Mishná · Seder Tehorot · Tratado I (primeiro)

Massechet Keilim

מַסֶּכֶת כֵּלִים

O primeiro tratado de Seder Tehorot — as leis de impureza ritual dos utensílios

OrdemTehorot (Purezas) — sexta e última das seis Ordens da Mishná
Estrutura30 perakim — o tratado mais longo de toda a Mishná
TemaAs leis de impureza ritual (tumá) que afetam utensílios de todo tipo — de barro, madeira, metal, vidro, couro e osso — conforme seu material, forma e uso
GuemaráComo a maior parte de Seder Tehorot (exceto Nidá), não possui Guemará no Talmud Bavli — tratado de mishnayot puras

Massechet Keilim é o primeiro tratado de Seder Tehorot, a sexta e última das seis Ordens da Mishná. Keilim é também, por larga margem, o tratado mais extenso de toda a Mishná: trinta perakim inteiros, dedicados a mapear como a impureza ritual se aplica a toda a variedade de utensílios que uma casa israelita poderia conter — vasos de barro, madeira, metal, vidro, couro, osso e tecido — segundo seu material, sua forma, sua função e o grau de acabamento que os torna aptos a receber impureza.

O Perek Alef não trata ainda dos utensílios propriamente ditos, mas serve de pórtico teórico a todo o tratado: apresenta três escalas paralelas e crescentes — a dos avot hatumá (as fontes primárias de impureza, do sheretz ao morto), a das dez etapas de impureza que “se afastam da pessoa”, e a das dez santidades territoriais, da Terra de Israel ao Santo dos Santos. É a partir do Perek Bet que o tratado começa, de fato, a descer aos utensílios concretos e às suas leis específicas de pureza e impureza — um percurso que se estenderá, progressivamente, ao longo dos vinte e nove perakim restantes.

Publicados até agora, com Rambam e Bartenura, os perakim Alef a Yud-Bet (noventa e quatro mishnayot). O Perek Alef abre o tratado e toda a Seder Tehorot com três escalas crescentes: os cinco avot hatumá que contaminam pessoa e utensílios por contato, e vaso de barro por presença em seu espaço interno — sheretz, emissão seminal, impuro por morto, metzora em seus dias de contagem, e águas da purificação insuficientes (1:1); acima destes, a nevelá e as águas plenas de aspersão, que contaminam a pessoa por carregamento, e esta contamina vestes por contato (1:2); a escala sobe do boel niddá, pelo fluxo do zav, pelo merkav e o mishkav, até o próprio zav (1:3); e culmina na zavá, no metzora, no osso do tamanho de um grão de cevada, e por fim no morto, o mais grave de todos por contaminar por ohel (1:4). Segue-se a segunda escala, as dez impurezas que se afastam da pessoa, do mechusar kipurim ao membro amputado sem a carne devida para sarar, com a medida de Rabi Yehudá (1:5). E fecha o capítulo a terceira escala, as dez santidades territoriais: a Terra de Israel, mais sagrada que todas as demais por suas três oferendas exclusivas (1:6); as cidades muradas desde os dias de Josué, de onde se enviam os metzoraim (1:7); os seis graus concêntricos de dentro da muralha de Jerusalém até o átrio dos sacerdotes (1:8); e, por fim, os três graus mais elevados — o espaço entre o Ulam e o altar, o Heichal, e o Santo dos Santos, onde só o sumo sacerdote entra, uma vez por ano, no momento do serviço de Yom Kipur, com a opinião de Rabi Yosei que aproxima os dois primeiros espaços (1:9).

O Perek Bet desce, enfim, aos utensílios concretos, com foco quase exclusivo nos vasos de barro: a regra geral que equipara barro e “nêter”, distinguindo-os dos demais materiais por sua purificação exclusiva pela quebra (2:1); a medida precisa a partir da qual um fragmento de vaso quebrado volta a contar como vaso, nas escalas rivais de Rabi Yishmael e Rabi Akiva (2:2); a lista dos objetos de barro imunes por não terem sido feitos para receber, com a regra-mestra de que, sem interior, não há exterior (2:3); os casos concretos da lanterna, do molde do oleiro e do funil, em que a intenção e o uso real decidem a condição do objeto (2:4); as tampas de jarros e da panela (2:5); o caco encontrado no forno e o aspersor de furos finos (2:6); o modo como a impureza se propaga entre compartimentos ligados de um mesmo vaso, de barro ou de madeira (2:7); e, por fim, a tocha, o reservatório do candeeiro, e o pente do tzartzur (2:8).

O Perek Guimel abre com a medida do buraco que retira de um vaso de barro sua condição de receptáculo suscetível à impureza, variando conforme o uso — azeitonas para alimento, o próprio líquido para vasos de líquido, e o rigor da medida maior para vasos de uso duplo (3:1) — e desce aos casos concretos do jarro grande, da panela, do jarro e vasilhame de óleo, do tzartzur e do candeeiro (3:2). As mishnayot seguintes tratam do jarro furado e remendado com piche (3:3) e do jarro rachado reforçado com esterco (3:4), estabelecendo que o nome de vaso só se perde quando o vaso de fato se desfaz por completo; estendem essa lógica ao revestimento de um vaso já são e ao aro da cabaça de água (3:5); trazem três casos rápidos de conexão — a erva que reveste as jarras, a tampa que não conecta, e o revestimento do forno que conecta (3:6); distinguem a argamassa que adere ao caldeirão da argila fina que não adere, e tratam dos vasos remendados ou revestidos de piche que Rabi Yosé purifica por não suportarem calor (3:7); e fecham o capítulo com o remendo de piche em excesso, o piche que apenas pinga sem função, e a disputa de três sábios sobre o funil tapado com piche (3:8).

O Perek Dálet trata das fronteiras físicas do vaso de barro rompido: o caco impedido de ficar em pé por causa de sua alça ou de uma ponta aguda (4:1); a medida exata de fragilidade que torna puro o jarro abalado, pelo princípio de que “não há remanescente de remanescente” (4:2); a definição formal da gistrá e a medida de azeitona entre pontas salientes (4:3); e o vaso de três bordas de alturas distintas, com a regra geral do início da suscetibilidade dos vasos de barro, a partir da cozedura no forno (4:4).

O Perek Hei abre um novo bloco, inteiramente dedicado ao forno (tanur) de barro para assar pão e a seus utensílios afins: as medidas mínimas do forno, da kirá e do kupach, e o término de sua fabricação pelo aquecimento suficiente para assar sufganin ou cozinhar o ovo mais leve (5:1–5:2); a coroa da kirá, a cerca do forno e os nichos do frasco, dos temperos e da lâmpada (5:3); o aquecimento decisivo que vale ainda que ocorra por trás, sem conhecimento do dono, ou na casa do artesão, com o caso dos fornos de Kfar Signá (5:4); o acréscimo funcional do forno dos padeiros e da caldeira dos que cozem azeitonas (5:5); o forno meio enterrado em terra e o forno sobre a boca do poço (5:6); o processo de purificação do forno impuro, por quebra em três partes ou por corte em anéis (5:7–5:9); o célebre forno de Achnai e o forno de Ben Dinai (5:10); e o encerramento do capítulo com o forno e a kirá de pedra e de metal (5:11).

O Perek Vav trata de estruturas improvisadas de apoio à panela — pitputin, pregos e pedras avulsas —, complementando as leis do forno e da kirá do capítulo anterior: os pitputin de barro fincados na terra, sempre impuros, os pregos de metal, sempre puros, e a kirá de duas pedras unidas com barro, com a disputa de Rabi Yehudá sobre a necessidade de uma terceira pedra ou do apoio de uma parede (6:1); a pedra avulsa usada junto a um forno, kirá ou kupach, sempre impura, e junto a outra pedra, a uma rocha ou a uma parede, sempre pura — com os exemplos históricos da kirá dos nazireus, junto à rocha no pátio das mulheres do Templo, e da kirá contínua dos açougueiros (6:2); o caso elaborado de três pedras que formam duas kirot com uma pedra central dividida entre impura e pura, e o processo de remoção e devolução dessa pedra (6:3); e o encerramento do capítulo com duas pedras já impuras às quais se somam pedras novas e puras de cada lado (6:4).

O Perek Zayin trata das estruturas complementares da kirá — a kalatut (base de apoio), o dachon (prateleira lateral), e o pátio e os pitputin (pés) da própria kirá: a kalatut dos donos de casa, cuja fenda de até três palmos mantém a kirá impura, e cuja fenda maior a torna pura, com a regra da pedra rebocada com barro que restaura a impureza — base da resposta de Rabi Yehudá sobre o forno colocado sobre a boca do poço ou da cova (7:1); o dachon, puro quanto à lei da kirá e impuro quanto à lei de vaso receptor, com seus lados isentos e sua parte larga em disputa entre Rabi Meir e Rabi Yehudá, e a mesma regra para a cesta invertida (7:2); a kirá dividida ao longo do comprimento (pura) ou da largura (impura), o kupach que se purifica com qualquer divisão, e o pátio da kirá com sua medida de três dedos e o método de medição de Rabi Yishmael e Rabi Eliezer ben Yaakov (7:3); o pátio construído em separado da kirá, e os pitputin de três dedos, impuros por contato e ar — e com mais razão quando menores, ainda que sejam quatro (7:4); os casos do pitput removido, de dois pitputin frente a frente, de alturas excedentes e do afastamento da borda, sempre na disputa entre Rabi Meir e Rabi Shimon (7:5); e o encerramento do capítulo com o método de medição por meio da “kaná” de Rabán Shimon ben Gamliel (7:6).

O Perek Chet volta-se ao próprio forno (tanur) de barro e à transmissão da impureza por seu ar interno: o forno dividido por tábuas ou cortinas, e a colmeia furada e tapada com palha suspensa em seu ar, com a disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre a analogia com a tenda do morto (8:1); a colmeia, a cesta e o odre completos, que protegem em ambas as direções, e as medidas do furo que os desqualifica (8:2); a serida sem bordas, que não é vaso, e o barril de líquidos colocado abaixo ou invertido sobre a boca do forno (8:3); o princípio de que o vaso de barro não contamina outros vasos diretamente, ilustrado pela panela que “reclama” de ter sido contaminada pelo líquido, não pelo forno (8:4); o galo que engoliu o sheretz, e a hierarquia dos graus de impureza entre o sheretz, o forno e o pão (8:5); o recipiente de fermento sob tampa hermética, dividido internamente pelo “kerets” do sheretz ou da azeitona do morto (8:6); os limites do “olho” do forno, da kirá e do kupach (8:7); o lugar de colocar a lenha e de assentar a panela na kirá, com a disputa entre Rabi Yehudá, os sábios e Rabi Yosei, e os assentos externos dos trabalhadores (8:8); o poço com lugar de assentar, os fornos de ofício e a purna (8:9); os líquidos da boca de quem tocou no impuro por morte, e a saliva de quem come com mãos impuras (8:10); e o encerramento do capítulo com o leite que goteja dos seios de uma mulher impura, e o sangue ou a saliva de quem se fere ou se queima junto ao forno (8:11).

O Perek Tet retoma o forno de barro sob o ângulo do metal e dos líquidos: a agulha ou o anel encontrados na base do forno, no reboco cercado por tampa hermética, ou na tampa do barril (9:1); a disputa histórica entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre o barril com uma pipeta de metal dentro, na qual Bet Hilel voltou atrás e adotou a posição de Bet Shamai (9:2); o princípio da presunção razoável para o sheretz, a agulha ou o anel encontrados abaixo da base do forno, que não vale para o que se encontra na cinza queimada (9:3); a esponja, o nabo e o junco que absorvem e depois liberam líquido impuro, e os cacos usados para líquidos impuros (9:4–9:5); o bagaço e as cascas de uva feitos em pureza, e o fuso, a vara de aguilhoar e o tijolo que engoliram metal puro (9:6); e as medidas precisas de rachas e furos na serida, no “olho” do forno, na tampa do barril e nos grandes cântaros de pedra, conforme feitos para vinho, para outros líquidos, ou por mão de homem (9:7–9:8).

O Perek Yud abre um novo bloco temático no tratado: as leis da tampa hermética (tzamid patil) que protege o conteúdo dos vasos na tenda do morto, princípio fundado em Bemidbar 19:15. A lista dos materiais cujos vasos protegem por tampa hermética — esterco, pedra, barro cru, barro cozido, nêter, ossos e pele de peixe e de animais marinhos, e os grandes vasos de madeira — e a distinção entre o vaso de barro, que só protege alimentos, líquidos e outros vasos de barro, e os demais materiais, que protegem tudo (10:1); os materiais válidos para formar essa tampa — cal, gesso, piche, cera, lodo —, excluindo estanho e chumbo, e por precaução, bolo de figo e massa de frutas (10:2); a tampa frouxa do barril que balança mas não se solta, em disputa entre Rabi Yehudá e os sábios (10:3); as coberturas ocas — bola, novelo de junco, remendo de pano — que exigem untação completa, ao contrário do papel ou couro amarrados (10:4); o barril descascado cujo piche interno permanece firme, e os jarros de salmoura vedados por dentro (10:5); os reparos de furos com borra de vinho, sarmento de videira ou tábua (10:6); o forno velho e o forno novo colocados um dentro do outro, e como a posição da rede sobre a boca de um ou de outro decide se funciona como tenda protetora (10:7); e o encerramento do capítulo com panelas empilhadas uma dentro da outra, e a propagação da impureza conforme a posição do sheretz e a medida do furo (10:8).

O Perek Yud-Alef abre a segunda grande parte do tratado: as leis dos vasos de metal. Estabelece que tanto os utensílios simples quanto os receptáculos de metal recebem impureza, e que vasos quebrados e refundidos retornam à impureza antiga, restrita por Rabán Shimon ben Gamliel à impureza do cadáver (11:1); acrescenta o critério do nome próprio, excetuando as peças fixas à porta e ao chão (11:2); distingue os “esboços” de vasos de metal — lingotes, discos, chapas, restos de fabricação — dos vasos feitos de fragmentos já usados, com a disputa de Bet Shamai e Bet Hilel sobre pregos de origem incerta (11:3); trata da mistura de ferro puro e impuro pela regra da maioria, e do trinco da porta, com a disputa entre Rabi Yehoshua e Rabi Tarfon sobre seu manuseio em Shabat (11:4); percorre os arreios de animais — o escorpião do freio e as bochechas (11:5) —, os instrumentos de fiação e de música — a roda do fuso, o fuso, a roca, e a flauta dupla com receptáculo para as asas (11:6) —, e o chifre-trombeta e a candeia articulados (11:7); reúne o elmo, as armas de guerra e os ornamentos femininos, com o caso do colar de contas metálicas (11:8); e encerra com o brinco composto de panela e lentilha, e o brinco em cacho de uvas que se desmancha em partes puras (11:9).

O Perek Yud-Bet dá continuidade às leis dos vasos de metal: abre com os anéis, distinguindo o ornamento de homem — impuro — dos anéis de animal e de utensílio — puros —, e percorre a viga das flechas, a coleira dos prisioneiros e as correntes com fecho ou de comércio (12:1); trata da vara de pesagem dos cardadores e de uma longa série de ganchos, com a regra geral de que todo gancho segue o estatuto do utensílio ao qual está unido (12:2); opõe o uso doméstico ao uso profissional na tampa do teni, na porta do armário, e no gancho-escorpião do lagar de azeitonas (12:3); percorre pregos de ofícios específicos — do sangrador, da pedra das horas, do tecelão — e a arca dos grãos moídos, com as disputas de Rabi Tzadok (12:4–12:5); reúne as quatro disputas paralelas de Rabban Gamliel, incluindo o caso da tábua partida em parte grande e parte pequena (12:6); trata das moedas invalidadas reaproveitadas como pingente ou peso, com a regra do limite de desgaste tolerado (12:7); e encerra com pequenos utensílios metálicos de uso pessoal e profissional, e os esboços de vasos de madeira, salvo as exceções do buxo e do ramo de oliveira antes de escaldado (12:8). Os demais dezoito perakim de Keilim serão publicados progressivamente, dado que este é o tratado mais longo de toda a Mishná.

Os 30 Perakim

Perek Alef — פֶּרֶק א׳ — Os avot hatumá, as dez impurezas da pessoa, e as dez santidades (9 de 9)

Perek Bet — פֶּרֶק ב׳ — Os vasos de barro: retos, receptáculos e fragmentos (8 de 8)

Perek Guimel — פֶּרֶק ג׳ — A medida do buraco e as fronteiras da conexão (8 de 8)

Perek Dálet — פֶּרֶק ד׳ — O vaso de barro rompido e o início da suscetibilidade à impureza (4 de 4)

Perek Hei — פֶּרֶק ה׳ — O forno, a kirá e o kupach: medidas, término de fabricação e purificação (11 de 11)

Perek Vav — פֶּרֶק ו׳ — Pitputin, pregos e pedras avulsas: estruturas improvisadas de apoio à panela (4 de 4)

Perek Zayin — פֶּרֶק ז׳ — A kalatut, o dachon, e o pátio e os pitputin da kirá (6 de 6)

Perek Chet — פֶּרֶק ח׳ — O forno (tanur) e a transmissão da impureza por seu ar interno (11 de 11)

Perek Tet — פֶּרֶק ט׳ — A agulha, o anel e o metal oculto na madeira e no barro (8 de 8)

Perek Yud — פֶּרֶק י׳ — A tampa hermética (tzamid patil) que protege o conteúdo dos vasos na tenda do morto (8 de 8)

Perek Yud-Alef — פֶּרֶק י״א — Vasos de metal: nome próprio, esboços e a fusão de puro e impuro (9 de 9)

Perek Yud-Bet — פֶּרֶק י״ב — Anéis, ganchos, pregos de ofícios e os esboços de vasos de madeira (8 de 8)

Perakim Yud-Guimel–Lamed — פֶּרֶק י״ג–ל׳ — em breve

em breve

Massechet Keilim tem 30 perakim ao todo — o tratado mais longo de toda a Mishná. Os perakim 13 a 30 serão publicados progressivamente.