Seder Zeraim · Massechet Chalá · Perek Bet · Mishná 2

"Terra de fora da terra que veio em barco à terra"

עֲפַר חוּצָה לָאָרֶץ שֶׁבָּא בִסְפִינָה לָאָרֶץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná continua o tema geográfico: terra de fora de Israel trazida por barco só é equiparada à terra da própria Eretz Israel — para efeito de dízimos e do ano sabático — quando o barco toca fisicamente o solo. Em seguida, um caso diferente: massa amassada com suco de frutas, e não com água, é obrigada em chalá, mas por não estar apta a receber impureza pode ser comida mesmo com mãos impuras

Terra de fora da terra (solo trazido de fora de Eretz Israel) que veio em barco à terra (um barco carregado com essa terra, cujo casco tem uma abertura tapada por essa mesma terra), é obrigada em dízimos e no [ano] sétimo (o que nela crescer segue as leis da terra de Israel). Disse Rabi Yehudá: quando? (em que condição essa equiparação se aplica?) Quando o barco toca [o fundo] (fica encostado no solo, e não apenas flutuando). Massa que foi amassada com suco de frutas (em vez de água) é obrigada em chalá, e se come com mãos sujas (impuras, sem que isso a torne proibida, pois o suco de frutas não a torna apta a receber impureza).

עֲפַר חוּצָה לָאָרֶץ שֶׁבָּא בִסְפִינָה לָאָרֶץ, חַיֶּבֶת בַּמַּעַשְׂרוֹת וּבַשְּׁבִיעִית. אָמַר רַבִּי יְהוּדָה, אֵימָתַי, בִּזְמַן שֶׁהַסְּפִינָה גוֹשֶׁשֶׁת. עִסָּה שֶׁנִּלּוֹשָׁה בְמֵי פֵרוֹת, חַיֶּבֶת בַּחַלָּה, וְנֶאֱכֶלֶת בְּיָדַיִם מְסוֹאָבוֹת:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A obrigação em dízimos, no ano sabático e em chalá segue, em todos os casos, o mesmo princípio territorial estabelecido para a chalá na mishná anterior; a isenção de impureza da massa amassada com suco depende de uma lei separada, sobre o que torna o alimento apto a contrair impureza.

Bemidbar (Números) 15:19; Vaicrá (Levítico) 11:38
וְהָיָה בַּאֲכָלְכֶם מִלֶּחֶם הָאָרֶץ תָּרִימוּ תְרוּמָה לַיהוָה. וְכִי יֻתַּן מַיִם עַל זֶרַע וְנָפַל מִנִּבְלָתָם עָלָיו טָמֵא הוּא לָכֶם.
O primeiro caso desta mishná — a terra trazida por barco — decorre do mesmo princípio territorial já visto: o que cresce em solo tecnicamente "dentro" da terra de Israel (mesmo que a origem do solo seja estrangeira) segue as leis agrícolas da terra, incluindo dízimos e o ano sabático, desde que o barco esteja fisicamente ligado ao chão. Já a isenção de impureza da massa amassada com suco de frutas deriva de "e se for posta água sobre semente [...] impuro é para vós" (Vaicrá 11:38) — a tradição lê este verso como estabelecendo que apenas a água (entre os líquidos, junto com outros seis fluidos especificados) tem o poder de tornar um alimento "apto" a receber impureza; suco de frutas puro não tem esse efeito, de modo que uma massa amassada exclusivamente com ele permanece imune à impureza transmitida por mãos sujas.

Por que mãos impuras não desqualificam esta massa? A regra de que um alimento só pode se tornar impuro depois de ter contato com água (ou um dos outros seis líquidos reconhecidos pela tradição) é central em toda a área de leis de pureza alimentar. Uma massa amassada só com suco de frutas — sem qualquer água — nunca passou por esse "condicionamento" para a impureza, e por isso continua imune a ela mesmo que seja tocada por mãos que estejam, elas mesmas, impuras. É um caso raro em que a obrigação de separar chalá (que depende apenas do volume da massa) e a suscetibilidade à impureza (que depende do contato prévio com água) se dissociam.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam não dedica uma halachá específica, em Hilchot Bikurim, ao caso da terra trazida por barco — matéria tratada com mais detalhe nas leis de Teruma e Maasser; nem à isenção de impureza da massa amassada com suco de frutas, que pertence propriamente às leis de pureza alimentar (Hilchot Tumat Ochlin). Registra-se aqui, com honestidade, que não há uma codificação equivalente e dedicada nesse capítulo específico.

Nota editorial
Diferentemente da maioria das mishnayot deste perek, o conteúdo de 2:2 — tanto a regra do barco quanto a da massa amassada com suco — não encontra uma halachá dedicada e equivalente dentro de Hilchot Bikurim (que trata especificamente de chalá, bikurim e outros dons sacerdotais). O Rambam trata da suscetibilidade de alimentos à impureza no tratado separado de Hilchot Tumat Ochlin, e das leis territoriais de dízimos no tratado de Hilchot Maasser; ambos fogem do escopo direto de Hilchot Bikurim. Por isso, nesta mishná, o perush dos comentadores clássicos é a fonte primária de explicação, sem uma halachá formal do Rambam a ser citada aqui.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chalá 2:2
פֵּרוֹת חוּצָה לָאָרֶץ אֵינָן חַיָּבוֹת מִן הַתּוֹרָה בְּמַעֲשֵׂר וְלֹא בְּדִינֵי שְׁמִטָּה, וּכְשֶׁבָּא עָפָר מֵחוּצָה לָאָרֶץ לְאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל בִּסְפִינָה וְזָרַע בְּאוֹתוֹ עָפָר שֶׁבְּאוֹתָהּ הַסְּפִינָה, אוֹתוֹ הַזֶּרַע חַיָּב בְּכָל הַחֻקִּים, וּבִתְנַאי שֶׁתְּהֵא הַסְּפִינָה מִתְחַכֶּכֶת בָּאָרֶץ, וְזֶהוּ עִנְיַן גוֹשֶׁשֶׁת... וּלְפִיכָךְ כְּשֶׁלָּשׁ הַקֶּמַח בְּמֵי פֵרוֹת, אוֹתָהּ הַפַּת תֵּאָכֵל בְּיָדַיִם מְסוֹאָבוֹת, וְאַף עַל פִּי שֶׁהִיא תְרוּמָה, לְפִי שֶׁלֹּא הֻכְשְׁרָה לְטֻמְאָה וְלֹא תִּפָּסֵל בְּיָדַיִם מְסוֹאָבוֹת.

Frutos de fora da terra não são obrigados pela Torá em dízimo nem nas leis de shemitá (ano sabático). E quando vem terra de fora da terra para a terra de Israel em barco, e se semeia naquela terra que está naquele barco, aquela semente fica obrigada em todos os decretos, com a condição de que o barco esteja se roçando na terra — e este é o sentido de "gosheshet" (literalmente, "que toca o solo com atrito", indicando contato físico real, não apenas proximidade) [...]. E por isso, quando se amassa a farinha com suco de frutas, aquele pão se come com mãos sujas, ainda que seja teruma (no sentido amplo, por analogia à chalá), pois não foi tornado apto a receber impureza, e não se desqualifica por mãos sujas (o princípio geral de que apenas contato prévio com água — ou um dos sete líquidos — condiciona um alimento a receber impureza se aplica aqui com todo o seu peso).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chalá 2:2
עֲפַר חוּץ לָאָרֶץ הַבָּא בִסְפִינָה לָאָרֶץ. בִּסְפִינָה נְקוּבָה אַיְרֵי, וְרִגְבֵי הָאֲדָמָה סוֹתְמִין אֶת הַנֶּקֶב, שֶׁאֵין הַמַּיִם נִכְנָסִים בָּהּ. חַיֶּבֶת בַּמַּעַשְׂרוֹת. אִם זָרַע וְצָמְחוּ הַזְּרָעִים בֶּעָפָר שֶׁבְּתוֹךְ הַסְּפִינָה [...]. אֵימָתַי בִּזְמַן שֶׁהַסְּפִינָה גוֹשֶׁשֶׁת. נוֹגַעַת בְּגוּשֵׁי הֶעָפָר, כְּלוֹמַר שֶׁהִיא דְבוּקָה בָאָרֶץ. עִסָּה שֶׁנִּלּוֹשָׁה בְמֵי פֵרוֹת חַיֶּבֶת בַּחַלָּה. בַּיְרוּשַׁלְמִי מוֹכִיחַ קְצָת שֶׁאֵין הֲלָכָה כִּסְתָם מִשְׁנָה זוֹ, וְעִסָּה שֶׁנִּלּוֹשָׁה בְמֵי פֵרוֹת פְּטוּרָה מֵחַלָּה. וְנֶאֱכֶלֶת בְּיָדַיִם מְסוֹאָבוֹת. שֶׁאֵין אֹכֶל מֻכְשָׁר לְקַבֵּל טֻמְאָה עַד שֶׁיָּבֹאוּ עָלָיו מַיִם אוֹ אֶחָד מִשִּׁבְעָה מַשְׁקִין.

"Terra de fora da terra que veio em barco à terra": trata-se de um barco perfurado, cujo buraco é tapado por torrões dessa mesma terra, de modo que a água não entra por ele. "É obrigada em dízimos": se semeou e as sementes brotaram na terra que está dentro do barco [...]. "Quando o barco toca [o fundo]": encosta em torrões de terra, isto é, está grudado ao solo. "Massa amassada com suco de frutas é obrigada em chalá": no Talmud Yerushalmi há indícios de que a lei não segue esta mishná anônima em todos os seus detalhes, e que uma massa amassada com suco de frutas seria, segundo essa outra opinião, isenta de chalá (uma divergência que o próprio Bartenura registra sem resolver taxativamente). "E se come com mãos sujas": pois nenhum alimento é apto a receber impureza até que venha sobre ele água, ou um dos sete líquidos reconhecidos pela tradição.

Massechet Chalá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.