Seder Kodashim · Massechet Bechorot · Perek Zayin · Mishná 7 de 7

O espelho invertido: as máculas que só desqualificam o animal, e as condições morais do sacerdote

אֵלּוּ כְּשֵׁרִין בָּאָדָם, וּפְסוּלִין בַּבְּהֵמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

As condições que desqualificam apenas o animal, e são aptas no homem

Estas condições são aptas no homem, e desqualificam no animal: a espécie e seu filho, e o trêfa, e o nascido por cesariana — e aquele com o qual se cometeu uma transgressão, e aquele que matou um homem.

— Depois de fechar a mishná anterior com condições exclusivas do homem, esta mishná inverte o espelho: apresenta agora as condições que desqualificam apenas o animal para o altar, sendo irrelevantes para o sacerdote. Um sacerdote pode servir no mesmo dia em que seu pai também serviu — mas um animal não pode ser oferecido no mesmo dia em que sua mãe (ou seu filhote) já foi oferecido, por força da proibição de “a ele e a seu filho”. O trêfa — o animal acometido de uma lesão letal — e o nascido por cesariana são desqualificados como oferenda, ainda que um sacerdote com essas mesmas condições (uma lesão letal curada, ou ter nascido por cesariana) permaneça plenamente apto. E, fechando o paralelo com a mishná 6:12, o animal com o qual se cometeu bestialidade, ou que matou um ser humano, é vedado ao altar — condição que, evidentemente, não tem equivalente no sacerdote.

אֵלּוּ כְּשֵׁרִין בָּאָדָם, וּפְסוּלִין בַּבְּהֵמָה, אוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ, וּטְרֵפָה, וְיוֹצֵא דֹפֶן, וְשֶׁנֶּעֶבְדָה בָהֶן עֲבֵרָה, וְשֶׁהֵמִית אֶת הָאָדָם:
O sacerdote que se casa em transgressão, e o que se contamina por contato com os mortos

Aquele que se casa com mulheres em transgressão é desqualificado, até que faça voto de não se beneficiar dela. Aquele que se torna impuro por contato com os mortos é desqualificado, até que aceite sobre si não mais se tornar impuro por contato com os mortos.

— A mishná encerra o perek com dois casos de desqualificação temporária, distintos de tudo o que veio antes: não são deformidades físicas, mas condutas corrigíveis. Um sacerdote que se casou com uma mulher proibida a ele por transgressão — como uma divorciada ou uma chalutzá — é desqualificado para o serviço enquanto o casamento persistir, mas pode voltar a servir assim que fizer um voto público de não mais se beneficiar dela, garantindo que efetivamente a divorciará. Já o sacerdote que se contaminou por contato com os mortos volta a ser apto bastando aceitar sobre si o compromisso de não mais se contaminar dessa forma — sem necessidade de voto formal, porque, ao contrário do impulso do desejo no primeiro caso, aqui não há uma inclinação tão forte a temer.

הַנּוֹשֵׂא נָשִׁים בַּעֲבֵרָה, פָּסוּל, עַד שֶׁיַּדִּיר הֲנָיָה. הַמִּטַּמֵּא לַמֵּתִים, פָּסוּל, עַד שֶׁיְּקַבֵּל עָלָיו שֶׁלֹּא יְהֵא מִטַּמֵּא לַמֵּתִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Bechorot 7:7
אלו כשרין באדם ופסולין בבהמה אותו ואת בנו כו': אותו ואת בנו, ר"ל שמותר לכהן ובנו לעבוד בזמן אחד, ואינו מותר להקריב אותו ואת בנו. וטרפה, הוא שאירע בו חולי ממית כנקובת המרה והמעים וכיוצא בו מאשר מצינו באלו טרפות. ומפני מה הצריכו בנשיאת נשים נדר, והספיקו בטומאה כשיקבל בלבד? לפי ששם יצרו מתגבר עליו, ולפיכך אינו נמנע אלא בנדר, ועל מנת שידור על דעת רבים שאין לו הפרה אלא לדבר מצוה... ואין אנו חוששין שמא ילך אצל חכם ויאמר לו נדר נדרתי על דעת רבים, אבל דבר מצוה בא לידי ואני רוצה להתיר הנדר מחמתו, לפי שהחכם יאמר לו על איזה דבר נדרת, לפי שהעיקר בידינו שצריך לפרוט את הנדר:

Rambam explica “a ele e a seu filho” como a permissão de pai e filho sacerdotes servirem no mesmo momento — contrastando com a proibição de oferecer no altar a mãe animal e seu filhote no mesmo dia. Explica trêfa como o animal acometido de uma doença letal, como uma perfuração na vesícula biliar ou nos intestinos, entre os demais sinais listados no capítulo próprio. E responde à pergunta central: por que o casamento proibido exige voto, e a impureza pelos mortos basta com um simples compromisso? Porque, no caso do casamento, o desejo é uma força poderosa contra a qual só o voto público protege — feito de modo que sua anulação só seja possível para um propósito de mitzvá, e mesmo assim sem risco de manipulação, pois quem busca anular um voto deve especificar sobre o que jurou.

Bartenura · Bechorot 7:7
אוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ. אָב וּבְנוֹ כֹהֵן עוֹבְדִים עֲבוֹדָה בְּיוֹם אֶחָד וּבִזְמַן אֶחָד, וְאֵין אוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ בַּבְּהֵמָה קְרֵבִין בְּיוֹם אֶחָד: וּטְרֵפָה. שֶׁנּוֹלַד בָּהּ אֶחָד מִסִּימָנֵי טְרֵפוֹת... אֵינָהּ קְרֵבָה עַל גַּבֵּי הַמִּזְבֵּחַ: וְיוֹצֵא דֹפֶן. שֶׁקָּרְעוּ אֶת אִמּוֹ וְהוֹצִיאוּהוּ חַי, בַּבְּהֵמָה פְּסוּלָה לְהַקְרָבָה, דְּכִי יֻלַּד כְּתִיב, פְּרָט לְיוֹצֵא דֹפֶן, וּבְכֹהֵן הַמַּקְרִיב לֹא מִפְּסִיל בְּהָכִי: הַנּוֹשֵׂא נָשִׁים בַּעֲבֵרָה. כֹּהֵן שֶׁנָּשָׂא גְּרוּשָׁה וַחֲלָלָה זוֹנָה, נוֹדֵר וְעוֹבֵד, אַף עַל פִּי שֶׁעֲדַיִן לֹא גֵרֵשׁ, מֻתָּר לַעֲבֹד אַחַר שֶׁנָּדַר שֶׁלֹּא יֵהָנֶה הוּא מִמֶּנָּה וְהִיא מִמֶּנּוּ עַד שֶׁיְּגָרֵשׁ... עַד שֶׁיְּקַבֵּל עָלָיו שֶׁלֹּא יְהֵא מִטַּמֵּא לְמֵתִים. הָכָא סַגִּי לֵיהּ בְּקַבָּלָה, וְלֹא מַדְּרִינַן לֵיהּ כְּמוֹ גַבֵּי נוֹשֵׂא נָשִׁים בַּעֲבֵרָה, מִשּׁוּם דְּהָתָם יִצְרוֹ תוֹקְפוֹ, הָכָא גַבֵּי טֻמְאָה אֵין יִצְרוֹ תוֹקְפוֹ, הִלְכָּךְ בְּקַבָּלָה גְרֵידָא סַגִּי לֵיהּ:

Bartenura explica a lógica textual da desqualificação por cesariana no animal (a Torá exige que ele tenha efetivamente “nascido”, excluindo o nascido por corte) e confirma que essa mesma condição não afeta o sacerdote. Sobre a diferença de tratamento entre os dois casos finais, formula exatamente a mesma razão de Rambam com outras palavras: onde o impulso do desejo é forte — o casamento proibido — é necessário o voto público; onde não há esse impulso — a impureza pelos mortos — basta o compromisso simples.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Sobre a Guemará, Bechorot 45b
מַתְנִי' אוֹתוֹ וְאֶת בְּנוֹ — פָּסוּל לְקָרְבָּן דִּמְחֻסַּר זְמָן הוּא: וְהַנּוֹשֵׂא נָשִׁים כוּ' — תָּנָא, נוֹדֵר וְעוֹבֵד, יוֹרֵד וּמְגָרֵשׁ: וְלֵיחוּשׁ דִּלְמָא אָזֵיל לְגַבֵּי חָכָם וְשָׁרֵי לֵיהּ? קָסָבַר צָרִיךְ לְפָרֵט אֶת הַנֶּדֶר:

Rashi observa, sobre “a ele e a seu filho”, que a proibição de oferecer a mãe e o filhote no mesmo dia se enquadra na categoria de mechusar zman — uma restrição temporal ao momento da oferenda, e não uma mácula física. Sobre o voto do casamento proibido, cita a formulação tanaítica: o sacerdote faz o voto e continua a servir, e progressivamente se prepara para o divórcio. E explica por que o voto precisa ser público: porque, segundo a opinião de que um voto exige que se especifique exatamente sobre o que se jurou, um sábio consultado para anulá-lo saberá, ao ouvir o motivo, que não deve libertá-lo do voto enquanto o casamento proibido persistir.