Toda coisa cuja consagração precedeu sua mácula, ou teve mácula transitória antes de sua consagração, e depois disso lhe nasceu mácula permanente, e foram resgatadas — estão isentas da primogenitura e dos presentes sacerdotais, e não saem para o não sagrado, para serem tosquiadas e trabalhadas; e sua cria e seu leite são proibidos depois de seu resgate; e quem as abate fora é culpado; e fazem substituição; e se morreram, serão sepultadas.
— Esta mishná contrasta diretamente com a anterior. Aqui o animal, no momento em que foi consagrado, ainda não tinha nenhuma mácula — ou tinha apenas uma mácula transitória, curável, que não desqualifica a consagração — e por isso recebeu a santidade plena do corpo (kedushat haguf), própria dos animais aptos ao altar. Somente depois, já consagrado, desenvolveu uma mácula permanente que o tornou impróprio para o sacrifício, obrigando ao resgate. Como sua santidade original foi da mais rigorosa, o resgate não o liberta por completo da esfera sagrada: seus futuros filhotes continuam isentos da obrigação de primogenitura, e o dono continua isento de separar os presentes sacerdotais do abate comum; o animal não pode ser tosquiado nem usado para trabalho; sua cria concebida e seu leite produzido antes do resgate permanecem proibidos mesmo depois dele; quem o abate fora do Templo antes do resgate é passível de caret, como qualquer sacrifício válido abatido fora; ele mantém o poder de consagrar por substituição outro animal trocado por ele; e, se morreu antes de ser resgatado, não pode mais ser resgatado post mortem — deve ser sepultado, como todo sacrifício desqualificado que já teve santidade do corpo.
Rambam funda esta halachá no versículo sobre os animais consagrados desqualificados: “e se houver nele mácula… em teus portões o comerás… como a gazela e como o cervo” — assim como a gazela e o cervo, animais não sagrados, estão isentos da primogenitura e dos presentes sacerdotais, também os consagrados desqualificados estão isentos deles. E, do mesmo modo, os consagrados desqualificados — isto é, os sacrifícios do altar — permanecem proibidos para tosquia e trabalho mesmo depois do resgate, e não é permitido tirar proveito deles senão após o abate. Sobre “sua cria é proibida”, Rambam esclarece que se refere à cria concebida antes do resgate e nascida depois dele; mas se a fêmea engravidou após o resgate, a cria fica em situação de dúvida. E quem abate esse animal fora do Templo antes do resgate está isento, porque tais animais não são aptos a entrar no santuário. Sobre “fazem substituição”, mesmo depois de resgatados, esclarece que o animal substituto não é oferecido no altar, mas seu destino é ser deixado sem comer até morrer, como as ofertas pelo pecado condenadas à morte, como se explicará; já o resgate desse substituto, uma vez adquirido, é oferecido normalmente, como se explicará no tratado de Temurá.