E quanto é considerado numeroso? Bet Shamai diz: duas ovelhas, pois está dito: “um homem criará uma novilha do gado e duas ovelhas”. E Bet Hilel diz: cinco, pois está dito: “cinco ovelhas preparadas”.
— A mishná anterior deixou em aberto a medida exata do rebanho “numeroso” que gera a obrigação da primeira tosquia; esta mishná a define, por meio de uma disputa entre as duas escolas. Ambas ancoram sua posição em versículos onde a palavra tzon (rebanho) aparece associada a um número: Bet Shamai extrai de Yeshaiáhu que já duas ovelhas merecem esse nome; Bet Hilel, de um verso sobre o presente de Avigail a David, exige ao menos cinco. A disputa não é sobre o sentido da palavra em si, mas sobre qual dos dois versículos serve de modelo para a medida exigida por esta mitzva específica.
Rabi Dossa ben Harkinas diz: cinco ovelhas que tosquiam uma mina e meia cada ficam obrigadas na primeira tosquia. E os sábios dizem: cinco ovelhas que tosquiam qualquer quantidade.
— Aceitando a medida de cinco ovelhas de Bet Hilel, Rabi Dossa acrescenta uma condição: cada uma delas precisa render, na tosquia, ao menos uma mina e meia de lã — abaixo disso, o corte não é considerado uma “tosquia” própria. Os sábios discordam dessa condição adicional: bastam as cinco ovelhas, qualquer que seja o peso da lã de cada uma, para que o dono fique obrigado a separar a dádiva.
E quanto se lhe dá? O peso de cinco selás na Judeia, que são dez selás na Galileia, branqueada e não suja, o suficiente para fazer dela uma peça de roupa pequena, pois está dito: “lhe darás”, que haja nela o suficiente para um presente.
— Fixada a obrigação, a mishná estabelece quanto se deve entregar a cada sacerdote: o peso de cinco selás segundo a medida usada na Judeia — o dobro na medida menor da Galileia —, já lavada e branqueada, não suja como sai diretamente da tosquia. A razão da medida está no próprio verso, “lhe darás”: a dádiva precisa ser substancial o bastante para servir de presente real, o suficiente para confeccionar uma peça de vestimenta pequena, e não um punhado simbólico e insignificante.
Se não teve tempo de dá-la a ele até que a tingiu — está isento. Se a branqueou, mas não a tingiu — está obrigado.
— Se o dono demorou a entregar a dádiva e, nesse ínterim, tingiu a lã, ele se torna isento de entregá-la: o tingimento é considerado uma mudança substancial que lhe confere posse plena sobre o material, como quem danifica ou consome dádivas sacerdotais que já deveriam ter sido entregues. O simples branqueamento, porém, não constitui mudança suficiente — a lã permanece essencialmente a mesma, em seu estado original — e por isso a obrigação de entregá-la continua de pé.
Aquele que compra a tosquia do rebanho de um gentio está isento da primeira tosquia. Aquele que compra a tosquia do rebanho de seu companheiro: se o vendedor reservou para si, o vendedor está obrigado; se não reservou, o comprador está obrigado. Se tinha dois tipos — pardas e brancas — e vendeu as pardas, mas não as brancas, os machos, mas não as fêmeas: este dá para si, e aquele dá para si.
— Quem compra a lã ainda presa ao rebanho de um gentio nada deve ao sacerdote, pois a Torá fala da tosquia “do teu rebanho” — e aquele rebanho nunca foi de um israelita. Quando a venda é entre dois judeus, o critério é quem permanece dono de parte do rebanho no momento da tosquia: se o vendedor reservou para si alguns animais, a obrigação recai sobre ele quanto ao que reservou; se vendeu tudo, recai inteiramente sobre o comprador. E se o rebanho tinha dois tipos de animais — pardos e brancos, ou machos e fêmeas — e a venda cobriu apenas um deles, cada parte fica responsável pela dádiva referente ao que efetivamente possui: o vendedor, pelo que reteve; o comprador, pelo que adquiriu.
Rambam explica que “branqueada e não suja” significa que se deve dar ao sacerdote uma medida tal que, depois de lavada e branqueada, ainda tenha cinco selás — não menos que isso. E esta mishná trata apenas de quem possui uma quantidade grande de primeira tosquia, pois a cada sacerdote não se dá menos do que essa medida, do mesmo modo como se ensina no fim do tratado Peá que não se dá menos aos pobres na eira. Quanto à medida total da primeira tosquia devida, é um sessenta avos do que se tosquiou; e já dissemos que a medida mínima que obriga na primeira tosquia é o peso de sessenta selás, desde que sejam de cinco ovelhas e que nenhuma delas tosquie menos de doze selás — ficando assim esclarecido que a primeira tosquia nunca é menor que o peso de um selá.
Bartenura explica que “e duas ovelhas” mostra que já duas recebem o nome de rebanho; e “pois está dito cinco ovelhas preparadas” refere-se a ovelhas que, segundo o midrash, “faziam” seus donos, dizendo-lhes: levanta-te e cumpre uma nova mitzva, que antes disso não recaía sobre ti. “Uma mina e meia”: cada ovelha, uma mina e meia; menos que isso não se considera uma tosquia própria. “Qualquer quantidade” não é literal, pois com menos de sessenta selás ao todo não há obrigação alguma — mas como Rabi Dossa exige uma medida grande por ovelha, a mishná chama a medida pequena dos sábios de “qualquer quantidade”. “Branqueada” não significa que o israelita seja obrigado a branqueá-la, mas que deve dar uma quantidade de lã suja tal que, quando o sacerdote a branquear, resulte em cinco selás de lã branqueada. “Até que a tingiu” refere-se ao próprio dono, antes de entregá-la; e fica “isento” de entregar mais, pois adquiriu por meio da mudança, tornando-se como quem danifica ou consome dádivas sacerdotais — o que é isento. “Aquele que compra a tosquia do rebanho de um gentio”, quando ainda presa ao rebanho, está isento, pois está escrito “a tosquia do teu rebanho”, e aquele rebanho não é dele. “Pardas” significa nem pretas nem brancas. “Este dá para si”: o comprador dá pelo que comprou, e o vendedor dá pelo que reservou para si.
Rashi explica que “uma mina e meia” significa cada ovelha com mina e meia; menos que isso não se considera tosquia própria, sendo a menor das tosquias. Sobre “qualquer quantidade” e “quanto se lhe dá”, remete à discussão detalhada da Guemará adiante. “Suja” é a lã que ainda não foi inteiramente branqueada. Quanto a “que a tingiu”, refere-se ao próprio israelita; e fica “isento” porque a adquiriu por meio de uma mudança, tornando-se como quem danifica ou consome as dádivas sacerdotais. “Branqueou-a, mas não a tingiu” não constitui mudança, e a lã permanece em sua forma original. “Aquele que compra a tosquia do rebanho de um idólatra” refere-se a quando ainda está presa ao rebanho; fica “isento”, pois está escrito “a tosquia do teu rebanho”, e aquele rebanho não é dele — a Torá foi rigorosa quanto ao rebanho pertencer ao dono, e não quanto à tosquia em si. “Pardas” significa nem pretas nem brancas. Sobre “este dá para si”, a Guemará explica a razão adiante.
Com esta mishná encerra-se o Perek Yud-Alef de Massechet Chulin.