Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Trinta · Mishná 4 de 4 — última do capítulo e de todo o tratado

O frasco, o funil de vidro, e o encerramento de Massechet Keilim

אַשְׁרַיִךְ כֵּלִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

Quarta e última mishná do Perek Trinta — e de Massechet Keilim inteira: o frasco sem gargalo, o funil de vidro, e o encerramento do tratado

Um frasco pequeno cujo gargalo foi retirado é impuro. E um grande cujo gargalo foi retirado é puro. O de bálsamo cujo gargalo foi retirado é puro, porque fere a mão. As grandes garrafas cujo gargalo foi retirado são impuras, porque as prepara para conservas. E o funil de vidro é puro. Disse Rabi Yosei: Felizes de vós, Utensílios, que entrastes na impureza e saístes na pureza.

A última mishná do tratado trata da remoção do gargalo (pia) de diversos recipientes de vidro. Um frasco pequeno — que se carrega com uma só mão — continua impuro mesmo sem o gargalo, pois permanece plenamente utilizável em seu formato remanescente; já um frasco grande — que exige as duas mãos — torna-se puro, pois a perda do gargalo o descaracteriza como utensílio funcional. O frasco de óleo de bálsamo (paliton), porém, torna-se puro mesmo sendo pequeno, pois, sem o gargalo estreito, quem tenta retirar o óleo precioso com a mão acaba ferindo-a — e um utensílio que fere a mão de quem o usa deixa de ser considerado apto para uso. As grandes garrafas (leguinin), por outro lado, permanecem impuras mesmo sem o gargalo, porque passam a ser aproveitadas para guardar conservas — um uso plenamente funcional que preserva sua condição de utensílio. E o funil de vidro (afarkes, usado para despejar grãos no moinho) é puro, pois, sendo estreito embaixo e largo em cima, não retém o que nele se coloca, não sendo, portanto, um receptáculo no sentido que gera impureza. A mishná — e o tratado inteiro — encerra-se com a célebre exclamação de Rabi Yosei: “Felizes de vós, Kelim, que entrastes na impureza e saístes na pureza”, celebrando que Massechet Keilim, iniciada com as fontes primárias da impureza, termina com um utensílio puro.

צְלוֹחִית קְטַנָּה שֶׁנִּטַּל פִּיהָ, טְמֵאָה. וּגְדוֹלָה שֶׁנִּטַּל פִּיהָ, טְהוֹרָה. שֶׁל פַּלְיָטוֹן שֶׁנִּטַּל פִּיהָ, טְהוֹרָה, מִפְּנֵי שֶׁהִיא סוֹרַחַת אֶת הַיָּד. לְגִינִין גְּדוֹלִים שֶׁנִּטַּל פִּיהֶן, טְמֵאִין, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מְתַקְּנָן לִכְבָשִׁין. וְהָאֲפַרְכֵּס שֶׁל זְכוּכִית, טְהוֹרָה. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, אַשְׁרַיִךְ כֵּלִים, שֶׁנִּכְנַסְתְּ בְּטֻמְאָה, וְיָצָאת בְּטָהֳרָה:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 30:4
צְלוֹחִית. כְּלִי גָּבוֹהַ הַשָּׂפָה וְלוֹ צַוָּאר צַר…

Sobre “tzlochit” [frasco]: um utensílio de borda alta, com um pescoço estreito; e esse pescoço é o que aqui se chama de “sua boca” (piha). E, depois que o pescoço é retirado, resta o utensílio com a borda alta. E, se esse frasco era de “paliton” — que é o nardo, ou de outros tipos de perfume —, ele é puro, pois já não é apto para seu uso, porque, quando o homem coloca a mão para cheirá-lo, suas mãos se arranham; e disseram “porque fere a mão” — a letra chet substitui a letra caf, como se dissesse “sorechet” [que gruda].

Sobre “leguinin” [garrafas]: plural de “lagin”. Sobre “kevashim” [conservas]: para colocar nelas as coisas conservadas, como o vinagre e o vinho, das quais não se precisa a todo momento.

E já esclarecemos “afarkes”, no final do décimo quarto capítulo deste tratado, que é um utensílio em que se colocam os grãos de trigo, e eles saem por baixo dele pouco a pouco; e ele quer dizer, ao falar “funil de vidro”, que é um utensílio dessa forma, estreito embaixo e largo em cima — e, quando colocam nele algo líquido, ele sai por ele; e por isso é puro, pois os utensílios de vidro só se tornam impuros quando são receptáculos, como já foi mencionado, e segundo o que se esclareceu na Tosefta de Kelim, a arca, a caixa e a torre de vidro, quando comportam quarenta se’á de líquido, são puras e não recebem impureza, tal como se fossem de madeira; e o que está além desses três tipos, dentre os receptáculos de utensílios de vidro, é impuro, ainda que sejam do maior tamanho possível — e sabe isso.

Disse Rabi Yosei: felizes de vós, utensílios, que entrastes na impureza e saístes na pureza. Disseram “entrastes na impureza e saístes na pureza” porque seu início são as fontes primárias da impureza, e o final de suas palavras é sobre a pureza, pois disseram: “e o funil de vidro é puro.”

Bartenura · Keilim 30:4
צְלוֹחִית. כְּעֵין צְלוֹחִיּוֹת שֶׁל זְכוּכִית שֶׁלָּנוּ שֶׁיֶּשׁ לָהֶן צַוָּאר אָרֹךְ…

Sobre “tzlochit” [frasco]: semelhante aos nossos frascos de vidro que têm um pescoço comprido. Sobre “cujo gargalo foi retirado”: cujo pescoço foi retirado.

Sobre “e um grande”: o que não pode ser carregado com uma só mão, mas apenas com as duas mãos, chama-se “grande”; e o que pode ser carregado com uma só mão chama-se “pequeno”.

Sobre “de paliton”: de óleo de bálsamo. Sobre “é pura”: pois já não serve mais para sua função.

Sobre “porque fere a mão”: quem vai colocar a mão dentro dele para tirar do bálsamo, para cheirá-lo, tem a mão arranhada, ferida e rasgada; “sorachat” é como “sorechet”, com a letra caf, expressão de aderência.

Sobre “leguinin grandes”: como grandes jarros. Sobre “as prepara para conservas”: pois nelas se conservam verduras com sal e vinagre, e as deixam ali para se manterem.

Sobre “afarkes”: utensílio feito para o moinho, largo em cima e estreito embaixo, em seu fundo, e nele colocam muito trigo de uma vez, e ele desce pouco a pouco para dentro do moinho e é moído ali; e exemplo semelhante encontramos no início de Chaguigá (3a): “faze teu ouvido como o funil”, pois recebe muito e produz pouco.

Sobre “felizes de vós, Utensílios”: o tratado Keilim. Sobre “que entrastes na impureza e saístes na pureza”: começa com as fontes primárias das impurezas, e termina com “o funil de vidro é puro”.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Trinta e de Massechet Keilim · סיום הפרק והמסכת

אַשְׁרַיִךְ כֵּלִים, שֶׁנִּכְנַסְתְּ בְּטֻמְאָה, וְיָצָאת בְּטָהֳרָה

Com esta quarta mishná, encerra-se o Perek Trinta — e, com ele, encerra-se Massechet Keilim por inteiro, o mais extenso tratado de toda a Mishná.

O capítulo final dedica-se inteiramente aos utensílios de vidro, cuja impureza, segundo o Rambam, é de origem rabínica. A mishná 30:1 estabelece a regra geral — utensílios simples são puros, os que têm receptáculo são impuros — e as consequências da quebra: ela purifica por completo, e um novo utensílio feito dos cacos só volta a ser suscetível dali em diante. A mishná 30:2 trata do espelho, puro por sua função de refletir e não de conter, da travessa transformada em espelho, e da disputa entre Rabi Akiva e Rabi Yochanan ben Nuri sobre a colher instável. A mishná 30:3 trata do copo lascado na maior parte de seu contorno, do critério funcional de Rabi Shimon quanto ao vazamento da água, e da disputa de Rabi Yosei sobre o conserto do furo com estanho ou com pez. E esta última mishná, a 30:4, percorre o frasco pequeno e o grande cujo gargalo foi retirado, o frasco de bálsamo que fere a mão, as grandes garrafas destinadas a conservas, e o funil de vidro — puro, por não ser um receptáculo no sentido pleno —, concluindo com a célebre exclamação de Rabi Yosei: “Felizes de vós, Kelim, que entrastes na impureza e saístes na pureza”, pois o tratado que se abriu com as fontes primárias da impureza (avot hatumá) termina com um utensílio puro.

Massechet Keilim, assim concluída, percorreu trinta perakim e um total de 254 mishnayot. O tratado abriu, no Perek Alef, com o pórtico teórico das escalas de impureza e de santidade; percorreu, nos capítulos seguintes, os utensílios de barro, de madeira, de metal, de couro, de osso e de tecido, segundo seu material, forma, medida e uso; tratou das medidas de conexão de fios, cabos e cordas no Perek Vinte e Nove; e fechou, neste Perek Trinta, com os utensílios de vidro — a categoria mais recente e mais frágil de todas, cuja impureza, ao contrário das demais, não provém da Torá, mas do decreto dos sábios.

Como a maior parte de Seder Tehorot, com exceção de Massechet Nidá, Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli: é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados, e por isso o comentário de Rashi foi omitido em todo o seu percurso — substituído, mishná a mishná, pelo Perush do Rambam e pelo comentário de Bartenura.

Com o encerramento de Massechet Keilim, conclui-se o primeiro tratado de Seder Tehorot, a sexta e última Ordem da Mishná. O estudo da Ordem prossegue agora com Massechet Ohalot (já publicada por inteiro), Massechet Negaim (em andamento) e os demais tratados que compõem as leis de pureza e impureza ritual de Israel.