Lavam-se as mãos para o alimento comum, para o dízimo e para a oferenda sacerdotal. E para o sagrado, imergem-se. E para a água da purificação, se as mãos ficaram impuras, o corpo ficou impuro. — A mishná estabelece três níveis distintos de exigência de pureza das mãos, correspondentes a três categorias de alimento ou substância que se deseja tocar. Para comer alimento comum não consagrado, e igualmente para o segundo dízimo e para a oferenda sacerdotal, basta a lavagem simples das mãos com água derramada de um recipiente — o mesmo procedimento cotidiano. Para tocar carne de oferendas sagradas do Templo, a exigência sobe: não basta lavar, é preciso imergir as mãos por completo num reservatório de água de imersão. E para tocar as águas de purificação preparadas com as cinzas da vaca vermelha — usadas para aspergir sobre quem se tornou impuro por contato com um morto —, a exigência é ainda mais severa e peculiar: se as mãos da pessoa se tornaram impuras por algum contato menor, considera-se que todo o seu corpo ficou impuro, não apenas as mãos, uma regra excepcional que não se aplica a nenhuma outra categoria.
A Guemará encontra nesse versículo, que trata especificamente das mãos não enxaguadas de quem sofre fluxo (zav), a base bíblica que os Sábios usaram como apoio (asmachtá) para instituir a categoria de impureza das mãos como algo distinto da impureza do corpo inteiro — as mãos podem se tornar impuras por contato com coisas que não contaminam o resto do corpo. A partir dessa distinção bíblica entre mãos e corpo, os Sábios erigiram toda a hierarquia de exigências de purificação descrita na mishná: para o alimento comum, a impureza das mãos sozinha basta para impedir seu consumo, e a lavagem simples resolve; mas para as águas da purificação, tão sensíveis que a pureza das mãos se torna indissociável da pureza de todo o corpo, os Sábios decretaram que a impureza das mãos se estende retroativamente ao corpo inteiro.
Rambam detalha os três graus de exigência e localiza o motivo pelo qual essas leis aparecem no contexto do tratado sobre a festa.
Bartenura detalha por que essas leis aparecem justamente no tratado sobre a chagigá; Rashi, na Guemará, confirma a base bíblica da distinção entre mãos e corpo.
Rambam explica a peculiaridade da última cláusula: quando as mãos de alguém se tornam impuras em relação às águas de purificação da vaca vermelha, não basta imergir apenas as mãos, como se faz para o alimento sagrado comum — é necessário imergir o corpo inteiro num reservatório de água de imersão, precisamente porque, nesse caso excepcional, a impureza das mãos é tratada como se contaminasse todo o corpo.
Bartenura explica por que a mishná insere essas leis de pureza das mãos precisamente no tratado sobre a chagigá: porque, adiante, o capítulo tratará das leis especiais da festa de peregrinação, quando até o povo comum, normalmente não cuidadoso com a pureza, é considerado puro para fins de tocar o sagrado — uma leniência válida apenas durante os dias da festa, e não no resto do ano. As leis desta mishná preparam o terreno para essa discussão, estabelecendo primeiro a escala normal de exigências.
Rashi confirma a escala crescente de exigência: para o alimento comum, o dízimo e a oferenda sacerdotal, basta a lavagem numa vasilha com um mínimo de um quarto de log de água; para o sagrado, é preciso imergir as mãos num reservatório de água de imersão; e para as águas da purificação, Rashi nota que se trata de uma severidade excepcional, sem paralelo nas outras categorias — a impureza das mãos, ali, se estende ao corpo inteiro.