Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Bet · Mishná 3 de 10

Juntar águas em utensílio de pedra e a segunda imersão

וְשָׁוִין שֶׁמַּשִּׁיקִין אֶת הַמַּיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema das imersões de purificação, a mishná apresenta um ponto em que Bet Shamai e Bet Hilel concordam: como purificar água em Shabat sem incorrer no problema de "reparar um utensílio", e em que casos se permite uma segunda imersão de um utensílio que já está puro.

E concordam que se pode juntar as águas em um utensílio de pedra para purificá-las, mas não se pode imergir [o utensílio nelas].Água impura pode ser colocada em um recipiente de pedra — que não recebe impureza — e esse recipiente, submerso em uma fonte de água pura, faz suas águas se unirem às da fonte e se purificarem por contato; mas não se pode, com essa mesma ação, imergir o próprio recipiente de madeira ou metal, pois isso equivaleria a repará-lo.

E imerge-se de uso para uso e de grupo para grupo.Um utensílio já puro, imerso originalmente para um uso, pode ser imerso novamente no dia de festa para destiná-lo a um uso de maior santidade — como de hulin para terumá —, ou quando a pessoa muda do grupo com o qual planejava comer o sacrifício pascal para outro grupo, já que essa segunda imersão não acrescenta pureza no sentido de remover impureza, mas apenas adéqua o utensílio a um novo propósito.

וְשָׁוִין שֶׁמַּשִּׁיקִין אֶת הַמַּיִם בִּכְלִי אֶבֶן לְטַהֲרָן, אֲבָל לֹא מַטְבִּילִין. וּמַטְבִּילִין מִגַּב לְגַב וּמֵחֲבוּרָה לַחֲבוּרָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá 11:36
אַךְ מַעְיָן וּבוֹר מִקְוֵה מַיִם יִהְיֶה טָהוֹר.
Mas a fonte e a cisterna, ajuntamento de águas, permanecerão puras.

O princípio de que águas reunidas em uma fonte ou cisterna permanecem puras é a base do procedimento de "juntar as águas" descrito nesta mishná — a água impura, ao entrar em contato direto com a água pura de um mikvê através de um recipiente que não recebe impureza, une-se a ela e é considerada, para efeitos de pureza, como parte da própria fonte. A mishná distingue esse procedimento, permitido mesmo em Shabat e dia de festa, da imersão de um utensílio — que, por transformar seu estatuto de uso, é vedada nesses dias por parecer um reparo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica por que o utensílio de pedra é necessário para o procedimento de justapor as águas, e detalha os casos de segunda imersão "de grupo para grupo"; Bartenura acrescenta o exemplo de quem muda seu utensílio de uso comum para terumá ou para consagrado.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 2:2
וְאָמְרָם וְשָׁוִין שֶׁמַּשִּׁיקִין אֶת הַמַּיִם בִּכְלִי אֶבֶן לְטַהֲרָן, אֲבָל לֹא מַטְבִּילִין, פֵּרוּשׁ: כִּי כְּשֶׁהַמַּיִם הֵם טְמֵאִים, שֶׁאֶפְשָׁר לוֹ לְתִתָּם בִּכְלִי אֶבֶן וּלְהַכְנִיס אוֹתוֹ הַכְּלִי בְּמִקְוֶה מַיִם עַד שֶׁיַּעֲלוּ מֵי מִקְוֶה עַל פְּנֵי הַכְּלִי, וְיִטְהֲרוּ הַמַּיִם. וּמַה שֶּׁהִצְרִיךְ לִהְיוֹת הַכְּלִי מֵאֲבָנִים, לְפִי שֶׁכְּלִי אֲבָנִים אֵינוֹ מְקַבֵּל טֻמְאָה.

E o que disseram, "e concordam que se pode juntar as águas em um utensílio de pedra para purificá-las, mas não se pode imergi-las", explica-se assim: quando a água está impura, pode-se colocá-la em um utensílio de pedra e introduzir esse utensílio em um mikvê até que as águas do mikvê subam sobre a superfície do utensílio, e assim a água impura se purifica. E o motivo de o utensílio precisar ser de pedra é que utensílios de pedra não recebem impureza.

Bartenura · Beitzá 2:3
וּמַטְבִּילִין מִגַּב לְגַב. מִי שֶׁהִטְבִּיל כֵּלִים לְדַעַת שֶׁיִּדְרֹךְ בָּהֶן זֵיתִים בְּבֵית הַבַּד לְשֶׁמֶן שֶׁל חֻלִּין, וְנִמְלַךְ לִדְרֹךְ בָּהֶם עֲנָבִים בַּגַּת לְיַיִן שֶׁל תְּרוּמָה, צָרִיךְ לְהַטְבִּילָן פַּעַם שְׁנִיָּה לְשֵׁם תְּרוּמָה. וְכֵן אִם הִטְבִּיל כֵּלִים לְשֵׁם תְּרוּמָה וְנִמְלַךְ לַעֲשׂוֹת בָּהֶם קֹדֶשׁ, צְרִיכִים טְבִילָה שְׁנִיָּה לְשֵׁם קֹדֶשׁ.

“E imerge-se de uso para uso” — quem imergiu utensílios para pisar azeitonas no lagar em vista de azeite comum, e depois decidiu pisar uvas na prensa em vista de vinho de terumá, precisa imergi-los uma segunda vez em nome da terumá. E do mesmo modo, se imergiu utensílios em nome de terumá e depois decidiu usá-los para algo consagrado, precisam de uma segunda imersão em nome do consagrado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o mecanismo de "justaposição" das águas e o caso de "grupo para grupo" ligado ao sacrifício pascal.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 17b–19a
וְשָׁוִין שֶׁמַּשִּׁיקִין אֶת הַמַּיִם — מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ מַיִם יָפִין לִשְׁתּוֹת וְנִטְמְאוּ, מְמַלֵּא מֵהֶן כְּלִי אֶבֶן וְנוֹתְנָם בְּמִקְוֵה מַיִם עַד שֶׁמַּשִּׁיק מַיִם לְמַיִם, וְנִמְצְאוּ אֵלּוּ זְרוּעִין וּמְחֻבָּרִין לְמֵי הַמִּקְוֶה וּבָטְלִי אַגַּבַּיְהוּ וְטָהֲרוּ. בַּחֲבוּרָה זוֹ — עַל פִּסְחוֹ, וְהָיָה טָמֵא אוֹ כֵּלָיו טְמֵאִים וְטָבַל לְדַעַת כֵּן.

“E concordam que se pode juntar as águas” — quem tem água boa para beber que se tornou impura, enche dela um utensílio de pedra e o coloca em um mikvê até justapor água com água; e essas águas ficam como que semeadas e ligadas às águas do mikvê, anulando-se nelas e purificando-se. “Neste grupo” — referente ao sacrifício pascal, quando a pessoa ou seus utensílios estavam impuros e ela imergiu com essa intenção.