Estas são as peles cujo estatuto é como o de sua carne: a pele do homem, e a pele do porco doméstico. Rabi Iossei diz: também a pele do javali. E a pele mole da corcova do camelo, e a pele da cabeça do bezerro tenro, e a pele dos cascos, e a pele da vulva, e a pele do feto, e a pele que fica debaixo da cauda gorda, e a pele da anaká, do coach, da letaá e do chomet. Rabi Iehudá diz: a letaá é como a doninha.
— Em regra, a pele de um animal já esfolado deixa de ter o estatuto de carne para efeitos de impureza. A mishná lista, porém, exceções: peles finas e tenras, que ainda não amadureceram, e por isso permanecem tratadas como a própria carne enquanto não forem curtidas. A pele humana entra nessa lista por decreto rabínico, distinto do princípio que rege as demais; as demais — porco, corcova jovem do camelo, cabeça do bezerro que ainda mama, cascos ainda tenros, o útero, o feto, e a pele sob a cauda gorda da ovelha — são naturalmente moles o bastante para reter o estatuto de carne. Entre os oito répteis (sheratzim) que impurificam por morte, quatro têm pele equiparada à carne; Rabi Iehudá substitui a letaá (lagarto) por comparação à doninha, cuja pele já se separa da carne.
E todas elas, se as curtiu, ou andou sobre elas o tempo suficiente para o curtume, tornam-se puras, exceto a pele do homem. Rabi Iochanan ben Nuri diz: os oito répteis têm peles próprias.
— Uma vez curtida — processo que transforma a pele em couro estável — ou pisada por tempo equivalente ao do curtume, qualquer dessas peles deixa de ter estatuto de carne e passa a ser tratada como objeto comum, puro. Só a pele humana permanece impura mesmo depois de curtida, por decreto dos sábios, para que ninguém use a pele curtida dos próprios pais como tapete ou coberta de leito. Rabi Iochanan ben Nuri discorda da premissa da mishná: para ele, todos os oito répteis rastejantes têm pele distinta da carne — nenhum deles se equipara aos quatro listados acima —, e a lei não segue nem Rabi Iossei, nem Rabi Iehudá, nem Rabi Iochanan ben Nuri.
Rambam esclarece que a corcova do camelo é conhecida, e que “tenra” significa enquanto ainda não endureceu — o que dura até que o camelo comece a carregar carga; e que Rabi Iehudá compara a pele da letaá à da doninha, cuja pele se separa da carne, ensinando que nem todas as peles listadas têm o mesmo grau de maciez ou dureza. Define “o tempo suficiente para o curtume” como o de andar sobre a pele estendida no chão pelo tempo equivalente a percorrer sete milhas em passo médio. Explica que a pele humana, mesmo curtida, nunca se torna pura — os sábios assim decretaram para que ninguém tire proveito dela ou a use de qualquer forma. E registra que, para Rabi Iochanan ben Nuri, os oito répteis têm todos a pele distinta da carne, discordando dos sábios que contam apenas quatro deles com pele equiparada à carne; a lei não segue Rabi Iossei, nem Rabi Iehudá, nem Rabi Iochanan ben Nuri.
Bartenura explica que “estas são as peles cujo estatuto é como o de sua carne” significa que impurificam como a própria carne. A pele do porco doméstico entra na lista por ser mole e ser comida pelos gentios; Rabi Iossei estende o mesmo raciocínio ao javali, mas a lei não o segue. A corcova tenra do camelo permanece nessa categoria enquanto o animal não carrega peso; a cabeça do bezerro, enquanto ainda mama. A pele dos cascos é a exposta ao se cortarem as patas, e é mole; a vulva é a região do útero da fêmea; a pele sob a cauda é a porção sem pelo, também mole. Sobre a letaá, explica que, para Rabi Iehudá, sua pele já se separa da carne como a da doninha — e a lei não o segue. Quanto ao curtume, esclarece que todas as peles listadas, uma vez curtidas ou pisadas o suficiente para tanto, tornam-se couro e saem do estatuto de carne, exceto a pele humana, que a Torá mesma considera pura depois de curtida, mas que os sábios declararam impura por decreto, para que ninguém faça da pele curtida de seus pais um tapete de cama. E, por fim, que para Rabi Iochanan ben Nuri nenhum dos oito répteis tem pele igual à carne; a lei não o segue.
Rashi explica sucintamente que “estas são as peles cujo estatuto é como o de sua carne” significa que impurificam como a própria carne; e que a pele do porco doméstico recebe esse estatuto porque é mole e é comida pelas pessoas.