Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Hei · Mishná 11 de 11 — última do capítulo

O forno e a kirá de pedra e de metal, e o encerramento do Perek Hei

תַּנּוּר שֶׁל אֶבֶן וְשֶׁל מַתֶּכֶת, טָהוֹר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o capítulo com o forno e a kirá de pedra ou de metal — puros pela lei do vaso de barro, mas impuros pela lei do vaso de metal quando for o caso; as regras do furo, da lasca e da rachadura reparados com barro; e a disputa de Rabi Yehudá sobre o reboco interno e externo da kirá de metal

Um forno de pedra e de metal é puro, mas é impuro pela categoria de vasos de metal. Se foi furado, foi lascado, foi rachado, [e] fez para ele um reboco, ou um acréscimo de barro, é impuro. Qual deve ser o tamanho do furo [para ser puro]? O suficiente para que saia por ele o fogo. E o mesmo vale para a kirá. A kirá de pedra e de metal é pura, mas é impura pela categoria de vasos de metal; se foi furada, foi lascada, foi rachada, [e] fez para ela pés, é impura. Se a rebocou com barro, seja por dentro seja por fora, é pura. Rabi Yehudá diz: por dentro é impura, e por fora é pura.

A última mishná do capítulo esclarece um ponto fundamental, implícito em todas as anteriores: as leis do forno e da kirá, expostas ao longo deste perek, aplicam-se especificamente ao forno e à kirá de barro, pois foi disso que a Torá falou ao declará-los impuros. Um forno ou uma kirá feitos de pedra são puros por completo, pois os vasos de pedra nunca recebem impureza, seja qual for sua forma. Já os feitos de metal são puros como forno ou kirá — isto é, não seguem as regras específicas de barro estudadas neste capítulo, como a suscetibilidade por ar —, mas continuam impuros pela categoria geral de vasos de metal, que tem regras próprias e mais amplas de impureza. Se esse forno ou essa kirá de metal for danificado — furado, lascado ou rachado —, e o dono reparar o dano com barro, seja tapando o furo, seja acrescentando uma borda de barro por cima, o vaso permanece impuro, pois esse reparo tem utilidade real: ajuda a conservar o calor do forno, sendo funcionalmente necessário a ele. Um furo só o isenta de servir como vaso funcional quando é grande o bastante para que o próprio fogo escape por ele — medida que se aplica igualmente à kirá. Mas, quanto à kirá especificamente, a mishná traz uma distinção sutil: se ela for meramente rebocada com barro, seja por dentro seja por fora, sem reparar nenhum dano concreto, permanece pura — pois, ao contrário do forno, em que se assa por dentro, na kirá cozinha-se por cima, sendo ela de metal e já resistente ao fogo por si mesma, de modo que o reboco não lhe agrega nenhuma função real. Rabi Yehudá distingue ainda mais: apenas o reboco por dentro, voltado para a câmara de fogo, seria funcional e tornaria a kirá impura; o reboco por fora permanece sem efeito algum, e a kirá continua pura.

תַּנּוּר שֶׁל אֶבֶן וְשֶׁל מַתֶּכֶת, טָהוֹר, וְטָמֵא מִשּׁוּם כְּלֵי מַתָּכוֹת. נִקַּב, נִפְגַּם, נִסְדַּק, עָשָׂה לוֹ טְפֵלָה, אוֹ מוּסָף שֶׁל טִיט, טָמֵא. כַּמָּה יְהֵא בַנֶּקֶב, כְּדֵי שֶׁיֵּצֵא בוֹ הָאוּר. וְכֵן בְּכִירָה. כִּירָה שֶׁל אֶבֶן וְשֶׁל מַתֶּכֶת טְהוֹרָה, וּטְמֵאָה מִשּׁוּם כְּלֵי מַתָּכוֹת, נִקְּבָה, נִפְגְּמָה, נִסְדְּקָה, עָשָׂה לָהּ פִּטְפּוּטִין, טְמֵאָה. מֵרְחָהּ בְּטִיט בֵּין מִבִּפְנִים בֵּין מִבַּחוּץ, טְהוֹרָה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, מִבִּפְנִים טְמֵאָה, וּמִבַּחוּץ טְהוֹרָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 5:11
אמר יתברך תנור וכירים יותץ את שיש לו נתיצה טמא…

Disse o Altíssimo (Vayikrá 11:35): “forno ou kirá será demolido”: aquele que tem demolição é impuro; mas se for de pedra ou de algum tipo de metal, não se torna impuro por ser forno, segundo todos — e esse é o sentido que os sábios extraem da expressão “será demolido”. Mas ele se torna impuro, se for de metal, pela categoria de vasos de metal, e sua impureza será segundo a lei da impureza dos vasos de metal — isto é, que não se torna impuro por seu ar, mas se torna impuro por suas costas, e se torna “pai da impureza” quando toca nele uma azeitona [de volume] de um morto, conforme se explica na Tossefta. E retorno à explicação desta halachá: se esse forno de metal está construído sobre a terra, não se torna impuro de forma alguma, pois os vasos construídos na terra são puros, exceto o forno e a kirá, que o versículo especificou; mas fora disso, o princípio conosco é que tudo o que está ligado ao solo é como o solo — e é o sentido de “puro”; e “impuros pela categoria de vasos de metal” aplica-se quando não está ligado ao chão. Mas se for de pedra, não se torna impuro de forma alguma, pois os vasos de pedra não se tornam impuros de modo algum, como se explicará adiante. E se foi furado, ou rachado, ou lascado, e tapou esse lugar com barro, ou o rebocou por fora com barro, ou acrescentou em sua altura uma borda de barro por cima — que se chama “acréscimo”, como se explicou —, aplica-se a ele a lei do forno para todos os efeitos. E disseram “e o mesmo na kirá”: isto é, que esse limite que demarcamos para o furo, a partir de quando sai por ele o fogo, é também o limite do furo da kirá. E “pitputin” são pontas de barro sobre as quais se assenta a panela, como bases. E a lei não segue Rabi Yehudá, de que o reboco não ajuda em nada a kirá, pois ela é feita para assar sobre ela, não nela, como já precedeu, e ela suporta o fogo por ser de metal, e não lhe ajuda o reboco de forma alguma; mas o reboco do forno de metal ou de pedra — que é a “tefelá” — tem utilidade nele, pois assam dentro dele, por dentro, o pão, e esse reboco conserva seu calor e impede dele o ar que esfriaria o corpo do forno.

Bartenura · Keilim 5:11
שֶׁל אֶבֶן וְשֶׁל מַתֶּכֶת טָהוֹר. שֶׁל אֶבֶן טָהוֹר לְגַמְרֵי…

Sobre “de pedra e de metal é puro”: o de pedra é puro por completo. E o de metal é puro segundo a lei dos vasos de barro — pois não se torna impuro por seu ar —, e tem purificação possível pela imersão no mikvê [como todo vaso de metal].

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Hei · סִיּוּם הַפֶּרֶק

מֵרְחָהּ בְּטִיט בֵּין מִבִּפְנִים בֵּין מִבַּחוּץ, טְהוֹרָה

Com esta décima primeira mishná, encerra-se o Perek Hei de Massechet Keilim, inteiramente dedicado ao forno (tanur) de barro para assar pão e a seus utensílios afins — a kirá e o kupach —, um dos blocos mais tecnicamente elaborados de todo o tratado.

O capítulo abriu (5:1) com as medidas mínimas do forno em sua construção e em seus restos, e com a regra geral do término de sua fabricação, a partir do aquecimento suficiente para assar sufganin. A mishná 5:2 estendeu essas medidas à kirá e ao kupach, e fixou a regra da pedra que se projeta como ligação transmissora de impureza. A mishná 5:3 tratou de estruturas acessórias — a coroa da kirá, sempre pura, a cerca do forno, e os nichos para o frasco de óleo, os temperos e a lâmpada. A mishná 5:4 esclareceu que o aquecimento decisivo vale ainda que ocorra por trás, sem conhecimento do dono, ou na casa do artesão, com o caso histórico dos fornos de Kfar Signá julgado por Rabán Gamliel. A mishná 5:5 distinguiu o acréscimo funcional do forno dos padeiros, sempre impuro, do acréscimo ocioso dos donos de casa, sempre puro. A mishná 5:6 tratou do forno meio enterrado em terra e do forno sobre a boca de um poço, na disputa sobre a exigência de ligação ao chão. As mishnayot 5:7 a 5:9 desenvolveram, em três estágios, o processo de purificação do forno impuro: a quebra em três partes com raspagem do reboco, a redução a menos de quatro tefachim por anéis, e o caso do forno em peças ligado apenas por aros, sem barro. A mishná 5:10 trouxe o célebre forno de Achnai e o forno de Ben Dinai, exemplos históricos de disputas notórias entre os sábios. E esta última mishná fechou o capítulo distinguindo o forno e a kirá de pedra e de metal — puros pela lei de barro, mas sujeitos, quando de metal, às regras próprias dos vasos de metal —, com as condições do furo, da lasca, da rachadura e do reboco que os tornam, ou não, novamente aptos a receber impureza.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Vav, que continuará a explorar, com o mesmo rigor casuístico, as leis dos vasos de barro e de outros materiais — ao longo dos vinte e quatro perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.