Seder Moed · Massechet Chaguigá · Perek Bet · Mishná 4 de 7

Shavuot em véspera de Shabat e a polêmica contra os Beitusim

עֲצֶרֶת שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּעֶרֶב שַׁבָּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná discute o caso de Shavuot caindo em véspera de Shabat e encerra revelando o propósito polêmico da halachá: refutar os que sustentavam que a festa de Shavuot cai sempre no domingo, uma leitura literalista rejeitada pela tradição oral.

Shavuot que cai em véspera de Shabat: Beit Shamai dizem, o dia de abate é depois do Shabat. E Beit Hilel dizem, não há dia de abate depois do Shabat. E concordam que, se cai em Shabat, o dia de abate é depois do Shabat. E o Sumo Sacerdote não se veste de suas vestes, e são permitidos o luto e o jejum, para não confirmar as palavras dos que dizem que Shavuot é depois do Shabat.Quando a festa de Shavuot cai numa sexta-feira, véspera de Shabat, Beit Shamai sustenta, seguindo sua posição de que a oferenda de ascensão de apresentação não pode ser trazida no próprio dia festivo, que o dia de abate dessa oferenda deve ser adiado até depois do Shabat, já que ela não pôde ser trazida na própria sexta nem no Shabat. Beit Hilel, que permite trazer a oferenda de ascensão no próprio dia festivo, discorda: não há necessidade de qualquer dia de abate posterior, pois a oferenda já foi trazida na própria sexta-feira. Ambas as escolas concordam, porém, que se a festa cai no próprio Shabat, o dia de abate é necessariamente depois dele, já que nem Beit Hilel permite trazer oferendas em Shabat. A mishná acrescenta um detalhe curioso: nesse dia de abate posterior, o Sumo Sacerdote não veste suas vestimentas festivas especiais, e são permitidas práticas de luto e jejum — sinais visíveis de que aquele dia não é, ele mesmo, um dia festivo — e a mishná revela que o propósito de tudo isso é polêmico: evitar dar a impressão de confirmar a posição dos que afirmavam que Shavuot cai sempre no domingo, uma leitura literalista de “no dia seguinte ao Shabat” que a tradição oral rejeitava.

עֲצֶרֶת שֶׁחָל לִהְיוֹת בְּעֶרֶב שַׁבָּת, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, יוֹם טְבוֹחַ אַחַר הַשַּׁבָּת. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, אֵין יוֹם טְבוֹחַ אַחַר הַשַּׁבָּת. וּמוֹדִים שֶׁאִם חָל לִהְיוֹת בְּשַׁבָּת, שֶׁיּוֹם טְבוֹחַ אַחַר הַשַּׁבָּת. וְאֵין כֹּהֵן גָּדוֹל מִתְלַבֵּשׁ בְּכֵלָיו, וּמֻתָּרִין בְּהֶסְפֵּד וּבְתַעֲנִית, שֶׁלֹּא לְקַיֵּם דִּבְרֵי הָאוֹמְרִין עֲצֶרֶת אַחַר הַשַּׁבָּת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vaicrá (Levítico) 23:15-16
וּסְפַרְתֶּם לָכֶם מִמָּחֳרַת הַשַּׁבָּת מִיּוֹם הֲבִיאֲכֶם אֶת עֹמֶר הַתְּנוּפָה שֶׁבַע שַׁבָּתוֹת תְּמִימֹת תִּהְיֶינָה: עַד מִמָּחֳרַת הַשַּׁבָּת הַשְּׁבִיעִת תִּסְפְּרוּ חֲמִשִּׁים יוֹם
E contareis para vós, desde o dia seguinte ao Shabat, desde o dia em que trouxerdes o ômer da agitação, sete semanas completas serão. Até o dia seguinte ao sétimo Shabat contareis cinquenta dias.

Os Beitusim, seita que rejeitava a tradição oral, liam “no dia seguinte ao Shabat” literalmente como domingo, concluindo que Shavuot cairia sempre num domingo — uma leitura que a mishná combate ativamente, instruindo o Sumo Sacerdote a não vestir suas roupas festivas e permitindo sinais de luto no dia de abate posterior, justamente para que ninguém pensasse que aquele domingo seguinte fosse, ele mesmo, o dia sagrado da festa. A tradição oral, por sua vez, interpreta “Shabat” nesse contexto como referência ao próprio primeiro dia de Pessach, um dia de descanso festivo, de modo que a contagem do Ômer começa no dia seguinte a esse yom tov, e Shavuot pode cair em qualquer dia da semana, conforme o calendário daquele ano.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a lógica da controvérsia e situa a mishná no contexto da recusa em confirmar a leitura dos Beitusim.

Rambam · Perush HaMishná, Chaguigá 2:4
אותן שאינן מאמינים בתורה שבעל פה מאמינים כי עצרת לא תחול לעולם אלא אחר שבת שנאמר וספרתם לכם ממחרת השבת והפסוק קרא יום טוב שבת כמו שקרא כולם שבתות השם.
Rambam explica que aqueles que não creem na Torá Oral entendiam que Shavuot cairia sempre no domingo, apoiando-se no versículo “contareis desde o dia seguinte ao Shabat” lido literalmente. Rambam esclarece que o próprio texto bíblico, em outros contextos, chama o dia festivo de “Shabat”, do mesmo modo que chama todos os dias sagrados de “Shabatot do Eterno” — sendo essa, portanto, a leitura correta do versículo, e não a interpretação literalista rejeitada pela tradição.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha o motivo de cada posição sobre o dia de abate e identifica os Tsedukim como a seita refutada; Rashi, na Guemará, confirma a lógica prática do adiamento.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chaguigá 2:4
כבר קדם לך כי חג השבועות יש לו תשלומין כל שבעה וידעת דעת ב״ש שאין מביאין עולות ביו״ט ולפיכך כשחל עצרת ערב שבת מביאין עולות ראייה לאחר שבת והוא יהיה יום טבוח.

Rambam recorda que a festa de Shavuot tem reposição durante os sete dias seguintes, e que, segundo Beit Shamai, não se trazem oferendas de ascensão no próprio dia festivo. Por isso, quando Shavuot cai em véspera de Shabat, Beit Shamai adia a oferenda de ascensão de apresentação para depois do Shabat, e esse se torna o dia de abate. Rambam explica que a mishná repete essa controvérsia neste caso específico para deixar claro que Beit Shamai não concorda com Beit Hilel mesmo quando é impossível trazer a oferenda no dia seguinte por causa do Shabat.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chaguigá 2:4
שֶׁלֹּא לְקַיֵּם דִּבְרֵי הָאוֹמְרִים עֲצֶרֶת אַחַר שַׁבָּת. שֶׁהָיוּ הַצְּדוֹקִים אוֹמְרִים לְעוֹלָם עֲצֶרֶת אַחַר שַׁבָּת, דִּכְתִיב וּסְפַרְתֶּם לָכֶם מִמָּחֳרַת הַשַּׁבָּת, וְהֵן אוֹמְרִים מִמָּחֳרַת שַׁבָּת בְּרֵאשִׁית וְאִם כֵּן לְעוֹלָם חָל עֲצֶרֶת בְּאֶחָד בְּשַׁבָּת.

Bartenura identifica os “que dizem que Shavuot é depois do Shabat” como os Tsedukim, que interpretavam “no dia seguinte ao Shabat” como o domingo comum, concluindo que Shavuot cairia sempre num domingo. Por isso, explica Bartenura, a mishná instrui que, no dia de abate que cai depois do Shabat, o Sumo Sacerdote não vista suas vestimentas festivas nem se pratiquem os costumes de alegria do yom tov, sendo permitidos luto e jejum — para que ninguém confunda esse domingo, dia comum de abate adiado, com o próprio dia sagrado de Shavuot segundo a leitura errônea dos Tsedukim.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Chaguigá 17a-18a
מתני׳ עצרת שחל להיות בערב שבת - בית שמאי אומרים יום טבוח אחר השבת: לפי שאין מביאין עולת ראייה ביום טוב עצמו, ולא בשבת, הלכך דוחין אותה ליום ראשון. ובית הלל אומרים אין יום טבוח אחר השבת - שהרי מקריבין אותה בערב שבת עצמו.

Rashi confirma a lógica prática de cada posição: Beit Shamai, que não permite trazer a oferenda de ascensão no próprio dia festivo nem, obviamente, em Shabat, é forçado a adiá-la até o domingo seguinte, que se torna o dia de abate. Beit Hilel, que permite trazer a oferenda no próprio yom tov, já a oferece na própria sexta-feira, véspera de Shabat, sem necessidade de qualquer adiamento posterior.