Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Yud-Bet · Mishná 5 de 5

A proibição absoluta e o a fortiori final

לֹא יִטֹּל אָדָם אֵם עַל הַבָּנִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Proibido mesmo para cumprir a purificação do leproso

Não tome o homem a mãe sobre os filhotes, mesmo para purificar o leproso.

— O rito de purificação do leproso exige duas aves puras e vivas (Vayikrá 14:4). Poder-se-ia supor que, sendo essa purificação em si uma mitzvá, ela justificaria tomar a mãe junto com os filhotes para obtê-la mais depressa. A mishná fecha essa possibilidade de modo absoluto: nem mesmo a necessidade de cumprir a mitzvá da purificação do leproço autoriza violar a proibição de tomar a mãe sobre os filhotes — ela deve, antes, ser enviada, e somente os filhotes tomados.

לֹא יִטֹּל אָדָם אֵם עַל הַבָּנִים, אֲפִלּוּ לְטַהֵר אֶת הַמְּצֹרָע.
O raciocínio a fortiori final: do preceito leve ao preceito grave

E se quanto a um preceito leve, que vale como um issar, disse a Torá: “para que te vá bem e prolongues os dias” — quanto mais, por raciocínio a fortiori, quanto aos preceitos graves da Torá.

— A mishná fecha o tratado inteiro com o mesmo raciocínio a fortiori (kal vachomer) que a tradição já associa a esta mitzvá desde a Torá: shiluach hakan é descrita como um preceito “leve”, que não implica prejuízo financeiro algum — vale, quando muito, o valor simbólico de um issar, a menor das moedas —, e ainda assim a Torá lhe promete como recompensa o bem-estar e o prolongamento dos dias, a mesma promessa feita à honra a pai e mãe. Se um preceito tão leve já merece essa recompensa, conclui a mishná, tanto mais os preceitos graves da Torá devem merecê-la — um raciocínio que projeta, para além do escopo estrito desta mitzvá, todo o sistema de recompensa que sustenta a observância da Torá como um todo.

וּמָה אִם מִצְוָה קַלָּה שֶׁהִיא כְאִסָּר, אָמְרָה תוֹרָה (דברים כב) לְמַעַן יִיטַב לָךְ וְהַאֲרַכְתָּ יָמִים, קַל וָחֹמֶר עַל מִצְוֹת חֲמוּרוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Devarim 22:7 — a recompensa da vida longa, fundamento do raciocínio a fortiori
שַׁלֵּחַ תְּשַׁלַּח אֶת־הָאֵם וְאֶת־הַבָּנִים תִּקַּח־לָךְ לְמַעַן יִיטַב לָךְ וְהַאֲרַכְתָּ יָמִים׃
Enviarás, sim, enviarás a mãe, e os filhotes tomarás para ti, para que te vá bem e prolongues os dias.
A mishná encerra o tratado citando textualmente a promessa de recompensa de Devarim 22:7, a mesma fórmula — “para que te vá bem e prolongues os dias” — usada em Devarim 5:16 para o preceito de honrar pai e mãe. A Guemará (Chulin 142a) relata que essa equivalência textual entre a mitzvá mais leve, em aparência, e uma das mais centrais da Torá, foi justamente o que intrigou Elisha ben Avuyah ao presenciar um filho que, cumprindo ambos os preceitos ao mesmo tempo por ordem do pai, morreu em consequência, sem receber nem a vida longa nem o bem prometidos neste mundo — episódio que a tradição talmúdica interpreta como referindo-se ao “mundo que é todo longo” e ao “mundo que é todo bom”, isto é, ao Mundo Vindouro.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 12:5
לא יטול אדם אם על בנים אפילו לטהר את כו': כל ענין זה מבואר ואין צריך פירוש כל עיקר:

Rambam observa que todo este assunto é claro por si mesmo e não necessita de explicação alguma.

Bartenura · Chulin 12:5
מִצְוָה שֶׁהִיא כְּאִסָּר. שֶׁאֵין בָּהּ חֶסְרוֹן כִּיס אֶלָּא דָּבָר מֻעָט:

Bartenura explica que “preceito que vale como um issar” significa que não implica prejuízo financeiro algum, senão algo mínimo.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 142a:2, sobre a Guemará desta mishná
מתני' שהיא כאיסר - שאין בה חסרון כיס אלא דבר מועט:

Rashi explica que “que vale como um issar” significa que a mitzvá não implica prejuízo financeiro algum, senão algo mínimo.

Encerramento do tratado · סִיּוּם הַמַּסֶּכֶת

הֲדַרַן עֲלָךְ שִׁלּוּחַ הַקֵּן, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת חוּלִּין

Com esta última mishná do Perek Yud-Bet, encerra-se Massechet Chulin por inteiro — setenta e quatro mishnayot em doze perakim, dedicadas às leis do abate ritual comum e a tudo que dele decorre: quem pode abater e com quais instrumentos, os sinais de trefá e de pureza, o feto no ventre da mãe abatida, oto ve-et beno, a cobertura do sangue, o nervo ciático, a mistura de carne e leite, a impureza de peles e ossos, as dádivas sacerdotais, a primeira tosquia da lã, e agora, para fechar, o envio do ninho. A fórmula tradicional de encerramento acima — “hadran alach” (“voltaremos a você”), seguida de “ussliká lah massechet Chulin” (“concluiu-se Massechet Chulin”) — é a que fecha o próprio texto da Guemará ao final do tratado, em Chulin 142a.

O tratado abriu estabelecendo quem pode realizar o abate ritual e com quais instrumentos, e os primeiros pares espelhados de shechitá e melicá (Perek Alef); aprofundou a técnica do próprio corte, os símanim exigidos e os casos que invalidam o abate (Perek Bet); voltou-se aos sinais de trefá na behêmá e na ave, e aos sinais de pureza (Perek Guimel); tratou do estatuto do feto encontrado no ventre da mãe abatida (Perek Dalet); dedicou-se a oto ve-et beno, a proibição de abater a mãe e sua cria no mesmo dia (Perek Hei); voltou-se a kissui hadam, a cobertura do sangue do abate (Perek Vav); tratou de gid hanashe, o nervo ciático proibido desde a luta de Yaakóv com o anjo (Perek Zayin); dedicou-se a bassar bechalav, a proibição de misturar carne e leite (Perek Chet); examinou os limites da impureza em peles, ossos e membros pendentes (Perek Tet); voltou-se às dádivas sacerdotais — o braço, os queixos e o estômago (Perek Yud); tratou da primeira tosquia da lã devida ao sacerdote (Perek Yud-Alef); e fechou, neste Perek Yud-Bet, com shiluach hakan — o envio da mãe pássaro antes de tomar seus filhotes ou ovos —, do alcance da mitzvá e sua comparação com a cobertura do sangue, passando pela ave impura e o macho da poupa, os critérios da mãe voando e do ninho de um só, a disputa sobre chibatadas e envio para quem transgride, até a proibição absoluta que fecha o tratado com o raciocínio a fortiori do preceito leve ao preceito grave. Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste tratado se distribuem por Chulin 2a–142a, e a maioria delas reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.

Com Chulin, encerra-se o terceiro tratado de Seder Kodashim — depois de Zevachim e Menachot —, a ordem dedicada às leis dos sacrifícios e do Templo.