Seder Nezikin · Massechet Bava Metzia · Perek Bet · Mishná 5 de 11

Também a veste estava incluída em todos estes

אַף הַשִּׂמְלָה הָיְתָה בִכְלָל כָּל אֵלֶּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Depois de percorrer casos concretos, a mishná revela o princípio hermenêutico por trás de toda a lista: por que a Torá menciona a veste separadamente de "todo achado do teu irmão", e o que essa separação ensina sobre o critério geral da obrigação de anunciar.

Também a veste estava incluída em todos estes. Por que saiu? Para comparar a ela — para te dizer: assim como a veste é especial, por ter nela sinais e ter reclamantes, também tudo o que tenha nele sinais e tenha reclamantes, é obrigado a anunciar.O versículo de Devarim enumera separadamente "o boi", "a ovelha", "a veste" e depois generaliza para "toda perda do teu irmão"; a veste, portanto, já estaria logicamente incluída na categoria geral, tornando sua menção explícita redundante — a não ser que sirva para ensinar algo por comparação (hekesh). A mishná extrai a lição: a veste é o caso paradigmático porque combina duas características — tem sinais próprios que permitem identificá-la (tecido, costura, remendos) e tem um dono que certamente a reclamará, já que ninguém fabrica uma veste e depois se despreocupa dela. É essa combinação — sinal mais reclamante provável — que define, em qualquer objeto, a obrigação geral de anunciar; onde falta uma das duas condições, como se viu nos casos anteriores desta lista, a obrigação cai.

אַף הַשִּׂמְלָה הָיְתָה בִכְלָל כָּל אֵלֶּה. לָמָּה יָצָאת. לְהָקִּישׁ אֵלֶיהָ, לוֹמַר לְךָ, מַה שִּׂמְלָה מְיֻחֶדֶת שֶׁיֶּשׁ בָּהּ סִימָנִים וְיֶשׁ לָהּ תּוֹבְעִים, אַף כָּל דָּבָר שֶׁיֶּשׁ בּוֹ סִימָנִים וְיֶשׁ לוֹ תוֹבְעִים, חַיָּב לְהַכְרִיז:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

O princípio hermenêutico da mishná nasce diretamente da estrutura do versículo de Devarim, que lista o boi, a ovelha e a veste antes de generalizar para "toda perda do teu irmão".

Devarim 22:1,3
לֹא־תִרְאֶה אֶת־שׁוֹר אָחִיךָ אוֹ אֶת־שֵׂיוֹ נִדָּחִים וְהִתְעַלַּמְתָּ מֵהֶם, הָשֵׁב תְּשִׁיבֵם לְאָחִיךָ... וְכֵן תַּעֲשֶׂה לַחֲמֹרוֹ וְכֵן תַּעֲשֶׂה לְשִׂמְלָתוֹ וְכֵן תַּעֲשֶׂה לְכָל־אֲבֵדַת אָחִיךָ אֲשֶׁר־תֹּאבַד מִמֶּנּוּ וּמְצָאתָהּ, לֹא תוּכַל לְהִתְעַלֵּם.
"Não verás o boi do teu irmão, ou a sua ovelha, desgarrados, e te esconderás deles; sem falta os farás voltar ao teu irmão... Assim farás com o seu asno, e assim farás com a sua veste, e assim farás com toda perda do teu irmão, que se lhe perder e a achares; não poderás te esconder."

A mishná lê a estrutura do versículo como deliberadamente redundante: depois de mencionar boi, ovelha e asno, a Torá já teria dito o essencial com "toda perda do teu irmão" — bastaria isso para abranger a veste também. Ao mencioná-la separadamente, a Torá sinaliza que ela deve servir de modelo comparativo (hekesh) para toda a categoria geral: só entra em "toda perda do teu irmão", com a obrigação plena de anúncio, aquilo que compartilha com a veste as duas propriedades que a definem — ter sinal identificável e ter um dono que certamente virá reclamá-la.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam define o que conta como desistência (yeush) que cancela a obrigação; Bartenura explica a lógica da comparação e o sentido de "reclamantes".

Rambam · Perush HaMishná, Bava Metzia 2:5
אַף הַשִּׂמְלָה הָיְתָה בִּכְלַל כָּל אֵלֶּה וְלָמָּה יָצָאת כוּ': בִּכְלַל כָּל אֵלּוּ הוּא מַה שֶּׁנֶּאֱמַר "כָּל אֲבֵדַת אָחִיךָ", כּוֹלֵל לַשִּׂמְלָה וּלְזוּלָתָהּ. וּכְשֶׁיִּהְיֶה לְאוֹתוֹ הַדָּבָר סִימָנִים וְאֵין לוֹ תוֹבְעִים, וְהוּא שֶׁיִּתְיָאֲשׁוּ הַבְּעָלִים מִמֶּנּוּ, אֵינוֹ חַיָּב לְהַחְזִיר. וְעִנְיַן הַיֵּאוּשׁ, שֶׁיֹּאמַר מִי שֶׁאָבַד מִמֶּנּוּ אוֹתוֹ הַדָּבָר, אוֹי לִי שֶׁאָבַד כָּךְ וְכָךְ, אוֹ שֶׁיֹּאמַר דָּבָר שֶׁיִּהְיֶה עִנְיָנוֹ זֶה.

Rambam explica que a categoria geral "toda perda do teu irmão" já incluiria a veste e qualquer outra coisa; e que, quando um objeto tem sinais mas não tem "reclamantes" — isto é, quando o próprio dono já desistiu dele —, não há obrigação de devolvê-lo. Rambam define com precisão o que conta como desistência (yeush): o momento em que aquele que perdeu o objeto exclama algo como "ai de mim, que perdi tal coisa", ou expressa de qualquer forma equivalente que já abandonou a esperança de recuperá-lo.

Bartenura · Bava Metzia 2:5
בִּכְלַל כָּל אֵלֶּה. בִּכְלַל כָּל אֲבֵדַת אָחִיךָ: וְלָמָּה יָצָאת. וְכֵן תַּעֲשֶׂה לְשִׂמְלָתוֹ: מַה שִּׂמְלָה מְיֻחֶדֶת. סְתָם שִׂמְלָה יֵשׁ בָּהּ סִימָן, וְכָל שִׂמְלָה יֵשׁ לָהּ בְּעָלִים תּוֹבְעִים אוֹתָהּ, שֶׁנַּעֲשֵׂית בִּידֵי אָדָם וְלֹא בָּאת מִן הַהֶפְקֵר: אַף כָּל שֶׁיֶּשׁ לוֹ תוֹבְעִים. לְמִעוּטֵי מִידֵי דִמְיָאֵשׁ. וְיֵאוּשׁ הוּא, דְּשָׁמְעִינֵיהּ דְּאָמַר וַי לֵיהּ לְחֶסְרוֹן כִּיס:

Bartenura explica que "estavam incluídos em todos estes" refere-se à categoria geral de "toda perda do teu irmão", e que "por que saiu" retoma a menção específica "e assim farás com a sua veste". A veste é especial porque, sendo produto do trabalho humano e não algo que simplesmente aparece na natureza, tem necessariamente sinais próprios de fabricação, e seu dono certamente a reclama. A expressão "tudo o que tenha reclamantes" serve para excluir o objeto de que o dono já desistiu — e Bartenura ilustra o que conta como desistência ouvível: quando se ouve o próprio dono lamentar, dizendo algo como "ai de mim, por essa perda de dinheiro".