Shavuot que cai em véspera de Shabat: Beit Shamai dizem, o dia de abate é depois do Shabat. E Beit Hilel dizem, não há dia de abate depois do Shabat. E concordam que, se cai em Shabat, o dia de abate é depois do Shabat. E o Sumo Sacerdote não se veste de suas vestes, e são permitidos o luto e o jejum, para não confirmar as palavras dos que dizem que Shavuot é depois do Shabat. — Quando a festa de Shavuot cai numa sexta-feira, véspera de Shabat, Beit Shamai sustenta, seguindo sua posição de que a oferenda de ascensão de apresentação não pode ser trazida no próprio dia festivo, que o dia de abate dessa oferenda deve ser adiado até depois do Shabat, já que ela não pôde ser trazida na própria sexta nem no Shabat. Beit Hilel, que permite trazer a oferenda de ascensão no próprio dia festivo, discorda: não há necessidade de qualquer dia de abate posterior, pois a oferenda já foi trazida na própria sexta-feira. Ambas as escolas concordam, porém, que se a festa cai no próprio Shabat, o dia de abate é necessariamente depois dele, já que nem Beit Hilel permite trazer oferendas em Shabat. A mishná acrescenta um detalhe curioso: nesse dia de abate posterior, o Sumo Sacerdote não veste suas vestimentas festivas especiais, e são permitidas práticas de luto e jejum — sinais visíveis de que aquele dia não é, ele mesmo, um dia festivo — e a mishná revela que o propósito de tudo isso é polêmico: evitar dar a impressão de confirmar a posição dos que afirmavam que Shavuot cai sempre no domingo, uma leitura literalista de “no dia seguinte ao Shabat” que a tradição oral rejeitava.
Os Beitusim, seita que rejeitava a tradição oral, liam “no dia seguinte ao Shabat” literalmente como domingo, concluindo que Shavuot cairia sempre num domingo — uma leitura que a mishná combate ativamente, instruindo o Sumo Sacerdote a não vestir suas roupas festivas e permitindo sinais de luto no dia de abate posterior, justamente para que ninguém pensasse que aquele domingo seguinte fosse, ele mesmo, o dia sagrado da festa. A tradição oral, por sua vez, interpreta “Shabat” nesse contexto como referência ao próprio primeiro dia de Pessach, um dia de descanso festivo, de modo que a contagem do Ômer começa no dia seguinte a esse yom tov, e Shavuot pode cair em qualquer dia da semana, conforme o calendário daquele ano.
Rambam explica a lógica da controvérsia e situa a mishná no contexto da recusa em confirmar a leitura dos Beitusim.
Bartenura detalha o motivo de cada posição sobre o dia de abate e identifica os Tsedukim como a seita refutada; Rashi, na Guemará, confirma a lógica prática do adiamento.
Rambam recorda que a festa de Shavuot tem reposição durante os sete dias seguintes, e que, segundo Beit Shamai, não se trazem oferendas de ascensão no próprio dia festivo. Por isso, quando Shavuot cai em véspera de Shabat, Beit Shamai adia a oferenda de ascensão de apresentação para depois do Shabat, e esse se torna o dia de abate. Rambam explica que a mishná repete essa controvérsia neste caso específico para deixar claro que Beit Shamai não concorda com Beit Hilel mesmo quando é impossível trazer a oferenda no dia seguinte por causa do Shabat.
Bartenura identifica os “que dizem que Shavuot é depois do Shabat” como os Tsedukim, que interpretavam “no dia seguinte ao Shabat” como o domingo comum, concluindo que Shavuot cairia sempre num domingo. Por isso, explica Bartenura, a mishná instrui que, no dia de abate que cai depois do Shabat, o Sumo Sacerdote não vista suas vestimentas festivas nem se pratiquem os costumes de alegria do yom tov, sendo permitidos luto e jejum — para que ninguém confunda esse domingo, dia comum de abate adiado, com o próprio dia sagrado de Shavuot segundo a leitura errônea dos Tsedukim.
Rashi confirma a lógica prática de cada posição: Beit Shamai, que não permite trazer a oferenda de ascensão no próprio dia festivo nem, obviamente, em Shabat, é forçado a adiá-la até o domingo seguinte, que se torna o dia de abate. Beit Hilel, que permite trazer a oferenda no próprio yom tov, já a oferece na própria sexta-feira, véspera de Shabat, sem necessidade de qualquer adiamento posterior.