O espaço entre o Ulam e o altar é mais sagrado que ele, pois os que têm defeitos físicos e os de cabelo desgrenhado não entram ali. O Heichal é mais sagrado que ele, pois não entra ali quem não tem as mãos e os pés lavados. O Santo dos Santos é mais sagrado que eles, pois não entra ali senão o sumo sacerdote, no Dia do Perdão, no momento do serviço. Disse Rabi Yosei: em cinco aspectos, o espaço entre o Ulam e o altar equivale ao Heichal, pois nem os que têm defeitos, nem os de cabelo desgrenhado, nem os que beberam vinho, nem os que não têm as mãos e os pés lavados entram ali; e afastam-se do espaço entre o Ulam e o altar no momento da queima do incenso.
A última mishná do capítulo culmina a longa progressão de santidades com os três graus mais elevados de todos. O espaço entre o Ulam (o pórtico de entrada) e o altar de sacrifícios é vedado a sacerdotes com defeitos físicos (baalei mumin) e aos que não cortaram o cabelo (pruei rosh). Mais adentro, o próprio Heichal (o edifício do Santuário) é vedado a qualquer um — mesmo sacerdote apto — cujas mãos e pés não tenham sido lavados na bacia. E, no ápice absoluto da hierarquia, o Santo dos Santos (Kodesh HaKodashim) só pode ser acessado por uma única pessoa, em um único dia do ano, num único momento: o sumo sacerdote, exclusivamente em Yom Kipur, durante o próprio ato do serviço sagrado. A mishná fecha com uma opinião dissidente de Rabi Yosei, que propõe igualar, em cinco aspectos específicos, o espaço entre o Ulam e o altar ao próprio Heichal: nem os de defeito físico, nem os de cabelo desgrenhado, nem os que beberam vinho, nem os de mãos e pés não lavados podem ali entrar, e todo o povo se afasta desse espaço no momento em que se queima o incenso — um refinamento que, segundo a maioria dos comentadores, não altera a lei prática, mas ilustra a proximidade quase indistinguível entre esses dois espaços mais sagrados do complexo do Templo.
Rambam traz as fontes bíblicas de cada exclusão: o Eterno disse àqueles que serviam no Templo “vossas cabeças não desgrenhareis”, e também “todo homem que tenha nele defeito não se aproximará”, e ainda “ao entrarem na Tenda da Reunião, lavar-se-ão com água, para que não morram”. O primeiro tanna entende que a proibição de entrar sem santificar mãos e pés vale apenas para o Heichal; já Rabi Yosei entende que também no espaço entre o Ulam e o altar não é permitido a quem não santificou mãos e pés entrar ali. A lei não segue Rabi Yosei, ainda que a linguagem da Tosefta pareça apoiar sua posição, atribuindo a primeira opinião a Rabi Meir e a segunda aos sábios.
Rambam explica que os cinco aspectos em que Rabi Yosei iguala os dois espaços referem-se ao momento da queima do incenso no Heichal, quando todo o povo se afasta dali; mas no Dia do Perdão, quando o sumo sacerdote queima o incenso no Santo dos Santos, o afastamento obrigatório se dá apenas a partir do Heichal, não do espaço entre o Ulam e o altar. Já para Rabi Yosei, que iguala a santidade do Heichal à do espaço entre o Ulam e o altar como uma única santidade, seriam apenas dez santidades ao todo, como mencionado no início do capítulo — e não onze, como pareceria à primeira vista pela contagem literal dos espaços descritos.
Sobre a proibição de embriaguez no Templo, Rambam cita o versículo “vinho e bebida forte não bebereis”; e sobre a restrição ao sumo sacerdote quanto ao Santo dos Santos, cita “e não entrará em todo tempo ao santuário” — “com isto entrará Aharon” — explicando que ele entra nesse lugar quatro vezes no Dia do Perdão: para queimar o incenso, para aspergir do sangue do touro, para aspergir do sangue do bode, e para retirar a colher e o incensário; e, segundo a Tosefta, se entrasse uma quinta vez, seria passível de morte.
Bartenura observa que, na Guemará de Menachot (fl. 27), demonstra-se que todos esses graus aqui listados — como a entrada desnecessária no átrio dos sacerdotes, ou a entrada dos que têm defeito físico e cabelo desgrenhado no espaço entre o Ulam e o altar — são, todos eles, graus de proibição de origem rabínica; e assim recebeu de seus mestres. Mas Rambam entende que todos são de origem bíblica: os de defeito físico, pois está escrito “todo homem que tenha nele defeito não se aproximará”; e os de cabelo desgrenhado, pois a Misericórdia disse a Aharon e seus filhos, que estavam no Tabernáculo, “vossas cabeças não desgrenhareis”. E, ainda que a linguagem da Tosefta apoie a posição de Rambam, a tradição recebida dos mestres de Bartenura lhe parece a correta. E o fato de o primeiro tanna não incluir os que beberam vinho e os de mãos e pés não lavados junto com os de defeito e cabelo desgrenhado, como faz Rabi Yosei na segunda parte, deve-se a que o defeito físico e o cabelo desgrenhado são desqualificações do próprio corpo, sendo por isso mais graves em seu envio, enquanto beber vinho e ter mãos ou pés não lavados são desqualificações por causa de outra coisa, sendo por isso menos severa a restrição de acesso.
Sobre “senão o sumo sacerdote no Dia do Perdão”: pois está escrito “e não entrará em todo tempo ao santuário… com isto entrará Aharon”. Sobre “no momento do serviço”: ele entra ali quatro vezes — a primeira para queimar o incenso, a segunda para aspergir do sangue do touro, a terceira para aspergir do sangue do bode, a quarta para retirar a colher e o incensário; e se entrar uma quinta vez, é passível de morte.
Sobre “e afastam-se do espaço entre o Ulam e o altar no momento da queima do incenso”: tanto no momento em que se queima o incenso no altar de ouro que está no Heichal, quanto no momento em que o sumo sacerdote queima o incenso no interior do Santo dos Santos, todo o povo se afasta do espaço entre o Ulam e o altar — e não é preciso dizer que se afasta do próprio Heichal. O primeiro tanna discorda de Rabi Yosei e entende que apenas quando se queima o incenso no Heichal é que o povo se afasta do espaço entre o Ulam e o altar, mas quando o sumo sacerdote queima o incenso no interior do Santo dos Santos, o povo se afasta apenas do Heichal, não desse espaço intermediário — e a lei segue o primeiro tanna.
Bartenura observa, por fim, que a mishná abriu falando em “dez santidades”, mas a contagem literal dos espaços descritos ao longo destas quatro mishnayot chega a onze. Os Gueonim explicaram que a Terra de Israel não entra na contagem das santidades propriamente ditas, pois nas demais santidades há honra ao Lugar por se impedir dele certas impurezas ou certas pessoas, o que não ocorre com a Terra de Israel em seu estado comum — e a trazida de bicurim, omer, dois pães e pão da proposição não é da mesma natureza dessas outras santidades. Outros explicam que o primeiro tanna, que enumera dez santidades, é justamente Rabi Yosei, que entende que o espaço entre o Ulam e o altar equivale ao Heichal em cinco aspectos — e, segundo essa opinião, restam de fato apenas dez.
Com esta nona mishná, encerra-se o Perek Alef de Massechet Keilim — o primeiro dos trinta perakim do tratado mais longo de toda a Mishná, e a abertura de toda a Seder Tehorot, a sexta e última das seis Ordens.
O capítulo desenvolveu três escalas paralelas, cada uma em ordem crescente de gravidade ou santidade. A primeira (1:1–1:4) percorreu os avot hatumá, as fontes primárias de impureza: dos cinco graus iniciais — sheretz, emissão seminal, impuro por morto, metzora em seus dias de contagem, e águas da purificação insuficientes —, subindo pela nevelá e as águas plenas, pelo boel niddá, pelo fluxo do zav, pelo merkav e mishkav, pelo próprio zav, pela zavá, pelo metzora, pelo osso do tamanho de um grão de cevada, até culminar no morto, único capaz de contaminar por ohel. A segunda escala (1:5) percorreu as dez etapas de impureza que “se afastam da pessoa”, do mechusar kipurim ao membro amputado sem a carne devida para sarar. A terceira e última escala (1:6–1:9) teceu as dez santidades territoriais, da Terra de Israel às cidades muradas, dali para dentro da muralha de Jerusalém, o Monte do Templo, o Chel, o átrio das mulheres, o átrio de Israel, o átrio dos sacerdotes, o espaço entre o Ulam e o altar, o Heichal, e por fim o Santo dos Santos, onde apenas o sumo sacerdote entra, uma vez por ano, no momento do serviço de Yom Kipur.
O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Bet, que continuará a exploração das leis de impureza dos utensílios propriamente ditos — tema que dará nome a todo o tratado, e que se estenderá, progressivamente, ao longo dos vinte e nove perakim restantes.