Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Chet · Mishná 2 de 7

A menina que se casou com sacerdote e a jovem tomada como penhor

הֵעִיד רַבִּי יְהוּדָה בֶן בָּבָא וְרַבִּי יְהוּדָה הַכֹּהֵן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Dois testemunhos sobre situações de dúvida envolvendo mulheres e o status de pureza ou aptidão sacerdotal — a menor órfã casada com sacerdote, e a jovem israelita mantida em cativeiro-penhor por gentios em Ashkelon

Testemunharam Rabi Yehuda ben Bava e Rabi Yehuda HaCohen sobre a menor, filha de Israel, que se casou com um sacerdote, que ela come da teruma assim que entrou na chupá, ainda que não tenha havido relação conjugal. Testemunharam Rabi Yosé HaCohen e Rabi Zecharia ben HaKatzav sobre uma jovem que fora tomada como penhor em Ashkelon, e cuja família a afastou, embora suas testemunhas testemunhassem que ela não se recolhera com ninguém e não fora contaminada. Disseram-lhes os Sábios: se acreditam que ela foi tomada como penhor, acreditem também que ela não se recolheu e não foi contaminada; e se não acreditam que ela não se recolheu e não foi contaminada, também não acreditem que ela foi tomada como penhor.O primeiro testemunho amplia um caso já mencionado no capítulo anterior (7:9): ali se estabeleceu apenas que a menor órfã casada com sacerdote come da teruma; aqui se acrescenta que isso vale já a partir do momento em que ela entra na chupá (o dossel nupcial, marcando o início legal do casamento), mesmo antes de haver relação conjugal — pois seu casamento com sacerdote é de origem apenas rabínica, e os Sábios não restringiram seus próprios direitos além do necessário. O segundo testemunho trata de uma jovem que, durante um período de dominação gentia em Ashkelon, fora capturada e mantida como garantia de pagamento (não por motivo sexual). A família dela, temendo que tivesse sido violada, afastou-a — recusando-se a considerá-la apta para casamento sacerdotal —, apesar de haver testemunhas afirmando que ela não se recolhera a sós com nenhum homem e não fora contaminada. Os Sábios respondem com um argumento de coerência lógica: a mesma fonte de informação (rumor ou relato) que informou à família que ela fora capturada como penhor é a mesma que também atesta que ela não foi violada — não é legítimo aceitar seletivamente apenas a parte desfavorável do relato e rejeitar a parte favorável.

הֵעִיד רַבִּי יְהוּדָה בֶן בָּבָא וְרַבִּי יְהוּדָה הַכֹּהֵן עַל קְטַנָּה בַת יִשְׂרָאֵל שֶׁנִּשֵּׂאת לְכֹהֵן, שֶׁהִיא אוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה כֵּיוָן שֶׁנִּכְנְסָה לַחֻפָּה אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא נִבְעָלָה. הֵעִיד רַבִּי יוֹסֵי הַכֹּהֵן וְרַבִּי זְכַרְיָה בֶן הַקַּצָּב עַל תִּינוֹקֶת שֶׁהֻרְהֲנָה בְאַשְׁקְלוֹן, וְרִחֲקוּהָ בְנֵי מִשְׁפַּחְתָּהּ, וְעֵדֶיהָ מְעִידִים אוֹתָהּ שֶׁלֹּא נִסְתְּרָה וְשֶׁלֹּא נִטְמָאָה. אָמְרוּ לָהֶם חֲכָמִים, אִם מַאֲמִינִים אַתֶּם שֶׁהֻרְהֲנָה, הַאֲמִינוּ, שֶׁלֹּא נִסְתְּרָה וְשֶׁלֹּא נִטְמָאָה. וְאִם אֵין אַתֶּם מַאֲמִינִים שֶׁלֹּא נִסְתְּרָה וְשֶׁלֹּא נִטְמְאָה, אַל תַּאֲמִינוּ שֶׁהֻרְהָנָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 8:2
הֻרְהֲנָה. שֶׁמִּשְׁכְּנָהּ אֵצֶל עוֹבְדֵי כּוֹכָבִים... וְזֶה הָרִחוּק שֶׁרִחֲקוּהָ בְּנֵי מִשְׁפַּחְתָּהּ אֵינָהּ הֲלָכָה, אֲבָל הִיא מֻתֶּרֶת לַכֹּהֵן כֵּיוָן שֶׁיֵּשׁ לָהּ עֵדֵי טָהֳרָה.

Rambam explica que "foi tomada como penhor" significa que gentios a tomaram como garantia de pagamento de uma dívida. Já se esclareceu, no segundo capítulo de Ketubot, que quando uma mulher é presa por gentios por motivo de vida (isto é, sob risco de morte, e não apenas por dinheiro), ela se torna proibida a seu marido sacerdote — mas as que são apenas tomadas como penhor, distintas das presas por acusação capital, não se enquadram nessa proibição, salvo quando não há testemunhas de que permaneceu pura. E este afastamento que a família dela praticou não é a halachá correta; ao contrário, ela é permitida ao sacerdote, já que há testemunhas de sua pureza.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Eduyot 8:2
קְטַנָּה בַת יִשְׂרָאֵל. וְהִיא יְתוֹמָה... דְּמֵעֵדוּת דִּלְעֵיל לֹא שָׁמַעְנוּ שֶׁאוֹכֶלֶת בַּתְּרוּמָה אֶלָּא כְּשֶׁנִּבְעֲלָה. שֶׁהֻרְהֲנָה. שֶׁנִּתְמַשְׁכְּנָה בִּידֵי נָכְרִים. הַאֲמִינוּ שֶׁלֹּא נִסְתְּרָה וְשֶׁלֹּא נִטְמָאָה. וְדַוְקָא לְזֹאת שֶׁעֵדֶיהָ מְעִידִים עָלֶיהָ שֶׁלֹּא נִטְמְאָה...

Bartenura explica que "menor, filha de Israel" refere-se a uma órfã, como já explicado ao final do capítulo anterior; e aqui se acrescenta que ela come da teruma já quando entra na chupá, mesmo sem relação conjugal — pois do testemunho anterior só se ouvira que ela comeria da teruma depois de haver relação. Quanto a "foi tomada como penhor": significa que foi tomada em garantia por gentios. E "acreditem que ela não se recolheu e não foi contaminada" — especificamente neste caso, em que há testemunhas atestando que ela não foi contaminada, é que os Sábios dizem para acreditar nela, e que sua família a afastou incorretamente; mas se não há testemunhas para ela, toda mulher que foi presa por gentios por motivo de dinheiro, em tempo em que a mão dos gentios é forte, fica proibida a seu marido sacerdote, seja ela tomada com seu próprio consentimento seja presa contra sua vontade.

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.