Não tome o homem a mãe sobre os filhotes, mesmo para purificar o leproso.
— O rito de purificação do leproso exige duas aves puras e vivas (Vayikrá 14:4). Poder-se-ia supor que, sendo essa purificação em si uma mitzvá, ela justificaria tomar a mãe junto com os filhotes para obtê-la mais depressa. A mishná fecha essa possibilidade de modo absoluto: nem mesmo a necessidade de cumprir a mitzvá da purificação do leproço autoriza violar a proibição de tomar a mãe sobre os filhotes — ela deve, antes, ser enviada, e somente os filhotes tomados.
E se quanto a um preceito leve, que vale como um issar, disse a Torá: “para que te vá bem e prolongues os dias” — quanto mais, por raciocínio a fortiori, quanto aos preceitos graves da Torá.
— A mishná fecha o tratado inteiro com o mesmo raciocínio a fortiori (kal vachomer) que a tradição já associa a esta mitzvá desde a Torá: shiluach hakan é descrita como um preceito “leve”, que não implica prejuízo financeiro algum — vale, quando muito, o valor simbólico de um issar, a menor das moedas —, e ainda assim a Torá lhe promete como recompensa o bem-estar e o prolongamento dos dias, a mesma promessa feita à honra a pai e mãe. Se um preceito tão leve já merece essa recompensa, conclui a mishná, tanto mais os preceitos graves da Torá devem merecê-la — um raciocínio que projeta, para além do escopo estrito desta mitzvá, todo o sistema de recompensa que sustenta a observância da Torá como um todo.
Rambam observa que todo este assunto é claro por si mesmo e não necessita de explicação alguma.
Bartenura explica que “preceito que vale como um issar” significa que não implica prejuízo financeiro algum, senão algo mínimo.
Rashi explica que “que vale como um issar” significa que a mitzvá não implica prejuízo financeiro algum, senão algo mínimo.
Com esta última mishná do Perek Yud-Bet, encerra-se Massechet Chulin por inteiro — setenta e quatro mishnayot em doze perakim, dedicadas às leis do abate ritual comum e a tudo que dele decorre: quem pode abater e com quais instrumentos, os sinais de trefá e de pureza, o feto no ventre da mãe abatida, oto ve-et beno, a cobertura do sangue, o nervo ciático, a mistura de carne e leite, a impureza de peles e ossos, as dádivas sacerdotais, a primeira tosquia da lã, e agora, para fechar, o envio do ninho. A fórmula tradicional de encerramento acima — “hadran alach” (“voltaremos a você”), seguida de “ussliká lah massechet Chulin” (“concluiu-se Massechet Chulin”) — é a que fecha o próprio texto da Guemará ao final do tratado, em Chulin 142a.
O tratado abriu estabelecendo quem pode realizar o abate ritual e com quais instrumentos, e os primeiros pares espelhados de shechitá e melicá (Perek Alef); aprofundou a técnica do próprio corte, os símanim exigidos e os casos que invalidam o abate (Perek Bet); voltou-se aos sinais de trefá na behêmá e na ave, e aos sinais de pureza (Perek Guimel); tratou do estatuto do feto encontrado no ventre da mãe abatida (Perek Dalet); dedicou-se a oto ve-et beno, a proibição de abater a mãe e sua cria no mesmo dia (Perek Hei); voltou-se a kissui hadam, a cobertura do sangue do abate (Perek Vav); tratou de gid hanashe, o nervo ciático proibido desde a luta de Yaakóv com o anjo (Perek Zayin); dedicou-se a bassar bechalav, a proibição de misturar carne e leite (Perek Chet); examinou os limites da impureza em peles, ossos e membros pendentes (Perek Tet); voltou-se às dádivas sacerdotais — o braço, os queixos e o estômago (Perek Yud); tratou da primeira tosquia da lã devida ao sacerdote (Perek Yud-Alef); e fechou, neste Perek Yud-Bet, com shiluach hakan — o envio da mãe pássaro antes de tomar seus filhotes ou ovos —, do alcance da mitzvá e sua comparação com a cobertura do sangue, passando pela ave impura e o macho da poupa, os critérios da mãe voando e do ninho de um só, a disputa sobre chibatadas e envio para quem transgride, até a proibição absoluta que fecha o tratado com o raciocínio a fortiori do preceito leve ao preceito grave. Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste tratado se distribuem por Chulin 2a–142a, e a maioria delas reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya.
Com Chulin, encerra-se o terceiro tratado de Seder Kodashim — depois de Zevachim e Menachot —, a ordem dedicada às leis dos sacrifícios e do Templo.