em todos esses casos, não há correspondência entre a intenção e o resultado, e o dono está isento até mesmo do pagamento do resgate.
Rambam esclarece que a isenção mencionada é apenas quanto à pena capital do boi, não quanto ao resgate quando cabível; Bartenura detalha a fonte da equiparação entre a responsabilidade do boi e a dos seres humanos.
Rambam esclarece um ponto essencial que a mishná pressupõe implicitamente: a palavra "isento" refere-se apenas à isenção da pena de morte do boi — não necessariamente ao pagamento do resgate. Se o boi já era muad especificamente para esse tipo de ação (esfregar-se em paredes para derrubá-las sobre pessoas), o dono continua obrigado ao resgate mesmo quando a intenção do boi, naquele ato específico, mirava um alvo diferente do que efetivamente morreu — pois o resgate, ao contrário da pena capital do boi, não exige a mesma correspondência exata entre intenção e resultado.
Bartenura traz a fonte da equiparação: o versículo diz "o boi será apedrejado, e também seu dono será morto" — igualando a condição do boi à do dono. Assim como o próprio dono, se matasse alguém, só seria passível de pena capital tendo agido com intenção dirigida especificamente àquela vítima, também o boi só é passível de apedrejamento quando sua ação correspondeu, em intenção, ao resultado ocorrido. Quanto ao resgate, porém, Bartenura explica que a palavra "אִם" ("se houver resgate") no versículo é lida como inclusão: ela amplia a obrigação de resgate também para o caso em que a morte ocorreu sem intenção dirigida — mostrando por que o pagamento do resgate pode ainda ser devido mesmo quando a pena capital do boi não se aplica.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 44a), sobre a distinção entre a intenção de ferir um animal e a intenção de ferir uma pessoa.
Rashi explica o critério prático pelo qual se determina que o boi agiu sem a intenção necessária para a pena capital: quando se observa que o animal se esfregava na parede por prazer próprio — para se coçar ou se aliviar — e não com o propósito de derrubá-la sobre alguém, mesmo que a parede efetivamente caia e mate uma pessoa, falta a correspondência entre intenção e resultado exigida para a condenação do boi.