Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Bet · Mishná 7 de 10

Quem abate para um gói, e a disputa sobre a intenção presumida do dono não judeu

הַשּׁוֹחֵט לְנָכְרִי
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O abate feito para um gói: a disputa sobre a intenção presumida

Quem abate para um gói, seu abate é válido; e Rabi Eliezer invalida.Quando um israelita abate a behêmá de um gói (não judeu) a pedido dele, os sábios validam o abate normalmente, considerando a intenção de quem efetivamente realiza o corte. Rabi Eliezer discorda, invalidando esse abate.

Disse Rabi Eliezer: mesmo que a tenha abatido para que o gói coma do seu diafragma, é inválido, pois a intenção padrão de um gói é para a idolatria.Rabi Eliezer leva sua posição ao extremo: mesmo quando fica claro que o propósito do gói era puramente alimentar — comer uma parte específica e comum, o diafragma — ainda assim o abate é inválido, pois presume-se que a intenção não declarada de um gói ao adquirir uma behêmá para abate é a idolatria, e essa intenção presumida contamina todo o ato, mesmo quando o executor material é um israelita.

Disse Rabi Yosei: [isto se resolve por] a fortiori: se no lugar onde a intenção invalida — nas oferendas consagradas — tudo segue apenas [a intenção de] quem realiza o serviço; no lugar onde a intenção não invalida — no chulin — não é justo que tudo siga apenas [a intenção de] quem abate?Rabi Yosei refuta Rabi Eliezer com um argumento a fortiori: mesmo nas oferendas consagradas, onde a intenção errada durante o serviço realmente invalida a oferenda (tornando-a pigul), a lei atribui relevância apenas à intenção de quem executa o serviço — o sacerdote — e não à dos donos da oferenda. Se é assim no caso mais rigoroso, no chulin comum, onde a intenção sequer chega a invalidar o abate, com muito mais razão deveria contar apenas a intenção de quem efetivamente abate — o israelita — e não a do gói para quem o abate é feito.

הַשּׁוֹחֵט לְנָכְרִי, שְׁחִיטָתוֹ כְשֵׁרָה. וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר פּוֹסֵל. אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, אֲפִלּוּ שְׁחָטָהּ שֶׁיֹּאכַל הַנָּכְרִי מֵחֲצַר כָּבֵד שֶׁלָּהּ, פְּסוּלָה, שֶׁסְּתָם מַחֲשֶׁבֶת נָכְרִי לַעֲבוֹדָה זָרָה. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, קַל וָחֹמֶר הַדְּבָרִים, וּמַה בִּמְקוֹם שֶׁהַמַּחֲשָׁבָה פוֹסֶלֶת, בְּמֻקְדָּשִׁין, אֵין הַכֹּל הוֹלֵךְ אֶלָּא אַחַר הָעוֹבֵד, מְקוֹם שֶׁאֵין מַחֲשָׁבָה פוֹסֶלֶת, בְּחֻלִּין, אֵינוֹ דִין שֶׁלֹּא יְהֵא הַכֹּל הוֹלֵךְ אֶלָּא אַחַר הַשּׁוֹחֵט:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 2:7
השוחט לעובד כוכבים כשרה ורבי אליעזר כו': דעת רבי אליעזר שהבעלים מפגלין בקדשים וגמרינן חוץ מבפנים ורבי יוסי דעתו כמו שאמרה המשנה שהעובד הוא המפגל והלכה כרבי יוסי:

Rambam resume a disputa em seus fundamentos: Rabi Eliezer sustenta que, mesmo nas oferendas consagradas, são os donos que podem tornar a oferenda pigul com sua intenção — e daí deriva, por analogia entre o serviço “fora” (o abate comum) e o serviço “dentro” (o Templo), que a intenção do dono (aqui, o gói) também haveria de contar no chulin. Rabi Yosei, ao contrário, sustenta — como a própria mishná expõe — que é apenas quem executa o serviço que determina o pigul. E a lei segue Rabi Yosei.

Bartenura · Chulin 2:7
וְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר פּוֹסֵל. אִם בֶּהֱמַת נָכְרִי הִיא. אַף עַל גַּב דְּיִשְׂרָאֵל קָשָׁחֵיט לָהּ מְהַנְיָא בָּהּ מַחֲשֶׁבֶת נָכְרִי, דִּסְתָם מַחֲשַׁבְתּוֹ לַעֲבוֹדָה זָרָה: חֲצַר כָּבֵד. יוֹתֶרֶת הַכָּבֵד: אָמַר רַבִּי יוֹסֵי קַל וָחֹמֶר. דְּלֹא מְהַנְיָא מַחֲשֶׁבֶת בְּעָלִים, הוֹאִיל וְיִשְׂרָאֵל שָׁחֵיט לָהּ... וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי:

Bartenura esclarece que Rabi Eliezer invalida especificamente quando a behêmá pertence ao gói: mesmo sendo o israelita quem efetivamente abate, é a intenção do dono gói que prevalece, pois sua intenção padrão é idólatra. Identifica “chatzar kaved” como o lobo excedente do fígado. E detalha o argumento a fortiori de Rabi Yosei em seus quatro serviços do Templo — abate, recepção do sangue, aspersão e transporte — explicando por que, mesmo nesse contexto mais rigoroso, apenas a intenção de quem executa o serviço é relevante, e a lei segue Rabi Yosei.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 38b:7–8, sobre a Guemará desta mishná
מתני' ורבי אליעזר פוסל — דכיון דבהמה דעובד כוכבים היא אע"ג דישראל קשחיט מהניא ביה מחשבת עובד כוכבים דסתם מחשבתו לעבודת כוכבים: חצר כבד — טרפשא דכבדא: אמר רבי יוסי קל וחומר — דלא מהניא בה מחשבת בעלים הואיל וישראל שחיט לה...

Rashi confirma que Rabi Eliezer invalida especificamente o caso da behêmá pertencente ao gói: ainda que o corte seja feito por um israelita, é a intenção do dono não judeu que prevalece, pois sua intenção padrão volta-se à idolatria; identifica “chatzar kaved” (o diafragma) com o termo aramaico tarpasha dechavda. E desenvolve o argumento de Rabi Yosei, mostrando que, mesmo no caso mais rigoroso das oferendas consagradas, apenas a intenção de quem executa o serviço é juridicamente relevante.