Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Dalet · Mishná 2 de 4

O jarro que não pode ser transportado com meio-cav de figos secos

חָבִית שֶׁנִּתְרוֹעֲעָה וְאֵינָהּ יְכוֹלָה לְהִטַּלְטֵל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Estabelece a medida de fragilidade que torna puro o jarro abalado, e explica por que a gistrá que já não recebe líquidos permanece pura mesmo recebendo ainda alimentos

Um jarro que se abalou e não pode ser transportado com meio-cav de figos secos [dentro], é puro. Uma gistrá que se abalou e não recebe líquidos, ainda que receba alimentos, é pura, pois não há remanescente de remanescente.

Esta mishná estabelece duas medidas de invalidação para vasos rachados, porém ainda inteiros. No primeiro caso, um jarro que rachou, mas cujos cacos não se separaram, permanece impuro enquanto conseguir ser transportado sem se desfazer; a mishná fixa a medida exata dessa fragilidade: se, ao ser carregado com meio-cav de figos secos — a porção de uma única refeição —, o peso já o faz quebrar-se por completo, então ele é considerado, desde já, como quebrado, e portanto puro. No segundo caso, trata-se de uma gistrá — um fragmento de vaso já reduzido a mero suporte ou recipiente residual — que se abalou a ponto de não mais reter líquidos, ainda que continue a reter alimentos sólidos. Por mais frágil que essa gistrá se torne, ela permanece pura, e o princípio que sustenta essa regra é enunciado no fim da mishná: “não há remanescente de remanescente” — ou seja, uma gistrá já é, em si, o remanescente de um vaso originalmente completo; quando esse remanescente por sua vez se degrada e perde sua função de reter líquido, não há mais um novo “remanescente do remanescente” a ser reconhecido como vaso, e ele simplesmente deixa de ser suscetível à impureza.

חָבִית שֶׁנִּתְרוֹעֲעָה וְאֵינָהּ יְכוֹלָה לְהִטַּלְטֵל בַּחֲצִי קַב גְּרוֹגָרוֹת, טְהוֹרָה. גִּסְטְרָא שֶׁנִּתְרוֹעֲעָה וְאֵינָהּ מְקַבֶּלֶת מַשְׁקִין, אַף עַל פִּי שֶׁהִיא מְקַבֶּלֶת אֳכָלִין, טְהוֹרָה שֶׁאֵין שְׁיָרִין לִשְׁיָרִין:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 4:2
גיסטרא. כמו שבארנו (לעיל פ”ב) היא התושבת אשר יעשו תחת כלי המים לקבל הטפטוף…

Rambam explica que “gistrá”, como já explicamos (no Perek Bet), é a base ou suporte que se coloca sob um vaso de água para receber o gotejamento; e quando ela mesma goteja, sua função se anula — e é a isso que se refere o dito do Talmud, em Shabat (96a), de que “não se diz: traga uma gistrá para [pôr sob] outra gistrá”. A esse mesmo princípio se refere aqui “não há remanescente de remanescente”: a própria gistrá, quando estava inteira, já era, por assim dizer, o remanescente de um vaso, pois é um fragmento de um vaso; e quando ela mesma se rachou, tornou-se remanescente de um remanescente — e já se sabe que o remanescente de uma coisa é aquilo que sobra dela.

Bartenura · Keilim 4:2
וְאֵינָהּ יְכוֹלָה לְהִטַּלְטֵל בַּחֲצִי קַב גְּרוֹגָרוֹת · מִתּוֹךְ שֶׁהִיא רְעוּעָה…

Sobre “e não pode ser transportado com meio-cav de figos secos”: porque, estando ele abalado, os figos secos, sendo pesados, fazem-no quebrar-se por completo ao ser transportado. E por isso mediram com meio-cav, que é a medida de uma refeição; pois um cav de figos secos é a medida de duas refeições, como se depreende do final do tratado Peá, a respeito de que não se dá ao pobre, na eira, menos de um cav de figos secos. E tudo o que não serve para ser transportado com a medida de uma refeição é considerado como já quebrado.

Sobre “gistrá”: um vaso de barro que se partiu em dois, tornando-se “peças de dois”.

Sobre “pois não há remanescente de remanescente”: um vaso inteiro é tratado com cuidado, e por causa de uma pequena rachadura não se descarta; por isso trazem um remanescente de vaso — isto é, o fragmento de outro vaso — e o colocam sob ele, para aparar o gotejamento. Mas um fragmento de vaso, assim que se racha a ponto de deixar vazar líquido, é logo descartado; pois não se diz: “traga outro fragmento de vaso para colocar sob este fragmento de vaso”.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.