Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Alef · Mishná 9 de 9 — última do capítulo

O Santo dos Santos, e a opinião de Rabi Yosei

בֵּין הָאוּלָם וְלַמִּזְבֵּחַ מְקֻדָּשׁ מִמֶּנָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o capítulo com os três graus finais e mais elevados de santidade — o espaço entre o Ulam e o altar, o Heichal, e o Santo dos Santos — e a opinião de Rabi Yosei, que iguala cinco leis do primeiro ao segundo

O espaço entre o Ulam e o altar é mais sagrado que ele, pois os que têm defeitos físicos e os de cabelo desgrenhado não entram ali. O Heichal é mais sagrado que ele, pois não entra ali quem não tem as mãos e os pés lavados. O Santo dos Santos é mais sagrado que eles, pois não entra ali senão o sumo sacerdote, no Dia do Perdão, no momento do serviço. Disse Rabi Yosei: em cinco aspectos, o espaço entre o Ulam e o altar equivale ao Heichal, pois nem os que têm defeitos, nem os de cabelo desgrenhado, nem os que beberam vinho, nem os que não têm as mãos e os pés lavados entram ali; e afastam-se do espaço entre o Ulam e o altar no momento da queima do incenso.

A última mishná do capítulo culmina a longa progressão de santidades com os três graus mais elevados de todos. O espaço entre o Ulam (o pórtico de entrada) e o altar de sacrifícios é vedado a sacerdotes com defeitos físicos (baalei mumin) e aos que não cortaram o cabelo (pruei rosh). Mais adentro, o próprio Heichal (o edifício do Santuário) é vedado a qualquer um — mesmo sacerdote apto — cujas mãos e pés não tenham sido lavados na bacia. E, no ápice absoluto da hierarquia, o Santo dos Santos (Kodesh HaKodashim) só pode ser acessado por uma única pessoa, em um único dia do ano, num único momento: o sumo sacerdote, exclusivamente em Yom Kipur, durante o próprio ato do serviço sagrado. A mishná fecha com uma opinião dissidente de Rabi Yosei, que propõe igualar, em cinco aspectos específicos, o espaço entre o Ulam e o altar ao próprio Heichal: nem os de defeito físico, nem os de cabelo desgrenhado, nem os que beberam vinho, nem os de mãos e pés não lavados podem ali entrar, e todo o povo se afasta desse espaço no momento em que se queima o incenso — um refinamento que, segundo a maioria dos comentadores, não altera a lei prática, mas ilustra a proximidade quase indistinguível entre esses dois espaços mais sagrados do complexo do Templo.

בֵּין הָאוּלָם וְלַמִּזְבֵּחַ מְקֻדָּשׁ מִמֶּנָּה, שֶׁאֵין בַּעֲלֵי מוּמִין וּפְרוּעֵי רֹאשׁ נִכְנָסִים לְשָׁם. הַהֵיכָל מְקֻדָּשׁ מִמֶּנּוּ, שֶׁאֵין נִכְנָס לְשָׁם שֶׁלֹּא רְחוּץ יָדַיִם וְרַגְלָיִם. קֹדֶשׁ הַקֳּדָשִׁים מְקֻדָּשׁ מֵהֶם, שֶׁאֵין נִכְנָס לְשָׁם אֶלָּא כֹהֵן גָּדוֹל בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים בִּשְׁעַת הָעֲבוֹדָה. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, בַּחֲמִשָּׁה דְבָרִים בֵּין הָאוּלָם וְלַמִּזְבֵּחַ שָׁוֶה לַהֵיכָל, שֶׁאֵין בַּעֲלֵי מוּמִין, וּפְרוּעֵי רֹאשׁ, וּשְׁתוּיֵי יַיִן, וְשֶׁלֹּא רְחוּץ יָדַיִם וְרַגְלַיִם נִכְנָסִים לְשָׁם, וּפוֹרְשִׁין מִבֵּין הָאוּלָם וְלַמִּזְבֵּחַ בִּשְׁעַת הַקְטָרָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 1:9
אמר השם יתברך לאשר במקדש ראשיכם אל תפרעו ואמר כל איש אשר בו מום לא יקרב…

Rambam traz as fontes bíblicas de cada exclusão: o Eterno disse àqueles que serviam no Templo “vossas cabeças não desgrenhareis”, e também “todo homem que tenha nele defeito não se aproximará”, e ainda “ao entrarem na Tenda da Reunião, lavar-se-ão com água, para que não morram”. O primeiro tanna entende que a proibição de entrar sem santificar mãos e pés vale apenas para o Heichal; já Rabi Yosei entende que também no espaço entre o Ulam e o altar não é permitido a quem não santificou mãos e pés entrar ali. A lei não segue Rabi Yosei, ainda que a linguagem da Tosefta pareça apoiar sua posição, atribuindo a primeira opinião a Rabi Meir e a segunda aos sábios.

Rambam explica que os cinco aspectos em que Rabi Yosei iguala os dois espaços referem-se ao momento da queima do incenso no Heichal, quando todo o povo se afasta dali; mas no Dia do Perdão, quando o sumo sacerdote queima o incenso no Santo dos Santos, o afastamento obrigatório se dá apenas a partir do Heichal, não do espaço entre o Ulam e o altar. Já para Rabi Yosei, que iguala a santidade do Heichal à do espaço entre o Ulam e o altar como uma única santidade, seriam apenas dez santidades ao todo, como mencionado no início do capítulo — e não onze, como pareceria à primeira vista pela contagem literal dos espaços descritos.

Sobre a proibição de embriaguez no Templo, Rambam cita o versículo “vinho e bebida forte não bebereis”; e sobre a restrição ao sumo sacerdote quanto ao Santo dos Santos, cita “e não entrará em todo tempo ao santuário” — “com isto entrará Aharon” — explicando que ele entra nesse lugar quatro vezes no Dia do Perdão: para queimar o incenso, para aspergir do sangue do touro, para aspergir do sangue do bode, e para retirar a colher e o incensário; e, segundo a Tosefta, se entrasse uma quinta vez, seria passível de morte.

Bartenura · Keilim 1:9
בֵּין הָאוּלָם וְלַמִּזְבֵּחַ מְקֻדָּשׁ מִמֶּנָּה שֶׁאֵין פְּרוּעֵי רֹאשׁ וּבַעֲלֵי מוּמִין נִכְנָסִים לְשָׁם…

Bartenura observa que, na Guemará de Menachot (fl. 27), demonstra-se que todos esses graus aqui listados — como a entrada desnecessária no átrio dos sacerdotes, ou a entrada dos que têm defeito físico e cabelo desgrenhado no espaço entre o Ulam e o altar — são, todos eles, graus de proibição de origem rabínica; e assim recebeu de seus mestres. Mas Rambam entende que todos são de origem bíblica: os de defeito físico, pois está escrito “todo homem que tenha nele defeito não se aproximará”; e os de cabelo desgrenhado, pois a Misericórdia disse a Aharon e seus filhos, que estavam no Tabernáculo, “vossas cabeças não desgrenhareis”. E, ainda que a linguagem da Tosefta apoie a posição de Rambam, a tradição recebida dos mestres de Bartenura lhe parece a correta. E o fato de o primeiro tanna não incluir os que beberam vinho e os de mãos e pés não lavados junto com os de defeito e cabelo desgrenhado, como faz Rabi Yosei na segunda parte, deve-se a que o defeito físico e o cabelo desgrenhado são desqualificações do próprio corpo, sendo por isso mais graves em seu envio, enquanto beber vinho e ter mãos ou pés não lavados são desqualificações por causa de outra coisa, sendo por isso menos severa a restrição de acesso.

Sobre “senão o sumo sacerdote no Dia do Perdão”: pois está escrito “e não entrará em todo tempo ao santuário… com isto entrará Aharon”. Sobre “no momento do serviço”: ele entra ali quatro vezes — a primeira para queimar o incenso, a segunda para aspergir do sangue do touro, a terceira para aspergir do sangue do bode, a quarta para retirar a colher e o incensário; e se entrar uma quinta vez, é passível de morte.

Sobre “e afastam-se do espaço entre o Ulam e o altar no momento da queima do incenso”: tanto no momento em que se queima o incenso no altar de ouro que está no Heichal, quanto no momento em que o sumo sacerdote queima o incenso no interior do Santo dos Santos, todo o povo se afasta do espaço entre o Ulam e o altar — e não é preciso dizer que se afasta do próprio Heichal. O primeiro tanna discorda de Rabi Yosei e entende que apenas quando se queima o incenso no Heichal é que o povo se afasta do espaço entre o Ulam e o altar, mas quando o sumo sacerdote queima o incenso no interior do Santo dos Santos, o povo se afasta apenas do Heichal, não desse espaço intermediário — e a lei segue o primeiro tanna.

Bartenura observa, por fim, que a mishná abriu falando em “dez santidades”, mas a contagem literal dos espaços descritos ao longo destas quatro mishnayot chega a onze. Os Gueonim explicaram que a Terra de Israel não entra na contagem das santidades propriamente ditas, pois nas demais santidades há honra ao Lugar por se impedir dele certas impurezas ou certas pessoas, o que não ocorre com a Terra de Israel em seu estado comum — e a trazida de bicurim, omer, dois pães e pão da proposição não é da mesma natureza dessas outras santidades. Outros explicam que o primeiro tanna, que enumera dez santidades, é justamente Rabi Yosei, que entende que o espaço entre o Ulam e o altar equivale ao Heichal em cinco aspectos — e, segundo essa opinião, restam de fato apenas dez.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste capítulo.

Encerramento do Perek Alef · סִיּוּם הַפֶּרֶק

הֲדַרָן עֲלָךְ אֲבוֹת הַטֻּמְאוֹת

Com esta nona mishná, encerra-se o Perek Alef de Massechet Keilim — o primeiro dos trinta perakim do tratado mais longo de toda a Mishná, e a abertura de toda a Seder Tehorot, a sexta e última das seis Ordens.

O capítulo desenvolveu três escalas paralelas, cada uma em ordem crescente de gravidade ou santidade. A primeira (1:1–1:4) percorreu os avot hatumá, as fontes primárias de impureza: dos cinco graus iniciais — sheretz, emissão seminal, impuro por morto, metzora em seus dias de contagem, e águas da purificação insuficientes —, subindo pela nevelá e as águas plenas, pelo boel niddá, pelo fluxo do zav, pelo merkav e mishkav, pelo próprio zav, pela zavá, pelo metzora, pelo osso do tamanho de um grão de cevada, até culminar no morto, único capaz de contaminar por ohel. A segunda escala (1:5) percorreu as dez etapas de impureza que “se afastam da pessoa”, do mechusar kipurim ao membro amputado sem a carne devida para sarar. A terceira e última escala (1:6–1:9) teceu as dez santidades territoriais, da Terra de Israel às cidades muradas, dali para dentro da muralha de Jerusalém, o Monte do Templo, o Chel, o átrio das mulheres, o átrio de Israel, o átrio dos sacerdotes, o espaço entre o Ulam e o altar, o Heichal, e por fim o Santo dos Santos, onde apenas o sumo sacerdote entra, uma vez por ano, no momento do serviço de Yom Kipur.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Bet, que continuará a exploração das leis de impureza dos utensílios propriamente ditos — tema que dará nome a todo o tratado, e que se estenderá, progressivamente, ao longo dos vinte e nove perakim restantes.