Um boi que cornou a vaca, e seu feto foi encontrado morto a seu lado, e não se sabe se ela deu à luz antes de ele cornar, ou se deu à luz depois de ele cornar: paga meio dano pela vaca, e um quarto de dano pelo feto. — Como o boi é tam, a responsabilidade normal por dano é de metade do valor. Quanto à vaca em si, isso é certo e se paga integralmente como tal. Mas quanto ao feto morto, há uma dúvida real: se a vaca já havia dado à luz antes da cornada, o feto nada tem a ver com o boi, e não se deveria pagar nada por ele; se, porém, a cornada ocorreu enquanto o feto ainda estava no ventre, o dono do boi deveria meio dano também pelo feto, como parte do corpo da vaca. Diante dessa incerteza insolúvel, a mishná determina que se pague a metade do que seria devido no caso de certeza — ou seja, um quarto do valor do feto.
E igualmente, uma vaca que cornou o boi, e sua cria foi encontrada a seu lado, e não se sabe se ela deu à luz antes de cornar, ou se deu à luz depois de cornar: paga meio dano da vaca, e um quarto de dano da cria. — O caso espelhado: agora é a vaca (tam) que corna o boi, e o valor do dano é cobrado do próprio corpo do animal agressor — regra própria do boi tam. Paga-se, então, metade do dano a partir do valor da vaca; e, sobre a mesma dúvida quanto à cria — se já nascida ou ainda no ventre no momento da cornada —, paga-se apenas um quarto do dano a partir do valor da cria, pela mesma lógica da divisão diante da incerteza.
Rambam identifica a mishná com a posição de Sumchos sobre bens em disputa incerta, e nota que a halachá segue os Sábios; Bartenura confirma e detalha os dois cenários — vaca presente e vaca perdida.
Rambam identifica esta mishná com a posição de Sumchos, para quem um bem em disputa cuja titularidade é incerta se divide entre as partes. Ele explica que, se soubéssemos com certeza que o feto morreu depois da cornada, o dono do boi deveria meio dano também por ele; e se soubéssemos que já havia nascido antes, nada deveria. Como o caso é duvidoso, paga-se um quarto — a metade da metade. Rambam ressalva, porém, que a halachá não segue Sumchos neste princípio geral, e sim os Sábios, para quem quem quer tirar de seu próximo tem o ônus da prova: mesmo que o lesado alegue com certeza e o causador do dano diga "não sei", nada se tira dele sem prova concreta.
Bartenura explica que, sendo tam, o boi normalmente pagaria meio dano; mas como o feto está numa dúvida real — se já era parte separada da vaca ou não —, divide-se essa metade ao meio, resultando em um quarto. Ele confirma que esta mishná reflete a opinião de Sumchos, segundo a qual bens em disputa incerta se dividem, mas que a halachá segue os Sábios, para quem quem quer extrair de outro tem o ônus da prova. No caso espelhado da vaca que corna o boi, Bartenura esclarece a distinção prática: se a vaca agressora ainda existe, paga-se meio dano a partir do próprio corpo dela, como é regra do tam; se a vaca já não existe (foi vendida ou morreu), paga-se apenas um quarto a partir do valor da cria — pois, sendo tam, o pagamento só pode vir do corpo do animal ou de seu valor equivalente, e a cria, estando em dúvida quanto a ser parte dela no momento da cornada, só responde por um quarto.
O perush de Rashi sobre a Guemará (Bava Kamma 46a), abrindo o Perek Hei, sobre os termos exatos da mishná e a base da divisão em um quarto.
Rashi esclarece que o feto foi encontrado morto ao lado da vaca, e que a incerteza é precisamente sobre se ele já havia sido abortado antes da cornada — sem relação com ela — ou se foi a própria cornada que causou o aborto. Ele reafirma a lógica do quarto de dano: como o tam paga meio dano, e este feto está sob dúvida real quanto à sua ligação com o evento, divide-se essa metade ao meio. Sobre o segundo caso — a vaca que corna o boi —, Rashi remete a explicação detalhada para a Guemará, que se segue.