Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Vav · Mishná 4 de 7

Uma cobertura para muitos abates

שָׁחַט מֵאָה חַיּוֹת בְּמָקוֹם אֶחָד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma cobertura para cem abates no mesmo lugar

Abateu cem animais selvagens em um só lugar — uma só cobertura para todos eles. Cem aves em um só lugar — uma só cobertura para todas elas. Animal selvagem e ave em um só lugar — uma só cobertura para todos. Rabi Yehudá diz: abateu um animal selvagem, deve cobri-lo, e depois abater a ave.

— A mitzvá recai sobre o sangue derramado num determinado local, não sobre cada anima individualmente abatido: se cem animais foram abatidos no mesmo ponto e seu sangue se misturou ou se acumulou junto, uma única camada de terra sobre todo aquele sangue cumpre a obrigação inteira, sem necessidade de cobrir cada porção separadamente. E o mesmo vale quando se mistura o sangue de animal selvagem com o de ave no mesmo local. Rabi Yehudá discorda quanto a esse último caso: ele lê a expressão bíblica “animal selvagem ou ave” como uma separação explícita entre as duas espécies, exigindo que se cubra o sangue do animal selvagem antes de abater a ave, para que os sangues não se misturem sob a mesma cobertura.

שָׁחַט מֵאָה חַיּוֹת בְּמָקוֹם אֶחָד, כִּסּוּי אֶחָד לְכֻלָּן. מֵאָה עוֹפוֹת בְּמָקוֹם אֶחָד, כִּסּוּי אֶחָד לְכֻלָּן. חַיָּה וָעוֹף בְּמָקוֹם אֶחָד, כִּסּוּי אֶחָד לְכֻלָּן. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, שָׁחַט חַיָּה, יְכַסֶּנָּה, וְאַחַר כָּךְ יִשְׁחֹט אֶת הָעוֹף.
Quem viu sangue descoberto, e a cobertura desfeita pelo vento

Abateu e não cobriu, e outro o viu — [o outro] é obrigado a cobrir. Cobriu-o e foi descoberto — está isento de cobrir. Cobriu-o o vento — é obrigado a cobrir.

— A obrigação de cobrir não pertence exclusivamente a quem abateu: qualquer pessoa que veja sangue de abate exposto, sem cobertura, fica pessoalmente obrigada a cobri-lo, ainda que não tenha sido ela quem abateu. Mas quem já cumpriu a mitzvá cobrindo o sangue corretamente está isento, mesmo que, depois, alguma força externa descubra o sangue novamente — a obrigação já foi cumprida uma vez. Já se foi o próprio vento que, por acaso, levou terra sobre o sangue sem intervenção humana intencional, isso não conta como cumprimento da mitzvá — que exige um ato deliberado de cobrir —, e por isso, se esse sangue voltar a ficar exposto, a obrigação de cobri-lo intencionalmente permanece de pé.

שָׁחַט וְלֹא כִסָּה וְרָאָהוּ אַחֵר, חַיָּב לְכַסּוֹת. כִּסָּהוּ וְנִתְגַּלָּה, פָּטוּר מִלְּכַסּוֹת. כִּסָּהוּ הָרוּחַ, חַיָּב לְכַסּוֹת:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 6:4
שחט מאה חיות במקום אחד כסוי אחד לכולן כו': שחט ולא כסה וראהו אחר חייב לכסות כו': הכל מודים שאינו מברך אלא ברכה אחת על דם החיה והעוף: ומה שאמר כסהו הרוח חייב לכסות ר"ל אם נתגלה אחרי כן כדי שלא תדמה שהוא כאילו כסהו ונתגלה שהוא פטור מלכסות אבל אם כסהו הרוח ונשאר מכוסה פטור מלכסות ואין הלכה כר' יהודה:

Rambam observa que, mesmo na disputa de Rabi Yehudá sobre cobrir separadamente o sangue do animal selvagem antes de abater a ave, todos concordam que se pronuncia apenas uma única benção sobre a mitzvá de cobrir o sangue de ambos. E precisa o sentido da última cláusula: “cobriu-o o vento, é obrigado a cobrir” refere-se ao caso em que o sangue voltou a ficar exposto depois — para não confundir esse caso com o anterior, onde alguém cobriu intencionalmente e depois foi descoberto, ficando isento. Mas se o vento cobriu o sangue e ele permaneceu coberto, não há obrigação adicional. E a haláchá não segue Rabi Yehudá.

Bartenura · Chulin 6:4
שָׁחַט חַיָּה יְכַסֶּנָּה וְאַחַר כָּךְ יִשְׁחֹט אֶת הָעוֹף. דִּכְתִיב (ויקרא יז) חַיָּה אוֹ עוֹף, הִפְסִיק זֶה מִזֶּה, לְהַטְעִין כִּסּוּי לְכָל אֶחָד וְאֶחָד. וְרַבָּנָן סָבְרֵי, הַאי אוֹ מִבָּעֵי לֵיהּ לְחַלֵּק, דְּאִי לָאו אוֹ הֲוָה אֲמֵינָא אֵין צָרִיךְ כִּסּוּי אֶלָּא אִם כֵּן שָׁחַט שְׁנֵיהֶם. וְהַכֹּל מוֹדִים דִּלְעִנְיַן בְּרָכָה אֵינוֹ מְבָרֵךְ אֶלָּא בְּרָכָה אַחַת. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:
וְרָאָהוּ אַחֵר חַיָּב לְכַסּוֹת. דִּכְתִיב בְּפָרָשַׁת כִּסּוּי הַדָּם, וָאוֹמַר לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל, מִצְוָה זוֹ תְּהֵא עַל כָּל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל:
כִּסָּהוּ הָרוּחַ חַיָּב לְכַסּוֹת. וְלֹא שָׁנוּ אֶלָּא שֶׁחָזַר וְנִתְגַּלָּה, אֲבָל לֹא חָזַר וְנִתְגַּלָּה פָּטוּר מִלְּכַסּוֹת:

Bartenura explica a base textual de Rabi Yehudá: o versículo escreve “animal selvagem ou ave”, separando as duas espécies, o que ele lê como exigência de cobertura individual para cada uma. Os sábios respondem que essa mesma partícula “ou” tem outra função: sem ela, poder-se-ia pensar que a cobertura só é exigida quando ambas as espécies foram abatidas juntas, e não quando apenas uma delas o foi — daí a necessidade do “ou”, sem implicar separação de cobertura. Mas todos concordam que se recita apenas uma benção. Sobre a obrigação de quem vê sangue exposto, cita a fonte na própria seção de cobertura do sangue: “e eu disse aos filhos de Israel” — ensinando que esta mitzvá recai sobre todo o povo de Israel, não apenas sobre quem abateu. E, sobre a cobertura desfeita pelo vento, esclarece que a regra só se aplica quando o sangue volta a ficar exposto; se permanece coberto, não há obrigação adicional.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 86b:7, sobre a Guemará desta mishná
מתני' שחט מאה חיות כו' - מפרש טעמייהו בברייתא בגמרא:

Rashi observa, sobre a primeira parte da mishná — a regra de que uma só cobertura basta para cem abates no mesmo lugar —, que os fundamentos dessa regra são expostos com mais detalhe numa beraita citada na própria Guemará.