Seder Moed · Massechet Beitzá · Perek Hei · Mishná 7 de 7 (última do tratado)

Quem convidou hóspedes, e os animais domésticos e do deserto

מִי שֶׁזִּמֵּן אֶצְלוֹ אוֹרְחִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do tratado fecha o perek com dois casos finais: o hóspede que não pode simplesmente levar consigo as porções recebidas na refeição, e a distinção entre animais domésticos e do deserto quanto ao dar de beber e abater em dia de festa.

Quem convidou hóspedes para sua casa, estes não levem em suas mãos porções, a menos que ele lhes tenha adquirido essas porções na véspera de dia de festa.Um hóspede vindo de outra cidade, trazido por meio de erúv para participar da refeição festiva, não tem designação própria de limites naquele lugar — apenas a designação do anfitrião que o convidou. Por isso, se o anfitrião lhe entrega porções de comida ao final da refeição para levar consigo, essas porções, ainda em nome do anfitrião, ficariam presas aos limites da casa; a solução é que o anfitrião, já na véspera, transfira formalmente a posse dessas porções a cada hóspede por meio de um terceiro, adquirindo-as para eles antes da entrada do dia — assim as porções passam a seguir os próprios limites dos hóspedes.

Não se dá de beber nem se abate os animais do deserto, mas dá-se de beber e abate-se os domésticos. Quais são os domésticos? Os que pernoitam na cidade. E os do deserto? Os que pernoitam no pasto.Animais que vivem soltos no pasto durante todo o verão, sem retornar à cidade até a chegada das chuvas, são considerados muktzê — não estavam mentalmente designados para uso imediato — e por isso não se lhes dá água nem se abate em dia de festa. Já os animais domésticos, que pernoitam regularmente dentro da cidade e estão sob os cuidados constantes do dono, permanecem plenamente disponíveis para uso, encerrando o tratado com um último exemplo do princípio que o perek inteiro desenvolveu: a designação prévia como condição para o uso em dia de festa.

מִי שֶׁזִּמֵּן אֶצְלוֹ אוֹרְחִים, לֹא יוֹלִיכוּ בְיָדָם מָנוֹת, אֶלָּא אִם כֵּן זִכָּה לָהֶם מָנוֹתֵיהֶם מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב. אֵין מַשְׁקִין וְשׁוֹחֲטִין אֶת הַמִּדְבָּרִיּוֹת, אֲבָל מַשְׁקִין וְשׁוֹחֲטִין אֶת הַבַּיָתוֹת. אֵלּוּ הֵן בַּיָתוֹת, הַלָּנוֹת בָּעִיר. מִדְבָּרִיּוֹת, הַלָּנוֹת בָּאֲפָר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 12:16
אַךְ אֲשֶׁר יֵאָכֵל לְכָל־נֶפֶשׁ הוּא לְבַדּוֹ יֵעָשֶׂה לָכֶם.
Salvo o que se come por toda pessoa — isso somente se fará para vós.

O tratado se encerra retornando ao seu próprio ponto de partida: o que é permitido em dia de festa depende sempre de já estar disponível, mental ou fisicamente, antes da entrada do dia. As porções da refeição só podem acompanhar os hóspedes se já lhes foram formalmente adquiridas de véspera; os animais só podem ser usados se já pernoitavam, na noite anterior, sob os cuidados diretos do dono. Este mesmo princípio de designação prévia — hachaná — percorreu, sob diferentes formas, os cinco perakim inteiros de Massechet Beitzá: do ovo posto no próprio dia de festa, na primeira mishná do tratado, até este último caso dos animais do pasto, sempre a mesma pergunta se repete: o que já estava pronto para o dia sagrado antes que ele começasse?

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam explica os termos "bayatot" e "midbariyot" e o motivo halachico de se dar de beber antes do abate; Bartenura detalha o mecanismo da aquisição por terceiro que permite ao hóspede levar consigo as porções recebidas.

Rambam · Perush HaMishná, Beitzá 5:7
מִי שֶׁזִּמֵּן אֶצְלוֹ אוֹרְחִים לֹא יוֹלִיכוּ בְיָדָם מָנוֹת כוּ': אֵין מַשְׁקִין וְשׁוֹחֲטִין הַמִּדְבָּרִיּוֹת כוּ': רוֹצֶה בְאָמְרוֹ ״לָנוֹת בָּעִיר״ בְּתוֹךְ תְּחוּם שַׁבָּת, וְ״לָנוֹת בָּאֲפָר״ שֶׁיִּהְיוּ בַכְּפָרִים כָּל יְמֵי הַחֹם וְהַקַּיִץ, וְאֵינָן נִכְנָסוֹת לָעִיר עַד שֶׁיֵּרְדוּ הַגְּשָׁמִים; וְ״אֵפֶר״ שֵׁם הַכְּפָרִים. וְאָמְרוּ ״מַשְׁקִין״ לְהוֹדִיעֲךָ תּוֹעֶלֶת, כִּי הַהַשְׁקָיָה קֹדֶם שְׁחִיטָה יַתִּיר רֵאָתָהּ, וְאִם יֵשׁ שָׁם סִרְכָא חֲלוּשָׁה נִשְׁמֶטֶת וְנִכְרֶתֶת; וְאָסַר שְׁחִיטַת הַמִּדְבָּרִיּוֹת לְפִי שֶׁהֵם מֻקְצֶה.

"Quem convidou hóspedes, estes não levem em suas mãos porções etc." — "não se dá de beber nem se abate os animais do deserto etc." — quer dizer, com "pernoitam na cidade", dentro do limite de Shabat; e "pernoitam no pasto", que ficam nas aldeias durante todos os dias de calor e verão, e não entram na cidade até que caiam as chuvas; e "éfer" é o nome dado às aldeias do pasto. E disseram "dá-se de beber" para te ensinar uma utilidade: que dar de beber antes do abate solta o pulmão do animal, e se ali houver uma aderência fraca, ela se desprende e se rompe. E proibiu o abate dos animais do deserto por serem muktzê.

Bartenura · Beitzá 5:7
מִי שֶׁזִּמֵּן אֶצְלוֹ אוֹרְחִים. מֵעִיר אַחֶרֶת, וְיָבֹאוּ אֶצְלוֹ עַל יְדֵי עֵרוּב. לֹא יוֹלִיכוּ. לְאַחַר סְעוּדָה מָנוֹת בְּיָדָם לְבֵיתָם. אֶלָּא אִם כֵּן זִכָּה לָהֶם. עַל יְדֵי אַחֵר. מָנוֹתֵיהֶם מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב. שֶׁמְּסָרָם בַּעַל הַבַּיִת לְאָדָם אַחֵר בִּמְשִׁיכָה מֵעֶרֶב יוֹם טוֹב, וְאָמַר לוֹ זְכֵה בַּמָּנוֹת הַלָּלוּ לִפְלוֹנִי וּפְלוֹנִי, דְּזָכִין לְאָדָם שֶׁלֹּא בְפָנָיו.

"Quem convidou hóspedes" — de outra cidade, e que venham até ele por meio de erúv. "Não levem" — depois da refeição, porções em suas mãos até suas casas. "A menos que lhes tenha adquirido" — por meio de outra pessoa. "Suas porções na véspera de dia de festa" — que o dono da casa entregou essas porções a outra pessoa, por ato de aquisição, na véspera de dia de festa, e lhe disse: adquire estas porções em nome de fulano e de fulano — pois se adquire para uma pessoa mesmo em sua ausência.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o motivo pelo qual o hóspede não pode simplesmente carregar as porções recebidas sem uma aquisição prévia, e localiza o encerramento do tratado no início do daf.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Beitzá 40a
מִי שֶׁזִּמֵּן אֶצְלוֹ אוֹרְחִים — מֵעִיר אַחֶרֶת וְיָבוֹאוּ אֶצְלוֹ עַל יְדֵי עֵרוּב. לֹא יוֹלִיכוּ — לְאַחַר סְעוּדָה מְנוֹת בְּיָדָם לְבֵיתָם. אֶלָּא אִם כֵּן זָכָה לָהֶם — עַל יְדֵי אַחֵר. מַתְנִי' אֵין מַשְׁקִין וְשׁוֹחֲטִין אֶת הַמִּדְבָּרִיּוֹת — מִשּׁוּם מֻקְצֶה, וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ אַמַּאי נָקֵט מַשְׁקִין.

"Quem convidou hóspedes" — de outra cidade, e que venham até ele por meio de erúv. "Não levem" — depois da refeição, porções em suas mãos até suas casas. "A menos que lhes tenha adquirido" — por meio de outra pessoa, pois só assim as porções deixam de estar presas aos limites da casa do anfitrião e passam a seguir os próprios hóspedes.

"A mishná: não se dá de beber nem se abate os animais do deserto" — por causa do muktzê; e a Guemará explica por que a mishná menciona especificamente o dar de beber antes do abate, encerrando com isso a última mishná de Massechet Beitzá.

סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּבֵיצָה
Aqui se conclui Massechet Beitzá — o sétimo tratado de Seder Moed, também chamado Yom Tov, dedicado aos limites do trabalho permitido em dia de festa. O Perek Hei, último do tratado, com sete mishnayot, tratou dos casos finais dessa fronteira: deixar cair frutas pela clarabóia contra a chuva, permitido em dia de festa mas não em Shabat, e cobrir produtos e recolher o gotejar, permitidos em ambos (5:1); o princípio geral de que tudo proibido em Shabat por sh'vut, por r'shut ou por mitzvá permanece proibido em dia de festa, pois a única diferença entre os dois dias é a comida (5:2); o animal e os utensílios que seguem os pés dos donos, mesmo quando entregues ao filho ou ao pastor (5:3); o utensílio emprestado antes ou depois da entrada do dia, e a mulher que empresta temperos, água e sal para sua massa (5:4); a brasa que segue os pés dos donos e a chama sem substância, permitida em qualquer lugar, e os três tipos de poço — particular, comunitário e dos que subiram da Babilônia (5:5); as frutas guardadas em outra cidade, que só seguem quem tem erúv até elas (5:6); e, nesta última mishná, os hóspedes que não podem levar porções sem aquisição prévia, e os animais domésticos e do deserto, encerrando o tratado com o mesmo princípio que o abriu: apenas o que já estava designado antes da entrada do dia sagrado pode servir nele (5:7).

Massechet Beitzá percorreu, ao longo de seus cinco capítulos e quarenta e duas mishnayot, todo o arco das leis de Yom Tov: o ovo posto no próprio dia de festa, a cobertura do sangue do abate, a escada do pombal, o couro e o que se envia de um domínio a outro, e o princípio geral que fecha o Perek Alef sobre o que se pode e não se pode enviar (Perek Alef); o erúv tavshilín que liga a festa ao Shabat, a purificação de pessoas e utensílios, a disputa sobre os sacrifícios de Yom Tov, e as leniências e estringências de Rabán Gamliel e de Rabi Elazar ben Azaryá (Perek Bet); a pesca e a caça de animais confinados, o abate em risco, o primogênito que caiu num poço, e os limites entre o favor entre vizinhos e a transação comercial no encerramento com Abba Shaul ben Botnit (Perek Guimel); o transporte em modo distinto do de dia comum, a madeira da sucá e do campo, a fabricação de utensílios como a lamparina e o pavio, e o fogo que não se produz do nada (Perek Dalet); e, por fim, este último perek, sobre os limites de Shabat aplicados a animais, utensílios e alimentos, e o princípio geral que rege toda a diferença entre Yom Tov e Shabat (Perek Hei). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, cada mishná deste tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud.

Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para os demais tratados de Seder Moed — Rosh Hashaná, Taanit, Megilá, Moed Katan e Chagigá —, cada um dedicado a uma festividade ou aspecto do calendário sagrado judaico, somando-se aos tratados já concluídos de Shabat, Eruvin, Pessachim, Shekalim, Yoma, Sucá e agora Beitzá.