Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Vinte e Um · Mishná 3 de 3 — última do capítulo

A serra, o arco e a armadilha de toupeira

הַנּוֹגֵעַ בְּיַד מְגֵרָה, מִכָּאן וּמִכָּאן, טָמֵא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

A última mishná do Perek Vinte e Um: as partes da serra, da prensa de carpinteiro e do arco de furar, a moldura da serra grande, a corda e o arco de caça, e a armadilha de toupeira, com a disputa de Rabi Yehudá sobre a flecha esticada na corda

Aquele que toca no cabo da serra, deste lado e daquele lado, é impuro. No fio, e na corda, no travessão, e nas peças laterais, na prensa do carpinteiro, e no cabo do arco de furar, é puro. Rabi Yehudá diz: também aquele que toca na moldura da serra grande é puro. Aquele que toca na corda do arco e no arco, ainda que esteja esticada, é puro. A armadilha da toupeira é pura. Rabi Yehudá diz: enquanto está esticada, é uma ligação.

A última mishná do capítulo fecha a série de casos sobre conexão com os instrumentos de corte, de carpintaria e de caça. O cabo da serra — as duas madeiras que o carpinteiro segura em cada extremidade — é parte estrutural da ferramenta, e por isso transmite impureza; já o fio e a corda que atam o cabo, o travessão que corre ao longo do ferro, as pequenas peças laterais que os fixam, a prensa em que o carpinteiro firma madeiras tortas, e o cabo do arco de furar são todos acessórios destacáveis, que não se incorporam à serra propriamente dita, e por isso permanecem puros. Rabi Yehudá acrescenta que também a moldura de madeira fina que envolve a serra grande, usada para serrar vigas, é pura, por não fazer parte do corte em si — opinião que, aqui, coincide com a dos sábios quanto ao resultado, embora fundamentada de outro modo. Na caça, a corda do arco e o próprio arco permanecem puros mesmo quando a flecha neles colocada está impura, pois a flecha não é considerada unida ao arco, ainda que esteja esticada e pronta para o disparo; e a armadilha de toupeira, por não ser considerada um vaso, é sempre pura. Rabi Yehudá discorda apenas quanto à flecha esticada na corda: para ele, enquanto ela permanece encaixada, pronta a ser disparada, constitui uma verdadeira ligação com o arco, de modo que a impureza de um se transmite ao outro; mas a lei segue os sábios em ambos os casos.

הַנּוֹגֵעַ בְּיַד מְגֵרָה, מִכָּאן וּמִכָּאן, טָמֵא. בַּחוּט, וּבַמְּשִׁיחָה, בָּאַמָּה, וּבַסְּנִיפִין, בַּמַּכְבֵּשׁ שֶׁל חָרָשׁ, וּבַקַּשְׁטָנִית, טָהוֹר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף הַנּוֹגֵעַ בַּמַּלְבֵּן שֶׁל מַסָּר הַגָּדוֹל, טָהוֹר. הַנּוֹגֵעַ בַּיֶּתֶר וּבַקֶּשֶׁת, אַף עַל פִּי שֶׁהִיא מְתוּחָה, טָהוֹר. מְצֻדַּת הָאֵישׁוּת, טְהוֹרָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, כָּל זְמַן שֶׁהִיא מְתוּחָה, חִבּוּר

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 21:3
תְּמוּנַת הַמְּגֵרָה מְפֻרְסֶמֶת מִמָּה שֶׁאֲבָאֵר…

A forma da serra é conhecida pelo que explicarei: as duas madeiras verticais, que a mão segura em cada uma delas no momento em que se serra, cada uma delas se chama “cabo da serra”. E o fio ou cabelo com que se ata a serra em cima das duas madeiras verticais é o que se chama “fio” e “corda”, pois às vezes é fio e às vezes é corda. E a madeira comprida que fica no meio dessas duas madeiras, e que corre ao longo do ferro da serra, é o que se chama “travessão”. E, do mesmo modo, nas pontas do ferro há duas pequenas madeiras alongadas chamadas “peças laterais”, que giram nas duas madeiras verticais por meio de uma terceira madeira, também pontiaguda, na qual se torce o fio que fica acima das duas madeiras, até que se firme e se fixe parte dele na madeira do meio, chamada “travessão”. E tudo isso é explicado pela forma da serra.

E “prensa do carpinteiro”: é um instrumento no qual os carpinteiros firmam as madeiras tortas. E “cabo do arco de furar”: o arco da broca que se segura com a mão no momento de furar.

E “serra grande”: sua forma também é conhecida; faz-se um retângulo comprido de madeira fina, e a serra fica no meio, e esse retângulo se chama “moldura da serra grande”.

E disse, sobre “a corda e o arco”: quer dizer que, se a flecha se tornou impura e ela está sobre o arco, então quem toca na corda ou no arco é puro; e é o que disse “ainda que esteja esticada, é pura”, mesmo que o arco e a flecha estivessem nele.

E “toupeira”: uma espécie de gafanhoto, uma criatura que não tem olhos, como explicamos em Moed Katan; e também ela fica no arco e na corda, com uma flecha de ferro nele; e disse que, quando a flecha de ferro se torna impura, a armadilha é pura, pois não há união entre a flecha e o arco. E Rabi Yehudá diz que, enquanto a flecha estiver na corda do arco, todos os caçadores se tornarão impuros pela impureza da flecha; e a lei não é como Rabi Yehudá.

Bartenura · Keilim 21:3
מְגֵרָה. בַּרְזֶל מָלֵא פְּגִימוֹת שֶׁמְּנַסְּרִים בּוֹ הַלּוּחוֹת…

Sobre “serra”: ferro cheio de dentes com o qual se serram tábuas e pranchas. E a serra tem duas madeiras, uma de um lado e outra do outro, com as quais o carpinteiro segura as madeiras no momento em que serra as tábuas, e essas madeiras são o cabo da serra. E se a serra se tornou impura, aquele que as toca é impuro, pois são suas alças. Sobre “no fio e na corda”: na ponta dessas madeiras que são o cabo, atam-se um fio, uma corda e uma cordinha que corre ao longo da serra e liga as duas e a mantém firme. Sobre “no travessão”: madeira comprida que fica no meio dessas duas madeiras e corre ao longo da serra; chama-se “travessão”. Sobre “e nas peças laterais”: pequena madeira colocada do fio e da corda até o travessão, e nela se torce e se trança o fio e a corda, com uma ponta dentro do fio e a outra no travessão; e às vezes se colocam duas. Sobre “prensa”: lugar que o carpinteiro tem para as madeiras, onde prensa e retém as madeiras tortas e as tábuas tortas e encurvadas, para que se endireitem; e assim retém ali as madeiras e as pranchas para que não se movam de um lado para outro, até que as prepare para seu trabalho. Sobre “cabo do arco de furar”: espécie de pequeno arco de madeira no qual se encaixa o ferro da broca quando se quer furar com ele, e a pessoa segura o arco e faz girar nele o ferro; e se o ferro é impuro, o arco não se torna impuro, pois não constitui união, já que seu costume era não unir o arco ao ferro. Sobre “serra grande”: serra grande feita para serrar vigas, e fazem para ela uma espécie de retângulo de madeiras finas, com a serra no meio, e esse retângulo se chama “moldura”. Sobre “é puro”: pois não é impuro senão o lugar de segurar o cabo somente. E a lei não é como Rabi Yehudá. Sobre “na corda do arco”: a corda do arco; expressão de “prepararam sua flecha sobre a corda” (Salmos 11). Sobre “ainda que esteja esticado”: ainda que a flecha esteja na corda e no arco, esticada para atirá-la, e a flecha se tornou impura, não se tornam impuros o arco e a corda, pois a flecha não constitui união com o arco e a corda. Sobre “toupeira”: criatura que não tem olhos; e a caçam porque destrói os campos. Sobre “é pura”: pois não é considerada vaso. Sobre “enquanto está esticada”: e a flecha de ferro está nela; se a flecha se torna impura, torna-se impura a armadilha. E a lei não é como Rabi Yehudá.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Vinte e Um · סיום הפרק

כָּל זְמַן שֶׁהִיא מְתוּחָה, חִבּוּר

Com esta terceira mishná, encerra-se o Perek Vinte e Um de Massechet Keilim — capítulo breve, de apenas três mishnayot, que sucede o extenso Perek Vinte, dedicado aos vasos de couro, madeira e tecido entre a função de conter e a de assento, e volta sua atenção ao princípio da conexão (chibur) aplicado às ferramentas e instrumentos de ofício: o tear e a fiação, o jugo e o arado, a serra, a carpintaria e a caça.

A mishná 21:1 abriu o capítulo com as partes do tear: as traves superior e inferior, os liços e o pente são meros instrumentos, puros ao toque; já a alma da urdidura, a urdidura em pé e o fio dobrado sobre o púrpura são parte funcional da peça em tecelagem, e transmitem sua impureza; e o rodízio da fiação transmite impureza apenas enquanto o fio nele permanece enrolado.

A mishná 21:2 aplicou o mesmo princípio ao jugo da carroça e ao arado: o jugo, a cavilha, a coleira e o timão são instrumentos de manejo externo, puros mesmo em uso; já a espada, o curvo, o cabo de manejo, o anel de metal, as guias e a relha são partes estruturais do arado, e Rabi Yehudá discordou apenas quanto às guias, sem que a lei o acompanhasse.

A última mishná, 21:3, fechou o capítulo com a serra, a carpintaria e a caça: o cabo da serra transmite impureza, mas seus acessórios — fio, corda, travessão, peças laterais, prensa e cabo do arco de furar — permanecem puros; a corda e o arco de caça não se unem à flecha nem mesmo esticados, e a armadilha de toupeira é sempre pura, com a única exceção da opinião individual de Rabi Yehudá quanto à flecha esticada na corda.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Vinte e Dois, que continuará explorando as leis de impureza dos vasos ao longo dos nove perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.