Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Bet · Mishná 9

"Como se assemelha ao animal selvagem"

כֵּיצַד שָׁוֶה לַחַיָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Primeira das quatro categorias anunciadas na mishná anterior: os caminhos em que o koi segue o regime da chayá

Como se assemelha ao animal selvagem? Seu sangue requer cobertura como o sangue do animal selvagem (assim como o caçador que abate uma chayá pura deve cobrir o sangue derramado com terra, também quem abate um koi deve fazê-lo — por precaução, dado que pode tratar-se, de fato, de uma chayá), e não se abate em Yom Tov (embora seja permitido abater animais em dia de festa para consumo, o abate do koi é proibido em Yom Tov, pois se for de fato chayá, seu sangue exigiria cobertura — um ato que envolve manusear terra ou cinzas, proibido nesse dia; e não se pode arriscar essa dúvida). E se o abateu, não se cobre seu sangue (paradoxalmente, se alguém já transgrediu e o abateu em Yom Tov, não se cobre o sangue depois — pois a permissão de manusear terra em Yom Tov aplicável a uma cobertura certa não se estende a um caso de mera dúvida). E sua gordura transmite impureza de carcaça como o animal selvagem (a gordura de uma behemá pura é permitida para consumo e não transmite impureza como carcaça — apenas sua carne o faz; já a gordura de uma chayá pura, embora comestível, comporta-se como carne para efeitos de impureza de nevelá. Como o koi pode ser chayá, aplica-se-lhe este rigor: sua gordura, em caso de morte não ritual, transmite impureza). E sua impureza [de nevelá] é em dúvida (justamente por essa incerteza fundamental, a impureza que sua gordura poderia transmitir permanece sempre no âmbito da dúvida, nunca uma certeza plena). E não se resgata com ele o primogênito de jumento (a mitzvá de resgatar o primogênito do jumento exige um cordeiro — seh — que a tradição interpreta como behemá; como o koi pode ser chayá, ele não serve para esse resgate).

כֵּיצַד שָׁוֶה לַחַיָּה, דָּמוֹ טָעוּן כִּסּוּי כְּדַם חַיָּה, וְאֵין שׁוֹחֲטִין אוֹתוֹ בְּיוֹם טוֹב, וְאִם שְׁחָטוֹ, אֵין מְכַסִּין אֶת דָּמוֹ, וְחֶלְבּוֹ מְטַמֵּא בְטֻמְאַת נְבֵלָה כַּחַיָּה, וְטֻמְאָתוֹ בְסָפֵק, וְאֵין פּוֹדִין בּוֹ פֶּטֶר חֲמוֹר:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Cada rigor listado nesta mishná deriva de uma lei bíblica específica aplicável à chayá — cobertura do sangue, permissão restrita de manuseio no Yom Tov, impureza de gordura, e a exigência de "seh" para o resgate do jumento.

Vaicrá (Levítico) 17:13 · Shemot (Êxodo) 13:13
וְשָׁפַךְ אֶת דָּמוֹ וְכִסָּהוּ בֶּעָפָר... וְכָל פֶּטֶר חֲמֹר תִּפְדֶּה בְשֶׂה, וְאִם לֹא תִפְדֶּה וַעֲרַפְתּוֹ.
"E derramará seu sangue e o cobrirá com terra" — a mitzvá de kissuy hadam, exclusiva da chayá pura e das aves, é a fonte direta do primeiro rigor da mishná; e, por não se saber se o koi é chayá, aplica-se-lhe o dever de cobrir, mas nunca em Yom Tov, quando o manuseio de terra ou cinzas para um caso meramente duvidoso não é permitido. Já "e todo primogênito de jumento resgatarás com um cordeiro" fornece a palavra "seh" (cordeiro), que a tradição oral restringe às espécies de behemá (ovinos e caprinos) — daí a exclusão do koi, cuja identidade como behemá certa não pode ser afirmada, tornando-o inadequado para este resgate específico.

Por que, no caso do Yom Tov, a mishná aplica o rigor mesmo depois do fato consumado — proibindo cobrir o sangue já derramado? Este é um refinamento importante da metodologia "lechumra" (sempre para o lado mais rigoroso) que rege todo o tratamento do koi. A permissão de manusear terra ou cinzas em Yom Tov aplica-se apenas a atos que sejam certamente obrigatórios — como cobrir o sangue de uma chayá inequívoca. Como o status do koi permanece em dúvida mesmo depois do abate, o ato de cobrir seu sangue não pode ser classificado como "certamente obrigatório", e portanto a permissão especial de Yom Tov, criada para acomodar apenas obrigações certas, simplesmente não se estende a ele. É um exemplo preciso de como a incerteza permanente do koi gera, paradoxalmente, tanto a proibição de abater quanto a proibição de corrigir o próprio erro depois de cometido.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam trata da cobertura do sangue do koi e sua impureza duvidosa em Hilchot Maachalot Assurot, capítulo 1, no mesmo contexto em que define a criatura.

Rambam · Hilchot Maachalot Assurot 1:12-13
וְכָל שֶׁיִּסְתַּפֵּק לְךָ אִם הוּא מִין חַיָּה אוֹ מִין בְּהֵמָה, חֶלְבּוֹ אָסוּר וְאֵין לוֹקִין עָלָיו וּמְכַסִּין אֶת דָּמוֹ. כִּלְאַיִם הַבָּא מִבְּהֵמָה טְהוֹרָה עִם חַיָּה טְהוֹרָה הוּא הַנִּקְרָא כְּוִי. חֶלְבּוֹ אָסוּר וְאֵין לוֹקִין עָלָיו וּמְכַסִּין אֶת דָּמוֹ.
E tudo que te for duvidoso se é espécie de animal selvagem ou espécie de animal doméstico, sua gordura é proibida, mas não se é açoitado por ela, e cobre-se seu sangue. O híbrido proveniente de animal doméstico puro com animal selvagem puro é o que se chama koi: sua gordura é proibida, mas não se é açoitado por ela, e cobre-se seu sangue (o Rambam formula o princípio geral — qualquer criatura de identidade duvidosa entre behemá e chayá recebe o mesmo tratamento — e depois aplica esse princípio nominalmente ao koi, confirmando que a obrigação de cobrir o sangue, um dos traços centrais desta mishná, é consequência direta de tratá-lo como possível chayá).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre os rigores de chayá aplicados ao koi.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 2:9
לפי שאנו חייבים בכיסוי הדם נמנע לשוחטו ביום טוב, מפני שהוא ספק, כמו שהודעתיך אם הוא חייב בכיסוי הדם או לא, ואסור לאדם לטלטל האפר בי"ט לדבר ספק. וחלבו מטמא טומאת נבלה... וזה הכוי, לפי שהוא ספק, ודנוהו לכל הפנים להחמיר, אמרו בחלבו שהוא מטמא אם הוא נבלה כמו חלב החיה שהוא מטמא כבשרה, אבל טומאתו בספק.

Porque somos obrigados na cobertura do sangue, evita-se abatê-lo em Yom Tov, porque é dúvida — como já te informei — se é obrigado na cobertura do sangue ou não, e é proibido ao homem manusear as cinzas em Yom Tov para uma questão de dúvida (o Rambam explica com clareza a lógica proibitiva: não é que o abate em si seja vedado, mas que o abate geraria uma obrigação de cobertura cuja necessidade de manusear cinzas ou terra em Yom Tov só se justifica para obrigações certas, nunca duvidosas). E sua gordura transmite impureza de nevelá... e este koi, por ser dúvida, julgaram-no em todos os aspectos para o rigor: disseram, quanto à sua gordura, que ela transmite impureza se for nevelá, como a gordura do animal selvagem que transmite impureza como sua carne, mas sua impureza está em dúvida (o Rambam articula precisamente a estrutura lógica de "impureza em dúvida": não que às vezes seja puro e às vezes impuro, mas que a própria classificação binária pura/impura não pode ser resolvida com certeza, e por isso se trata cautelosamente como impureza duvidosa em todos os casos).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 2:9
טָעוּן כִּסּוּי כְּדַם חַיָּה. לְחֻמְרָא, וְאֵין מְבָרְכִין עַל כִּסּוּיוֹ, כֵּיוָן דְּסָפֵק הוּא. וְאֵין שׁוֹחֲטִין אוֹתוֹ בְּיוֹם טוֹב. לְפִי שֶׁאָסוּר לְכַסּוֹת אֶת דָּמוֹ, וְאַף עַל גַּב דְּאֵפֶר כִּירָה מוּכָן הוּא, מוּכָן לְוַדַּאי וְאֵינוֹ מוּכָן לְסָפֵק. וְאֵין פּוֹדִין בּוֹ פֶּטֶר חֲמוֹר. שֶׁמָּא חַיָּה הוּא, וְרַחֲמָנָא אָמַר וּפֶטֶר חֲמוֹר תִּפְדֶּה בְשֶׂה, וְהַאי סָפֵק שֶׂה סָפֵק צְבִי.

"Requer cobertura como o sangue do animal selvagem": por rigor, e não se abençoa sobre sua cobertura, já que é dúvida (o Bartenura acrescenta um detalhe prático relevante: embora se deva cobrir o sangue por precaução, não se recita a bênção normalmente associada a essa mitzvá, pois bênçãos não se recitam sobre atos cuja obrigação é meramente duvidosa). "E não se abate em Yom Tov": porque é proibido cobrir seu sangue, e ainda que a cinza do fogão já esteja preparada [para uso], preparada está para o certo, e não está preparada para o duvidoso (o Bartenura explica um princípio técnico do Yom Tov: mesmo que haja cinza já disponível e pronta para uso — o que normalmente resolveria a questão de "preparação prévia" exigida no dia de festa — essa preparação só vale para uma obrigação certa, não para uma cobertura cuja necessidade é apenas hipotética). "E não se resgata com ele o primogênito de jumento": pois talvez seja animal selvagem, e a Misericórdia disse "e o primogênito de jumento resgatarás com um cordeiro", e este é dúvida se é cordeiro ou dúvida se é gazela (o Bartenura formula a dúvida do koi de modo particularmente vívido para este caso: não apenas "talvez seja chayá em geral", mas especificamente "talvez seja da mesma família da gazela" — tornando patente por que ele não pode servir ao resgate que exige, com certeza, um animal da família dos ovinos ou caprinos).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.