Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Alef · Mishná 1

"Há os que trazem bikurim e recitam"

יֵשׁ מְבִיאִין בִּכּוּרִים וְקוֹרִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná de abertura do tratado: estabelece as três categorias possíveis diante da mitzvá de bikurim — trazer e recitar a declaração completa, trazer sem recitar, e não trazer de modo algum — e ilustra a terceira categoria com o caso da havracá (mergulhia), uma técnica de propagação de videiras que pode colocar em dúvida se o fruto realmente cresceu "na tua terra"

Há os que trazem bikurim e recitam (a declaração completa prescrita em Devarim 26, começando por "Arami oved avi" — "Um arameu errante era meu pai"); há os que trazem, mas não recitam; e há os que não trazem. Estes são os que não trazem: aquele que planta dentro do que é seu e faz uma mergulhia para dentro do que é de um particular ou do público (hivrich — abre um sulco na terra, enterra um ramo ainda ligado à videira original, e deixa a ponta emergir em outro lugar, fazendo a videira criar raiz própria ali), e do mesmo modo aquele que faz uma mergulhia do que é de um particular ou do público para dentro do que é seu. Aquele que planta dentro do que é seu e faz a mergulhia para dentro do que é seu, mas o caminho de um particular ou o caminho do público está no meio (dividindo a raiz original e a ponta emergente por uma faixa de terreno alheio), eis que este não traz. Rabi Yehudá diz: um caso como este, traz.

יֵשׁ מְבִיאִין בִּכּוּרִים וְקוֹרִין, מְבִיאִין וְלֹא קוֹרִין, וְיֵשׁ שֶׁאֵינָן מְבִיאִין. אֵלּוּ שֶׁאֵינָן מְבִיאִין, הַנּוֹטֵעַ לְתוֹךְ שֶׁלּוֹ וְהִבְרִיךְ לְתוֹךְ שֶׁל יָחִיד אוֹ שֶׁל רַבִּים, וְכֵן הַמַּבְרִיךְ מִתּוֹךְ שֶׁל יָחִיד אוֹ מִתּוֹךְ שֶׁל רַבִּים לְתוֹךְ שֶׁלּוֹ. הַנּוֹטֵעַ לְתוֹךְ שֶׁלּוֹ וְהִבְרִיךְ לְתוֹךְ שֶׁלּוֹ, וְדֶרֶךְ הַיָּחִיד וְדֶרֶךְ הָרַבִּים בָּאֶמְצַע, הֲרֵי זֶה אֵינוֹ מֵבִיא. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, כָּזֶה מֵבִיא:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mitzvá de bikurim tem duas fontes bíblicas centrais: o mandamento genérico de trazer os primeiros frutos, e a declaração litúrgica completa que a acompanha.

Shemot (Êxodo) 23:19
רֵאשִׁית בִּכּוּרֵי אַדְמָתְךָ תָּבִיא בֵּית ה' אֱלֹהֶיךָ.
"O princípio dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Senhor teu Deus." A expressão central para toda a mishná é "אַדְמָתְךָ" (a tua terra) — o fruto precisa ter crescido inteiramente em terreno que pertence a quem o traz, do início ao fim de seu crescimento. É exatamente esse requisito que a técnica da mergulhia (havracá) coloca em dúvida, quando a raiz está numa propriedade e a ponta frutífera emerge em outra.
Devarim (Deuteronômio) 26:1-3
וְהָיָה כִּי תָבוֹא אֶל הָאָרֶץ... וְלָקַחְתָּ מֵרֵאשִׁית כָּל פְּרִי הָאֲדָמָה... וְשַׂמְתָּ בַטֶּנֶא... וּבָאתָ אֶל הַכֹּהֵן... וְאָמַרְתָּ אֵלָיו הִגַּדְתִּי הַיּוֹם לַה' אֱלֹהֶיךָ כִּי בָאתִי אֶל הָאָרֶץ אֲשֶׁר נִשְׁבַּע ה' לַאֲבֹתֵינוּ לָתֶת לָנוּ.
"E será que, quando entrares na terra... tomarás do princípio de todo fruto da terra... e o porás num cesto... e virás ao sacerdote... e lhe dirás: declaro hoje ao Senhor teu Deus que entrei na terra que o Senhor jurou a nossos pais que nos daria." Este é o texto da declaração (a mikrá bikurim) que se recita ao entregar o cesto ao sacerdote — e é justamente a capacidade, ou incapacidade, de pronunciar certas frases dela (como "que o Senhor jurou a nossos pais") que determina, em mishnayot seguintes deste capítulo, quem recita e quem apenas traz.

Por que a mishná abre com uma estrutura tripartite — trazer e recitar, trazer sem recitar, não trazer — antes de detalhar qualquer caso específico? Este é o padrão editorial típico da Mishná: apresentar primeiro o mapa conceitual completo de um tema, para depois preenchê-lo com casos concretos. As mishnayot seguintes deste perek vão, sistematicamente, alocar diferentes categorias de pessoas e situações dentro de cada uma dessas três caixas — e o caso da mergulhia, aqui, serve de primeiro exemplo da categoria mais restritiva: quem não traz de modo algum, porque o vínculo entre o fruto e "a tua terra" foi quebrado por um terreno interposto que não lhe pertence.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica o caso da mergulhia em Hilchot Bikurim, capítulo 2, halachot 10-11, no contexto mais amplo dos requisitos de propriedade da terra para a mitzvá de bikurim.

Rambam · Hilchot Bikurim 2:10-11
הַנּוֹטֵעַ אִילָן בְּתוֹךְ שָׂדֵהוּ וְהִבְרִיכוֹ לְתוֹךְ שְׂדֵה חֲבֵרוֹ אוֹ לִרְשׁוּת הָרַבִּים... אֵינוֹ מֵבִיא בִּכּוּרִים לֹא מִמַּה שֶּׁהוֹצִיא בִּרְשׁוּת זוֹ וְלֹא מִן הַצַּד שֶׁבִּרְשׁוּת הָאַחֲרוֹן, שֶׁנֶּאֱמַר בִּכּוּרֵי אַדְמָתְךָ, עַד שֶׁיִּהְיוּ כָּל הַגִּדּוּלִין מֵאַדְמָתְךָ. נָתַן לוֹ חֲבֵרוֹ רְשׁוּת לְהַבְרִיךְ בְּתוֹךְ שֶׁלּוֹ אֲפִלּוּ לְשָׁעָה, הֲרֵי זֶה מֵבִיא בִּכּוּרִים.
Aquele que planta uma árvore dentro do seu campo e a faz mergulhar para dentro do campo do seu companheiro ou para a via pública... não traz bikurim nem do que produziu nesse domínio, nem da parte que está no domínio final, pois foi dito "os primeiros frutos da tua terra", até que todo o crescimento seja da tua terra (o Rambam formaliza o princípio implícito na mishná: o requisito não é apenas que a raiz original esteja em terra própria, mas que a totalidade da trajetória de crescimento do fruto — do início ao fim — permaneça dentro do domínio de quem o traz). Se o companheiro lhe deu permissão para mergulhar dentro do que é dele, ainda que por um momento, eis que este traz bikurim (o Rambam acrescenta um detalhe não explícito na mishná, mas derivado do mesmo princípio: se o dono do terreno interposto consente — mesmo temporariamente — no uso de sua propriedade para a mergulhia, o vínculo com "a tua terra" deixa de ser quebrado, porque naquele momento o crescimento ali também se dá com autorização, similar à posse).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná de abertura, que lança as três categorias fundamentais da mitzvá de bikurim.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 1:1
הדבר שהיו קורין הוא הכתוב בפרשת והיה כי תבוא הוא אמרו וענית ואמרת לפני ה' אלהיך עד סוף הפרשה. וכבר בארנו שהמבריך הוא מי שמותח ענפי האילן בארץ וטומנם שם. ועוד יתבאר לקמן מאיזה טעם אינו מביא. ואין הלכה כרבי יהודה.

"O que recitavam": é o que está escrito na parashá "Vehayá ki tavo", que diz "e responderás e dirás perante o Senhor teu Deus" até o fim da parashá (o Rambam identifica com precisão o texto litúrgico em questão — a passagem completa de Devarim 26). E já explicamos que "hamavrich" (aquele que faz a mergulhia) é quem estende os ramos da árvore pela terra e os enterra ali (uma definição técnica precisa da havracá, distinguindo-a de outras formas de propagação vegetal, como o simples corte e replantio de uma muda). E mais adiante se explicará por qual razão não traz (o Rambam remete à Mishná 1:2, que fornece o fundamento textual explícito do princípio aqui apenas ilustrado). E não é a halachá segundo Rabi Yehudá.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 1:1
יֵשׁ מְבִיאִין בִּכּוּרִים וְקוֹרִין. מִקְרָא בִּכּוּרִים, מֵאֲרַמִּי אוֹבֵד אָבִי עַד סוֹף הַפָּרָשָׁה: וְהִבְרִיךְ לְתוֹךְ שֶׁל יָחִיד. שֶׁחָפַר גֻּמָא וְהִטְמִין יִחוּר שֶׁל אִילָן בְּתוֹכָהּ וְכִסָּהוּ בֶּעָפָר, וְהוֹצִיא רֹאשׁ הַיִּחוּר לְתוֹךְ שְׂדֵה חֲבֵרוֹ אוֹ בִרְשׁוּת הָרַבִּים... וְדֶרֶךְ הַיָּחִיד אוֹ דֶרֶךְ הָרַבִּים בָּאֶמְצַע. כְּגוֹן שֶׁיֵּשׁ לוֹ שְׁתֵּי גִנּוֹת מִשְּׁנֵי צִדֵּי הַדְּרָכִים, אֵינוֹ מֵבִיא, שֶׁאֵין כָּל הַגִּדּוּלִים מֵאַדְמָתוֹ: כָּזֶה מֵבִיא. כֵּיוָן שֶׁיֵּשׁ לוֹ רְשׁוּת לַעֲשׂוֹת כֵּן, שֶׁמֻּתָּר לַעֲשׂוֹת חָלָל תַּחַת רְשׁוּת הָרַבִּים כְּשֶׁאֵינוֹ מַזִּיק לָרַבִּים כְּלוּם, אַדְמָתְךָ קָרִינַן בֵּיהּ.

"Há os que trazem bikurim e recitam": a leitura de bikurim é, "de um arameu errante era meu pai" até o fim da parashá (o Bartenura confirma o mesmo texto identificado pelo Rambam). "E fez mergulhia para dentro do que é de um particular": que cavou uma cova e enterrou o ramo de uma árvore dentro dela, cobrindo-o de terra, e fez a ponta do ramo sair para dentro do campo do seu companheiro ou da via pública (o Bartenura descreve a técnica com ainda mais detalhe físico do que o Rambam, deixando claro que se trata de um único organismo vegetal com raiz num lugar e broto frutífero em outro). [...] "E o caminho de um particular ou o caminho do público está no meio": como quando ele tem dois jardins, um de cada lado do caminho, não traz, porque nem todo o crescimento é da sua terra (o Bartenura esclarece o cenário da terceira cláusula da mishná: não se trata de mergulhia propriamente dita entre dois donos diferentes, mas da própria terra do agricultor, dividida por um caminho alheio no meio, que já basta para quebrar o vínculo territorial contínuo). "Um caso como este, traz": já que ele tem permissão para fazer assim, pois é permitido escavar um vão sob a via pública quando isso não causa dano algum ao público, e por isso se lhe chama "a tua terra" (o Bartenura explica a lógica de Rabi Yehudá: como a lei permite construir sob a via pública sem prejudicá-la, o espaço subterrâneo continua, em certo sentido jurídico, pertencendo ao proprietário dos dois lados — mas a halachá não segue esta opinião).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.