Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Bet · Mishná 4 de 10

A ordem dos símanim, a espera até a morte, e a faca escondida sob o segundo símã: nevelá ou trefá

שָׁחַט אֶת הַוֶּשֶׁט וּפָסַק אֶת הַגַּרְגֶּרֶת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Ordem invertida dos símanim, espera até a morte, e a faca escondida sob o segundo símã: nevelá ou trefá?

Se abateu o esôfago e rompeu a traqueia, ou abateu a traqueia e rompeu o esôfago, ou abateu um deles e esperou até que ela morresse, ou escondeu a faca sob o segundo símã e o rompeu por baixo — Rabi Yeshevav diz: é nevelá. Rabi Akiva diz: é trefá.A mishná trata de quatro variações de um mesmo problema: o abate que não segue a forma correta — cortar propriamente, com vaivém, ambos os símanim em sequência. Se um deles foi cortado corretamente e o outro apenas rompido (sem o movimento próprio); se houve uma longa espera entre o corte de um símã e o do outro, até a morte do animal; ou se a faca foi escondida sob o segundo símã e este foi rompido por baixo, sem visibilidade — em todos esses casos, discutem Rabi Yeshevav e Rabi Akiva se o status resultante é o de nevelá (carcaça, que transmite impureza pelo toque e pelo carregamento) ou de trefá (proibida para consumo, mas sem transmitir essa impureza).

Rabi Yeshevav declarou um princípio em nome de Rabi Yehoshua: tudo que foi invalidado no próprio ato do abate é nevelá; tudo cujo abate foi realizado corretamente e outra causa a invalidou é trefá. E Rabi Akiva concordou com ele.O princípio final distingue as duas categorias: quando o próprio processo do abate foi falho — como nos quatro casos listados — o resultado é nevelá, pois nunca houve um abate válido. Quando, ao contrário, o abate em si foi tecnicamente correto, mas o animal já carregava (ou veio a sofrer) algum defeito que o desqualifica por outra via, o resultado é trefá. Diante desse princípio, Rabi Akiva abandona sua posição anterior e concorda com Rabi Yeshevav.

שָׁחַט אֶת הַוֶּשֶׁט וּפָסַק אֶת הַגַּרְגֶּרֶת, אוֹ שָׁחַט אֶת הַגַּרְגֶּרֶת וּפָסַק אֶת הַוֶּשֶׁט, אוֹ שֶׁשָּׁחַט אַחַד מֵהֶן וְהִמְתִּין לָהּ עַד שֶׁמֵּתָה, אוֹ שֶׁהֶחֱלִיד אֶת הַסַּכִּין תַּחַת הַשֵּׁנִי וּפְסָקוֹ, רַבִּי יְשֵׁבָב אוֹמֵר, נְבֵלָה. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, טְרֵפָה. כְּלָל אָמַר רַבִּי יְשֵׁבָב מִשּׁוּם רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, כֹּל שֶׁנִּפְסְלָה בִשְׁחִיטָתָהּ, נְבֵלָה. כֹּל שֶׁשְּׁחִיטָתָהּ כָּרָאוּי וְדָבָר אַחֵר גָּרַם לָהּ לִפָּסֵל, טְרֵפָה. וְהוֹדָה לוֹ רַבִּי עֲקִיבָא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 2:4
שחט את הוושט ופשט את הגרגרת או פסק את כו': אלו והדומה להם ענין חלדה שזכרנו והוא שאם יהיה הסכין חלוד בשעת שחיטת השיעור שחייב לשחוט בין שהיה חלוד תחת בגד או תחת צמר הבהמה או תחת העור וכל כיוצא בזה אסור אלא א"כ היה הסכין כולו מגולה בשעת השחיטה ואין אנו צריכין לבאר שכלל רבי ישבב אמת לפי שר"ע שחלק עליו כבר הודה לו:

Rambam liga o caso da faca escondida sob o segundo símã ao conceito geral de chaladá (ocultação da lâmina): sempre que a faca estiver coberta — seja sob uma peça de roupa, sob a lã da behêmá, sob a própria pele, ou de modo semelhante — durante o corte do trecho mínimo exigido, o abate é proibido, a menos que a faca esteja totalmente exposta durante toda a extensão do corte. E conclui que não é necessário demonstrar que o princípio de Rabi Yeshevav é a norma final, já que o próprio Rabi Akiva, que discordava dele, terminou por concordar.

Bartenura · Chulin 2:4
וּפָסַק אֶת הַגַּרְגֶּרֶת. הַיְנוּ עִקּוּר. וּבִבְהֵמָה קָאֵי: תַּחַת הַשֵּׁנִי. תַּחַת הַסִּימָן הַשֵּׁנִי. שֶׁהָיָה תוֹחֵב הַסַּכִּין בֵּין הַסִּימָן לַצַּוָּאר: הֶחֱלִיד. כִּסָּה. וּלְשׁוֹן חֲלָדָה, כְּחֻלְדָּה הַדָּרָה בְּעִקְּרֵי הַבָּתִּים דִּמְכַסְיָא: וּפְסָקוֹ. מִלְּמַטָּה לְמַעְלָה: נְבֵלָה. וּמְטַמְּאָה בְמַשָּׂא: טְרֵפָה. וְאֵינָהּ מְטַמְּאָה: וְדָבָר אַחֵר גָּרַם לָהּ לְהִפָּסֵל. כְּגוֹן אֶחָד מִן הַטְּרֵפוֹת הַשְּׁנוּיוֹת בְּפֶרֶק וְאֵלּוּ טְרֵפוֹת:

Bartenura identifica o rompimento da traqueia sem o corte próprio como um caso de iku'r (arrancamento), aplicável à behêmá; explica que “sob o segundo” significa entre o símã e o pescoço, onde a faca é enfiada; e deriva a palavra chaladá (ocultação) da mesma raiz de chuldá, o animal que vive escondido nos alicerces das casas. Por fim, esclarece que nevelá transmite impureza pelo carregamento, enquanto trefá não a transmite — e que o “outro fator” que causa a invalidação de um abate tecnicamente correto se refere aos próprios defeitos internos listados no capítulo “Estas são as trefot”.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 32a:17, sobre a Guemará desta mishná
מתני' ופסק את הגרגרת — היינו עיקור ובבהמה קאי: תחת השני — בין הסימן לצואר: ופסקו — מלמטה למעלה: ישבב — שם חכם וכן הוא בדברי הימים (א' כד) גבי משמרות:

Rashi confirma que o rompimento da traqueia sem o corte próprio equivale ao iku'r, e que o caso se refere à behêmá; explica que “sob o segundo símã” designa o espaço entre o símã já cortado e o pescoço, e que o corte oculto se dá de baixo para cima. Observa, por fim, que Yeshevav é um nome próprio de sábio, atestado também em Divrei HaYamim, entre as escalas sacerdotais.