Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Vinte e Seis · Mishná 9 de 9 — última do capítulo

O couro impuro por midrás cortado em correias e sandálias

עוֹר שֶׁהוּא טָמֵא מִדְרָס, וְחִשַּׁב עָלָיו לִרְצוּעוֹת וּלְסַנְדָּלִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

Última mishná do Perek Vinte e Seis: o momento em que um couro impuro por midrás perde sua impureza ao ser reduzido para correias e sandálias

Um couro que é impuro por midrás, e seu dono pensou sobre ele em fazer dele correias e sandálias: assim que ele lhe pôs a navalha, torna-se puro — palavras de Rabi Yehudá. Mas os Sábios dizem: não fica puro até que o reduza a menos de cinco palmos. Rabi Elazar bar Rabi Tzadok diz: mesmo aquele que faz um lenço do couro, este é impuro; mas se o fez da almofada, é puro.

A mishná final do capítulo fecha o tema com o processo inverso ao das mishnayot 26:7–8: em vez de perguntar quando o pensamento torna um couro impuro, pergunta-se agora quando a ação de cortá-lo o purifica. Rabi Yehudá sustenta que basta o início do corte — o simples toque da navalha, expressando a intenção de transformar o couro em correias e sandálias — para que ele se purifique; os Sábios exigem mais: que o couro seja efetivamente reduzido a menos de cinco palmos, a medida mínima abaixo da qual um couro deixa de ser considerado receptáculo apto ao midrás. Rabi Elazar bar Rabi Tzadok acrescenta uma distinção final: um lenço feito de um couro que já era impuro por midrás continua impuro, por se assemelhar ainda a um tapete; mas se for feito de uma almofada já quebrada e descartada, é puro, pelo mesmo princípio dos vasos partidos.

עוֹר שֶׁהוּא טָמֵא מִדְרָס, וְחִשַּׁב עָלָיו לִרְצוּעוֹת וּלְסַנְדָּלִין, כֵּיוָן שֶׁנָּתַן בּוֹ אֶת הָאִזְמֵל, טָהוֹר, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, עַד שֶׁיְּמַעֲטֶנּוּ פָחוֹת מֵחֲמִשָּׁה טְפָחִים. רַבִּי אֶלְעָזָר בַּר רַבִּי צָדוֹק אוֹמֵר, אַף הָעוֹשֶׂה מִטְפַּחַת מִן הָעוֹר, טְמֵאָה. וּמִן הַכֶּסֶת, טְהוֹרָה:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 26:9
אִזְמֵל. שֵׁם הַבַּרְזֶל אֲשֶׁר יַבְדִּילוּ בּוֹ אֶת הָעוֹרוֹת…

Izmel” é o nome do ferro com que se separam os couros, e mais adiante, no próximo capítulo, explicarei que a medida do couro para impureza é de cinco palmos; por isso disseram os Sábios que ele não sai de sua impureza até que reste dele menos de cinco palmos. E disse Rabi Eliezer bar Rabi Tzadok, para refutar quem sustenta que, assim que o couro é separado, se purifica: os couros impuros dos quais se fizer um lenço permanecem impuros, pois já se separaram estes das almofadas. E a halachá é como os Sábios.

Bartenura · Keilim 26:9
עוֹר שֶׁהוּא טָמֵא מִדְרָס. כְּגוֹן שָׁטִיחַ וְכַיּוֹצֵא בּוֹ…

Sobre “um couro que é impuro por midrás”: como um tapete e semelhante. Sobre “mesmo aquele que faz um lenço do couro”: que é impuro por midrás.

É “impura” — a saber, a peça —, porque o lenço se assemelha a um tapete, pois às vezes se senta sobre ele. Mas se cortou as almofadas de couro impuras e fez delas lenços, tornam-se puras, do mesmo modo que ocorre com vasos que se quebraram. Porém recebem impureza dali em diante, como já ensinamos acima, no capítulo vinte e quatro.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Vinte e Seis · סיום הפרק

מַחֲשָׁבָה מְטַמְּאָתָן, וְעַד שֶׁיְּמַעֲטֶנּוּ פָחוֹת מֵחֲמִשָּׁה טְפָחִים

Com esta nona mishná, encerra-se o Perek Vinte e Seis de Massechet Keilim — um capítulo dedicado, quase inteiramente, aos vasos de couro: sandálias, bolsas, odres, luvas de trabalho e peças usadas como assento ou apoio pelo corpo.

O capítulo abre (26:1–26:2) com o princípio de que certos vasos de couro flexíveis, providos de laçadas e correias, tornam-se impuros e se purificam sem a necessidade de um artesão — bastando a ação de um leigo para lhes dar ou retirar a forma de receptáculo —, com a única exceção do cesto egípcio, tecido de fibras de palmeira, que nem o artesão consegue restaurar. A mishná 26:2 aplica esse princípio a casos concretos: a bolsa de correias, o saco dentro do saco, e a disputa sobre o saquinho de moedas.

As mishnayot 26:3 a 26:5 catalogam uma extensa série de peças de couro usadas por trabalhadores e nas casas — luvas, cintos, joelheiras, mangas, sandálias, sapatos, odres e couros de assento —, sempre com o mesmo critério de fundo: um objeto de couro só recebe impureza se for feito para conter algo ou para servir de apoio ao corpo, nunca se for mera proteção. A mishná 26:6 estende esse critério aos sacos de roupas e de púrpura, e à distinção entre revestimento de vasos (puro) e revestimento de pesos (impuro).

O capítulo fecha (26:7–26:9) com o princípio geral da machshavá — o pensamento que torna um vaso pronto suscetível à impureza, mas que é ineficaz quando ainda falta trabalho de fabricação —, sua aplicação aos couros de diferentes donos (proprietário, curtidor, ladrão e assaltante), e finalmente o processo inverso: o corte que retira de um couro impuro por midrás a sua impureza, ao reduzi-lo para correias e sandálias.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Vinte e Sete, que continuará explorando as leis de impureza dos vasos de couro e tecido ao longo dos três perakim finais deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.