E houve um caso em que o queixo inferior sobressaía sobre o superior, e Rabban Shimon ben Gamliel consultou os sábios, e eles disseram: eis que isto é mácula.
— Este é mais um precedente prático (ma'asé), do mesmo tipo já visto com o testículo colado aos flancos: um caso concreto trazido diante dos sábios para julgamento, que passa a integrar a própria mishná como fonte de lei. A Guemará explica por que a mishná precisou registrar este caso à parte: como já se ensinou que a boca semelhante à de um porco (mishná anterior) é mácula, e há sábios que discutem os limites exatos dessa categoria para o lábio superior, este caso vem esclarecer que, quanto ao queixo inferior saliente sobre o superior, não há disputa alguma — todos concordam que é mácula, sobretudo quando o próprio osso do maxilar está deslocado, e não apenas o tecido mole do lábio.
A orelha do cabrito que era dupla — disseram os sábios: quando é um só osso, é mácula; e se não é um só osso, não é mácula. Rabi Chananya ben Gamliel diz: a cauda do cabrito que se assemelha à do porco, ou que não tem três vértebras, eis que isto é mácula.
— A orelha dupla (uma orelha dentro da outra, do mesmo lado da cabeça) só é mácula quando as duas partes compartilham uma única base cartilaginosa, estruturalmente fundida; se as cartilagens são de fato separadas desde a raiz, isso não é mácula, embora a razão exata dessa distinção não seja totalmente explicada pelos comentaristas. Rabi Chananya ben Gamliel acrescenta duas máculas próprias da cauda do cabrito, distinguindo seu padrão do padrão do cordeiro: uma cauda semelhante, em formato, à de um porco, ou uma cauda que não chega a ter três vértebras — padrão diferente do exigido para o cordeiro, o que revela que os critérios deste capítulo não são uniformes entre as espécies, mas calibrados ao crescimento normal de cada uma.
Rambam explica “um só osso” como um único corpo e uma única massa, como se um material mole fosse dobrado sobre si mesmo. E esclarece uma distinção importante: a exigência de três vértebras vale para a cauda do cordeiro, mas para o cabrito uma única vértebra já é mácula, e duas não são — ponto em que todos concordam. Conclui que a lei segue Rabi Chananya ben Gamliel.
Bartenura explica por que a mishná precisou registrar este caso: como os sábios discordam de Ilá sobre até que ponto o lábio superior saliente se assemelha à boca de porco, este precedente ensina que, quanto ao queixo inferior saliente, ninguém discorda — é mácula certa. Descreve a orelha dupla como uma orelha dentro da outra do mesmo lado, e confirma que a exigência de três vértebras é exclusiva da cauda do cordeiro; no cabrito, uma vértebra já basta.
Sobre a orelha dupla do cabrito, Rashi confirma que a mácula ocorre apenas quando a cartilagem superior se dobra e se funde à inferior, formando uma única base; quando as duas cartilagens ficam separadas na parte de cima, não é mácula — e admite honestamente não ter encontrado explicado o motivo exato dessa distinção, notando apenas que ela não é comparável ao caso do animal com cinco patas, pois uma orelha dentro da outra é um defeito bem menos aparente.