Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Vinte e Sete · Mishná 12 de 12 — última do capítulo

O pedaço rasgado, os dois fios emparelhados, e o descarte que purifica

שְׁלֹשָׁה עַל שְׁלֹשָׁה שֶׁנִּקְרַע
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

Décima segunda e última mishná do Perek Vinte e Sete: o pedaço rasgado, os fios emparelhados, e o princípio de que lançar no monturo purifica

Um pedaço de três palmos por três palmos que se rasgou: se o colocou sobre a cadeira e sua pele toca na cadeira, é puro; e se não, é impuro. Um pedaço de três dedos por três dedos do qual se gastou um fio, ou em que se encontrou um nó, ou dois fios emparelhados, é puro. Um pedaço de três dedos por três dedos que se lançou no monturo é puro. Se o trouxe de volta, é impuro. Sempre: seu lançamento o purifica, e seu retorno o torna impuro — exceto o de púrpura e o de carmesim fino. Rabi Eliezer diz: também um remendo novo é como estes. Rabi Shimon diz: todos são puros; não foram mencionados senão por causa da devolução de objeto perdido.

A mishná final do capítulo reúne vários critérios de purificação por diminuição ou desvalorização: o rasgo tão grande que a pele toca diretamente a cadeira anula a peça como tecido; o desgaste de um único fio, ou a presença de um nó ou de dois fios sobrepostos (defeitos de tecelagem que reduzem a área útil), também bastam para retirar a medida mínima de três dedos. O caso mais notável é o do descarte: o mero ato de lançar um pedaço no monturo o purifica, pois demonstra que o dono já não o considera valioso — e retomá-lo o torna novamente impuro, pois demonstra o contrário. A exceção da púrpura e do carmesim fino, tecidos de alto valor que não perdem sua importância mesmo no lixo, é interpretada de modo distinto por cada opinião: para o tanaíta anônimo e Rabi Eliezer, ela afeta a própria suscetibilidade à impureza; para Rabi Shimon, ela afeta apenas a obrigação de anunciar o achado como devolução de objeto perdido, mas não a pureza ou impureza da peça em si. Encerra-se assim o Perek Vinte e Sete de Massechet Keilim.

שְׁלֹשָׁה עַל שְׁלֹשָׁה שֶׁנִּקְרַע, אִם נְתָנוֹ עַל הַכִּסֵּא וּבְשָׂרוֹ נוֹגֵעַ בַּכִּסֵּא, טָהוֹר, וְאִם לָאו, טָמֵא. שָׁלֹשׁ עַל שָׁלֹשׁ שֶׁנִּמְהָה מִמֶּנָּה חוּט אֶחָד, אוֹ שֶׁנִּמְצָא בוֹ קֶשֶׁר, אוֹ שְׁנֵי חוּטִין מַתְאִימִין, טְהוֹרָה. שָׁלֹשׁ עַל שָׁלֹשׁ שֶׁהִשְׁלִיכָהּ בָּאַשְׁפּוֹת, טְהוֹרָה. הֶחֱזִירָהּ, טְמֵאָה. לְעוֹלָם הַשְׁלָכָתָהּ מְטַהֲרַתָּה, וַחֲזָרָתָהּ מְטַמֵּאתָהּ, חוּץ מִשֶּׁל אַרְגָּמָן וְשֶׁל זְהוֹרִית טוֹבָה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אַף מַטְלִית חֲדָשָׁה כַּיּוֹצֵא בָהֶן. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, כֻּלָּן טְהוֹרִין, לֹא הֻזְכְּרוּ אֶלָּא מִפְּנֵי הֲשָׁבַת אֲבֵדָה:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 27:12
אָמְרוּ שְׁלֹשָׁה עַל שְׁלֹשָׁה שֶׁנִּקְרַע וְלֹא הֻבְדְּלוּ הַקְּרָעִים…

O que disseram, “três por três que se rasgou”, e não se separaram os rasgos, sendo o rasgo, que se rasgou deste pedaço, tão grande que, ao pôr este pedaço sobre a cadeira e sentar-se sobre ela, sua pele toca na própria cadeira — então não se torna impuro pela pisadela do zav. E “dois fios emparelhados” é quando um fio toca no outro e resta entre eles a maior parte do que se chama a estrutura do tecido.

“Carmesim fino” (zehorit tová): a seda tingida em carmim; e será a peça de púrpura e a peça de seda nobre muito considerada, tornando-se impura com três por três, mesmo lançada no monturo, porque é considerada. E Rabi Eliezer entende que todo tecido novo também é considerado, e torna-se impuro com três por três em qualquer lugar. E Rabi Shimon entende que, mesmo a peça de seda e de púrpura, se dela houvesse três por três no monturo, não se torna impura; mas, na verdade, colocou-se a distinção entre a peça de púrpura e as demais peças em relação à devolução de objeto perdido: pois quem encontrar três por três das demais peças no monturo, e semelhante a ela, não está obrigado a anunciá-lo, porque não tem importância; mas se era da peça de seda ou de púrpura, é preciso anunciá-lo e devolvê-lo a seu dono, porque é considerado. E não é a halachá como Rabi Eliezer.

Bartenura · Keilim 27:12
שְׁלֹשָׁה עַל שְׁלֹשָׁה שֶׁנִּקְרַע. וְלֹא נֶחְלְקוּ הַקְּרָעִים זוֹ מִזּוֹ…

Sobre “três por três que se rasgou”: e não se separaram os rasgos um do outro. Sobre “e sua pele toca na cadeira”: se o rasgo é tão grande que, ao pôr o tecido sobre a cadeira e sentar-se sobre ele, sua pele toca na própria cadeira. Sobre “é puro”: porque perdeu a categoria de tecido. Sobre “e se não”: que o rasgo não é tão grande a ponto de sua pele tocar na cadeira, não perde a categoria de tecido, e é impuro.

Sobre “do qual se gastou”: que se desgastou dele; e seu exemplo é o remendo gasto costurado sobre um tecido são, que ensinamos acima, ao final do capítulo “três escudos”. E quando se gasta um fio de um tecido de três por três exatos, sua medida diminui e é puro. Sobre “ou dois fios emparelhados”: explicaram meus mestres que “emparelhados” se refere também ao nó — e assim se ensina: encontraram-se nele dois nós emparelhados, ou dois fios emparelhados; porque, se há dois fios atados um junto ao outro num tecido, não é costume deixá-los assim, como dizemos na Guemará, no capítulo “Kelal Gadol” (Shabat 74a): se por acaso se encontram dois nós juntos, desata-se um e ata-se outro. E dois fios emparelhados: porque, no modo de tecer, em que a trama entra na urdidura, dois fios não entram na mesma ordem, senão que, onde um entra, o outro sai; e quando ambos são iguais, um deles é considerado como se não existisse.

Sobre “trouxe-o de volta”: para a casa. Sobre “é impuro”: porque voltou a considerá-lo. Sobre “sempre seu lançamento o purifica”: isto é, deste modo se torna impuro e puro ainda que dez vezes ao dia. Sobre “púrpura e carmesim fino”: são considerados, e o monturo não os anula da categoria de tecido; e “carmesim fino” é a seda tingida, chamada carmesí em língua estrangeira. Sobre “também um remendo novo é como estes”: sua lei é como a da púrpura e do carmesim fino, e o monturo não o anula da categoria de tecido. Sobre “todos são puros”: se foram lançados no monturo, mesmo a púrpura e o carmesim fino. Sobre “não foram mencionados”: a púrpura e o carmesim fino, para diferenciá-los dos demais tecidos. Sobre “senão por causa da devolução de objeto perdido”: pois, se os encontrarem no monturo, não dizemos que foram lançados de propósito, e requerem anúncio, porque, por sua importância, os donos não se desesperam deles; mas os demais tecidos, que não são considerados, se encontrados no monturo, não requerem anúncio. E a halachá é como o primeiro tanaíta.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Vinte e Sete · סיום הפרק

הַבֶּגֶד מִטַּמֵּא מִשּׁוּם חֲמִשָּׁה שֵׁמוֹת, וְהַמְקַצֵּעַ טֶפַח עַל טֶפַח טָמֵא, וּלְעוֹלָם הַשְׁלָכָתָהּ מְטַהֲרַתָּהּ

Com esta décima segunda mishná, encerra-se o Perek Vinte e Sete de Massechet Keilim — o capítulo que abre a seção final do tratado, dedicada às medidas mínimas de suscetibilidade à impureza dos vasos de tecido, saco, couro, madeira e barro.

O capítulo abre (27:1–27:2) com a escala decrescente das cinco categorias de impureza do tecido — receptáculo, assento, tenda, tecelagem e a simples medida de três por três — e sua redução progressiva no saco, no couro, na madeira e no vaso de barro; e com as medidas específicas, em palmos e em dedos, de cada material para midrás e para impureza de morto.

As mishnayot 27:3 a 27:6 tratam da combinação de retalhos de materiais diferentes numa só peça — a regra de que apenas o material mais rigoroso completa a medida do mais leniente, nunca o inverso —, do corte deliberado de um palmo por um palmo para servir de assento, dos casos especiais da peneira gasta, do banquinho e da túnica de criança, e das peças que se medem sempre dobradas, como as meias, as calças e a bolsa de cinto.

As mishnayot 27:7 a 27:10 exploram os efeitos da ordem dos eventos na fabricação e na divisão de tecidos: o retalho de três por três que já contraiu midrás antes de a tecelagem se completar, o mesmo cenário para impureza de morto (com a diferença decisiva entre as duas categorias), e o lençol transformado em cortina ou o pedaço simplesmente dividido — ambos objeto da disputa entre o tanaíta anônimo e Rabi Yosei quanto ao resíduo de impureza por contato.

O capítulo fecha (27:11–27:12) com as condições exigidas de um pedaço de tecido encontrado no monturo — ser são e capaz de amarrar sal —, e com o princípio de que o lançamento no lixo purifica e o retorno torna impuro, exceto para os tecidos de púrpura e carmesim fino, cuja importância não se anula nem no monturo.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Vinte e Oito, que continuará explorando as leis de impureza dos vasos de tecido e de couro nos dois perakim finais deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.