Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Trinta · Mishná 2 de 4

O espelho, a travessa transformada em espelho, e a colher sobre a mesa

אַסְפַּקְלַרְיָא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

Segunda mishná do Perek Trinta: o espelho de vidro, a travessa transformada em espelho, e a colher de vidro instável sobre a mesa

O espelho é puro. E a travessa que foi transformada em espelho é impura. E se, desde o início, ele a fez com a finalidade de ser espelho, é pura. A colher que se costuma colocar sobre a mesa — se recebe qualquer quantidade, é impura. E se não, Rabi Akiva a declara impura, e Rabi Yochanan ben Nuri a declara pura.

O espelho de vidro (aspaklariá) é puro mesmo quando tem alguma profundidade de receptáculo, pois ele não foi feito para conter algo, mas apenas para refletir o rosto de quem nele se olha — a função determina a categoria, não a forma física. Por isso, uma travessa (tamchui) que originalmente foi feita para conter alimento, e que depois foi transformada em espelho, mantém sua condição original de utensílio suscetível à impureza, já que essa foi sua designação inicial; mas se, desde o princípio, a peça já foi fabricada com a finalidade específica de servir de espelho, ela é pura desde sempre. A mishná passa então à colher de vidro (tarvad) que se costuma pousar sobre a mesa: se ela tem base suficientemente estável para reter qualquer quantidade de conteúdo, é claramente um receptáculo e, portanto, impura. Mas se sua base é tão curva ou pontiaguda que ela rola e derrama o que contém quando colocada sobre uma superfície plana, surge a disputa: Rabi Akiva a considera impura, pois, apesar de instável, ela tem forma de receptáculo; Rabi Yochanan ben Nuri a considera pura, pois, na prática, ela não consegue efetivamente reter nada. A halachá segue Rabi Akiva.

אַסְפַּקְלַרְיָא, טְהוֹרָה. וְתַמְחוּי שֶׁעֲשָׂאוֹ אַסְפַּקְלַרְיָא, טָמֵא. וְאִם מִתְּחִלָּה עֲשָׂאוֹ לְשֵׁם אַסְפַּקְלַרְיָא, טָהוֹר. תַּרְוָד שֶׁהוּא נוֹתְנוֹ עַל הַשֻּׁלְחָן, אִם מְקַבֵּל כָּל שֶׁהוּא, טָמֵא. וְאִם לָאו, רַבִּי עֲקִיבָא מְטַמֵּא, רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי מְטַהֵר:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 30:2
אַסְפַּקְלַרְיָא. הוּא הַמְכַסֶּה אֲשֶׁר יֵעָשֶׂה לִרְאוֹת מֵאֲחוֹרָיו…

Sobre “aspaklariá” [espelho]: é a superfície reflexiva feita para que se veja através dela o que está atrás; e, a meu ver, é palavra composta de “sáfek reiyá” [dúvida da visão], pois o que se vê por trás dessa superfície — seja ela de vidro, de metal polido ou de material semelhante à safira — não se vê em seu lugar verdadeiro, como se esclareceu na ciência da ótica, e tampouco se vê em sua medida verdadeira. E os sábios chamam a superfície muito clara, que não esconde nada do que está atrás dela, de “aspaklariá ha-meirá” [espelho que ilumina]; e falaram, por via de metáfora, da percepção de Moshé Rabênu a respeito da divindade, que ele percebeu o Criador, bendito seja, no limite último do que é possível ao homem alcançar na matéria da percepção, conforme disse Ele, bendito seja, a respeito disso: “pois não Me verá o homem e viverá” (Shemot 33:20); e, segundo se esclareceu em Pirkei Avot, disseram: “todos os profetas olharam através de um espelho que não ilumina, e Moshé Rabênu olhou através do espelho que ilumina.” E já saímos aqui da intenção estritamente legal, mas esclarecemos este assunto.

E “travessa” (tamchui): é o nome do utensílio em que se come. E “colher” (tarvad): é uma concha, e a forma da concha tem o fundo curvo, e quando a colocam sobre algo plano, como a mesa, ela rola para os lados. E a halachá é conforme Rabi Akiva.

Bartenura · Keilim 30:2
אַסְפַּקְלַרְיָא. מַרְאָה שֶׁל זְכוּכִית שֶׁהָאִשָּׁה רוֹאָה בָהּ אֶת פָּנֶיהָ…

Sobre “aspaklariá”: espelho de vidro em que a mulher vê seu rosto; em língua estrangeira, “espéculo”. E, mesmo que tenha um receptáculo, é puro, pois não foi feito para receber, mas apenas para ver a forma do rosto.

Sobre “tamchui”: uma espécie de travessa grande de vidro. Sobre “tarvad”: uma colher de vidro.

Sobre “e se não”: se, ao colocá-la sobre a mesa ou sobre algo plano, ela rola para um lado e para outro e derrama o que está dentro dela, porque sua parte de baixo é pontiaguda e não se sustenta em pé.

Sobre “Rabi Akiva a declara impura”: visto que ela tem receptáculo. E a halachá é conforme Rabi Akiva.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.