Se o primogênito o perseguia, e ele o chutou e causou nele um defeito, este poderá ser abatido por conta dele.
— Diferente do caso anterior, em que a intenção era liberar o animal para abate, aqui o dono age em legítima defesa: o primogênito o persegue — um animal agressivo, correndo em sua direção — e ele o chuta apenas para se proteger, sem qualquer intenção de causar defeito. Ainda que um defeito acabe surgindo desse chute, ele não é penalizado, pois seu ato não visava produzir o defeito, mas apenas salvar-se do perigo.
Todos os defeitos capazes de vir por mão de homem — pastores israelitas são críveis, e pastores sacerdotes não são críveis.
— Há defeitos que só ocorrem naturalmente e outros que também poderiam ter sido causados propositalmente por uma pessoa — como um olho cegado ou um membro cortado. Quanto a estes últimos, quando o pastor que cuida do rebanho declara que o defeito surgiu por si mesmo, sem intervenção humana, sua palavra é decisiva para permitir o abate do primogênito. Se o pastor é um israelita comum cuidando do rebanho de um sacerdote, sua palavra é crível, pois ele não tem interesse pessoal algum em mentir sobre isso. Mas se o próprio pastor é sacerdote, cuidando do rebanho de outro sacerdote ou até do seu próprio, sua palavra não é crível, por suspeitar-se que ele mesmo, tendo algo a ganhar com a permissão do abate, tenha causado o defeito propositalmente.
Rabban Shimon ben Gamliel diz: ele é crível quanto ao [primogênito] de seu companheiro, e não é crível quanto ao seu próprio. Rabi Meir diz: o suspeito quanto a algo não o julga nem o testemunha.
— Rabban Shimon ben Gamliel discorda da opinião anterior e distingue: o sacerdote-pastor só é suspeito quando se trata do primogênito que já lhe pertence, pois ali ele tem interesse direto em causar o defeito para consumir o animal; mas quanto ao primogênito de outro sacerdote, ele não tem motivo especial para mentir, e por isso é crível. Rabi Meir vai além, aplicando o princípio geral: quem é suspeito numa determinada matéria não pode nem julgá-la nem testemunhar sobre ela — nem mesmo em favor de um terceiro, pois teme-se que os sacerdotes se beneficiem mutuamente, testemunhando uns pelos outros em regime de reciprocidade.
Rambam explica que o pastor israelita que cuida do gado de um sacerdote é crível quando declara um defeito não-intencional, pois nada ganha com isso — mesmo considerando que ele próprio poderá comer um pouco da carne quando o sacerdote a distribuir, essa vantagem mínima não é suficiente para suspeitar de mentira ("por um bocado não se suspeita"). Já o pastor sacerdote, cuidando do rebanho de um israelita, é suspeito, pois o primogênito defeituoso é doação sacerdotal, e ele teme que, avisando, o dono simplesmente o entregue a outro sacerdote. A disputa entre Rabi Meir e a opinião anônima está em que, para Rabi Meir, mesmo o primogênito de um sacerdote precisa de dois testigos leigos, enquanto para a opinião anônima basta que não seja outro sacerdote testemunhando; e Rabban Shimon ben Gamliel considera críveis até os filhos e a casa do sacerdote, exceto sua esposa, "que é como seu próprio corpo". A halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel.
Bartenura ressalva que a permissão de chutar o primogênito perseguidor vale apenas se o chute ocorreu durante a própria perseguição, não depois. Sobre a credibilidade dos pastores, explica que o israelita que cuida do gado de um sacerdote é crível ao relatar defeitos espontâneos, pois não se suspeita que minta apenas pelo benefício mínimo de comer um pedaço da carne quando o sacerdote a repartir. Já o pastor sacerdote é suspeito de ter causado o defeito ele mesmo, por temer que, avisando honestamente, seu patrão simplesmente entregue o animal a outro sacerdote. A halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel, que distingue entre o primogênito alheio (crível) e o próprio (não crível).
Rashi esclarece a cena: trata-se de um carneiro agressivo que investe contra a pessoa como se fosse marrá-la, e ela o chuta em legítima defesa, causando-lhe um defeito. Mesmo sendo o próprio sacerdote quem chutou o animal, ele pode abatê-lo por conta desse defeito, pois sua intenção era apenas salvar-se, não causar o defeito.
Rashi explica que "defeitos capazes de vir por mão de homem" são aqueles que se poderia dizer terem sido causados por alguém, como um olho cegado, uma mão cortada ou uma orelha rachada; sobre esses, o pastor israelita é crível ao dizer que ocorreram por si mesmos, enquanto o pastor sacerdote é suspeito. Rashi observa que a mishná precisou especificar "capazes de vir por mão de homem" porque há defeitos que ninguém suspeitaria de ter causado propositalmente, como ter cinco patas, ou um olho grande como o de um bezerro e outro pequeno como o de um ganso — defeitos que naturalmente não geram suspeita de intervenção humana. E remete à Guemará a explicação detalhada das posições de Rabban Shimon ben Gamliel e Rabi Meir.