E por que se registram as palavras de Shamai e Hilel em vão? Para ensinar às gerações vindouras que uma pessoa não deve se apegar às suas palavras — pois eis que os pais do mundo não se apegaram às suas próprias palavras. — Depois de três disputas seguidas em que nem Shamai nem Hilel prevaleceram integralmente, a Mishná faz uma pausa programática para explicar o próprio método do tratado: por que preservar, por escrito, opiniões que a lei prática rejeitou? A primeira resposta é pedagógica e moral — mesmo os maiores sábios de uma geração ("os pais do mundo", forma de tratamento para Shamai e Hilel) não insistiram teimosamente em suas posições quando os Sábios decidiram de outro modo, e essa disposição de ceder deve ser um modelo para todas as gerações futuras.
Rambam explica: "que uma pessoa não se apegue às suas palavras" significa que não deve insistir teimosamente em manter sua própria opinião, mas estar disposta a reconhecer quando ela deve mudar — pois os "pais do mundo", isto é, Shamai e Hilel, tiveram suas palavras rejeitadas em vários casos, e não se apegaram obstinadamente a elas, como já demonstraram as três mishnayot anteriores.
Bartenura explica de modo sucinto: "que uma pessoa não se apegue às suas palavras" — que não seja obstinado em se manter firme em sua própria opinião. E "os pais do mundo" são Hilel e Shamai — título que reconhece sua grandeza, ainda que suas opiniões individuais nem sempre tenham prevalecido.