Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Yud-Dálet · Mishná 8 de 8 — última do capítulo

As chaves em forma de joelho e de gama, e o encerramento do Perek Yud-Dálet

מַפְתֵּחַ שֶׁל אַרְכֻּבָּה שֶׁנִּשְׁבַּר מִתּוֹךְ אַרְכֻּבָּתוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

A última mishná do capítulo trata da chave em forma de joelho e da chave em forma de gama que se quebram; a regra dos dentes e furos restantes; a peneira de mostarda; e o funil de metal do moinho

A chave em forma de arcubá (joelho) que se quebrou dentro de seu joelho é pura; Rabi Yehudá declara impura, porque com ela se abre por dentro. E a chave em forma de gam que se quebrou dentro de sua reentrância é pura. Se nela havia dentes e furos, é impura. Se os dentes foram removidos, é impura por causa dos furos. Se os furos foram obstruídos, é impura por causa dos dentes. Se os dentes foram removidos e os furos foram obstruídos, ou se um se estendeu para dentro do outro, é pura. A peneira de mostarda em que três furos se estenderam um para dentro do outro por baixo é pura. E o funil de metal do moinho é impuro.

A mishná final do capítulo trata de dois formatos de chaves antigas, dobradas em ângulo — uma semelhante à curva de um joelho (“arcubá”), outra semelhante à letra grega gama, com formato de um nun invertido —, e da regra de quando a quebra no ponto de dobra as torna puras: como a parte quebrada já não serve para abrir a fechadura pelo lado externo, a chave é pura; Rabi Yehudá discorda quanto à chave em forma de joelho, pois considera que ainda é possível abrir com ela por dentro. A mishná passa então à regra geral sobre os dentes (as saliências da chave) e os furos (as reentrâncias correspondentes na fechadura): enquanto a chave conserva ambos, dentes e furos, permanece útil e impura; se perdeu os dentes mas conserva os furos, ainda serve através deles, e permanece impura; e da mesma forma se perdeu os furos mas conserva os dentes. Somente quando perde as duas coisas ao mesmo tempo — ou quando dentes e furos se fundem uns nos outros, apagando a distinção entre eles — a chave deixa de funcionar e se torna pura. A mesma lógica se aplica à peneira de metal usada para coar mostarda: se três furos do fundo se fundem num só, ela já não cumpre sua função de coar e torna-se pura. A mishná encerra com o funil metálico do moinho, um vaso completo e simples, que permanece sempre impuro.

מַפְתֵּחַ שֶׁל אַרְכֻּבָּה שֶׁנִּשְׁבַּר מִתּוֹךְ אַרְכֻּבָּתוֹ, טָהוֹר, רַבִּי יְהוּדָה מְטַמֵּא, מִפְּנֵי שֶׁהוּא פוֹתֵחַ בּוֹ מִבִּפְנִים. וְשֶׁל גַּם שֶׁנִּשְׁבַּר מִתּוֹךְ גֻּמּוֹ, טָהוֹר. הָיוּ בוֹ חָפִין וּנְקָבִין, טָמֵא. נִטְּלוּ חָפִין, טָמֵא מִפְּנֵי נְקָבִין. נִסְתַּתְּמוּ נְקָבִין, טָמֵא מִפְּנֵי חָפִין. נִטְּלוּ חָפִין וְנִסְתַּתְּמוּ נְקָבִין, אוֹ שֶׁפָּרְצוּ זֶה לְתוֹךְ זֶה, טָהוֹר. מְסַנֶּנֶת שֶׁל חַרְדָּל שֶׁנִּפְרְצוּ בָהּ שְׁלֹשָׁה נְקָבִים מִלְּמַטָּן זֶה לְתוֹךְ זֶה, טְהוֹרָה. וְהָאֲפַרְכֵּס שֶׁל מַתָּכוֹת, טְמֵאָה:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 14:8
של ארכובה. היא שתהיה לה ארכובה ותהיה צורתה כן ושל גם תהיה צורתה על צורת גימל…

Sobre “de arcubá”: é a que tem um joelho, e sua forma é assim; e a de “gam” tem sua forma semelhante à forma da letra guimel, e a maioria das chaves de fechaduras têm essa forma, e é sobre esta figura. E disseram “dentro de seu gum” e “dentro de sua arcubató”, quer dizer, a partir da parte adicional que há nela; e já explicamos que os “chapin” são os dentes da chave; e do mesmo modo há nas extremidades das chaves furos, que são a causa da abertura da fechadura, pois quando há dentro da fechadura pontas salientes, elas entram nesses furos, e então se abre a porta.

Sobre “a peneira de mostarda”: é de metal; e disse que quando se romperam três furos no fundo da peneira e se uniram uns aos outros, eis que a peneira se estragou, pois ela não coa de modo algum, e por isso é pura.

Sobre “e o funil”: é o vaso do moinho, e em sua maioria é feito de junco, largo na parte superior e cada vez mais estreito conforme desce; sua forma é como um cone pontiagudo; lançam o trigo pelo lado largo, e pela extremidade estreita, sobre a madeira do moinho, e cai dele o trigo junto à moínha. E não é a lei como Rabi Yehudá.

Bartenura · Keilim 14:8
מַפְתֵּחַ שֶׁל אַרְכֻּבָּה. שֶׁמִּתְקַפֵּל כְּאַרְכֻּבָּה עִם הַשּׁוֹק…

Sobre “a chave em forma de arcubá”: que se dobra como um joelho com a canela, feita em forma de um “nun” curvado como o nosso. E a maioria das chaves da terra de Ishmael são assim.

Sobre “Rabi Yehudá declara impura”: e não é a lei como Rabi Yehudá.

Sobre “e a de gam”: como uma espécie de gama grega, que é como um “nun” invertido.

Sobre “havia nela dentes”: quando se quebrou dentro de seu gumo, restaram nela dentes ou furos. Dentes são os “chapin”. Furos são aqueles nos quais entram os dentes da fechadura, pois às vezes há na chave dentes, e eles entram nos furos da fechadura e abrem; e às vezes há furos na chave, e se inserem esses furos nos dentes da fechadura, e se abre.

Sobre “ou se estenderam um para dentro do outro”: que não foram removidos os dentes nem obstruídos os furos, mas se romperam, como quando os dentes se torceram e os furos se alargaram, de modo que se tocam um ao outro.

Sobre “a peneira de mostarda”: como uma espécie de crivo de metal em que se coloca a mostarda e se coa, retendo o resíduo.

Sobre “por baixo”: no fundo da peneira; quando se romperam nela três furos e os três se tornaram um só furo, já não serve mais para coar com ela.

Sobre “funil”: vaso do moinho, largo na parte superior e cada vez mais estreito conforme desce, e colocam nele o trigo, e ele o faz sair pouco a pouco no moínho.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Yud-Dálet · סיום הפרק

כְּלֵי מַתָּכוֹת וְשִׁעוּרֵיהֶם

Com esta oitava mishná, encerra-se o Perek Yud-Dálet de Massechet Keilim, que abriu um novo bloco temático dentro das leis dos vasos de metal: a medida mínima que um vaso quebrado precisa conservar para continuar sujeito à impureza, e o percurso detalhado por dezenas de objetos metálicos do cotidiano — domésticos, agrícolas, de construção e de transporte.

O capítulo abriu (14:1) com a medida de vasos como o balde, a chaleira, o fervedor, o lefés e os copos, e a disputa entre Rabi Eliezer e Rabi Akiva sobre o polimento final e o desbaste do artesão. A mishná 14:2 tratou do bastão com ponta de ferro em forma de maçaneta ou cravejado de pregos, dos usos ornamentais, e da disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre a purificação da bainha metálica unida ao bastão ou à porta. A mishná 14:3 percorreu o cantar do pedreiro, o dacor do carpinteiro, as estacas de tendas e de agrimensores, as correntes de medição, o jumento dos ferreiros, a serra montada na porta, e a regra das coberturas de vasos. As mishnayot 14:4 e 14:5 dedicaram-se por inteiro à carroça, enumerando primeiro suas partes impuras — o jugo, o catrav, as asas, o suporte, o machguer, as bandejas, o badalo e o gancho —, e depois as puras, por revestimento ou ornamento, encerrando com as sandálias de metal e cortiça dos animais e a regra de quando espada e faca se tornam suscetíveis à impureza. A mishná 14:6 tratou da tampa do teni transformada em espelho, e da medida do espelho quebrado. A mishná 14:7 discutiu a purificação de vasos de metal impuros por contato com um morto, quebrados e refeitos, segundo Rabi Eliézer e Rabi Yehoshua. E esta última mishná, 14:8, fechou o capítulo com as chaves em forma de joelho e de gama, a regra dos dentes e furos, a peneira de mostarda, e o funil de metal do moínho.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Tet-Vav, que continuará explorando as leis de impureza dos utensílios ao longo dos dezesseis perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.