Do suspeito quanto aos primogênitos não se compra dele carne de cervos, nem peles que não estão curtidas.
— Um sacerdote (ou criador) suspeito de fraudar as leis do primogênito — por exemplo, provocando artificialmente uma mácula no animal para poder abatê-lo e vendê-lo como comum — não deve ter sua palavra aceita quando afirma que determinada carne ou pele não vem de um primogênito irregularmente abatido. A carne de cervo é proibida porque, sendo avermelhada, é facilmente confundida com carne de bezerro, dando ao suspeito uma desculpa pronta caso seja pego vendendo carne de primogênito. Peles não curtidas também são proibidas, porque, se o couro já fosse de um primogênito sem mácula (que não deveria ter sido abatido), o vendedor não se daria ao trabalho de curti-lo, temendo que isso chamasse atenção e o expusesse.
Rabi Eliezer diz: compram-se dele peles de fêmea. E não se compra dele lã lavada nem suja; mas compra-se dele fio fiado e roupas.
— Rabi Eliezer é mais permissivo quanto às peles de animais fêmeas, pois a lei do primogênito só se aplica a machos, e uma pele de fêmea é facilmente reconhecível como tal, sem risco de disfarce. Quanto à lã: se comprada já lavada, há suspeita de que o suspeito a tenha lavado justamente para disfarçar sua origem, escondendo que veio de um primogênito; mas o fio já fiado, e mais ainda as roupas já tecidas, representam tanto trabalho adicional que ninguém investiria esse esforço numa lã de origem duvidosa, sujeita a ser confiscada — por isso esses itens podem ser comprados sem receio.
Rambam explica que a carne de cervo se assemelha à de bezerro, o que dá ao suspeito uma desculpa pronta; e que peles curtidas podem ser compradas porque ninguém curte a pele de um primogênito sem mácula abatido irregularmente, por medo de que os sábios investiguem e confisquem o couro pelo trabalho investido. Sobre a pele de fêmea, cita os sábios: teme-se que o vendedor corte a região que identificaria o sexo do animal, alegando depois que ratos a roeram, disfarçando um macho como fêmea. E explica que “lã lavada de sujeira” significa lã limpa de sua sujeira original — um sinal de que houve trabalho extra, o que é ainda mais suspeito do que a lã suja. A lei não segue Rabi Eliezer.
Bartenura identifica o “suspeito quanto aos primogênitos” como um sacerdote suspeito de provocar mácula artificial no animal; explica que a carne de cervo, avermelhada, é facilmente confundida com a de bezerro, dando pretexto para vender carne de primogênito disfarçada; e que peles curtidas podem ser compradas, pois ninguém investiria esse trabalho numa pele que teme ver confiscada. Sobre a pele de fêmea, nota que é facilmente reconhecível, por isso Rabi Eliezer a permite — mas a lei não o segue. Esclarece que “lavada” significa limpa de sua sujeira, e que “roupas”, aqui, não se refere a tecido já costurado, mas a uma espécie de feltro de lã não fiada.
Rashi explica que o “suspeito quanto aos primogênitos” é alguém suspeito de provocar mácula artificial no animal; que a carne de cervo, avermelhada, é confundível com carne de bezerro, dando ao suspeito uma desculpa para vender carne de primogênito ilegalmente abatido; que peles de fêmea não levantam suspeita, pois a lei do primogênito não se aplica a fêmeas; e que fio fiado e roupas podem ser comprados, pois ninguém investiria tanto trabalho numa lã de origem duvidosa, temendo perdê-la.