Panelas, uma dentro da outra, com suas bordas niveladas: se o sheretz está na de cima ou na de baixo, ela é impura, e todas as demais são puras. Se estavam na medida de reter líquido: se o sheretz está na de cima, todas são impuras. Na de baixo, ela é impura, e todas as demais são puras. Se o sheretz está na de cima, e a de baixo é maior, ela e a de baixo são impuras. Na de cima, e a de baixo é maior, tudo o que nela há de líquido que umedece é impuro.
A mishná encerra o Perek Yud com o caso de panelas (lefasin) empilhadas uma dentro da outra, todas com as bordas na mesma altura — situação já tratada, em parte, no Perek Chet, mas aqui generalizada para múltiplas camadas. Se as bordas estão niveladas e um sheretz é encontrado na panela mais interna (a “de cima”) ou na mais externa (a “de baixo”), apenas essa panela específica se torna impura, e todas as demais permanecem puras — pois a impureza do vaso de barro não se propaga pelo ar de um vaso a outro. Mas, se as panelas estão furadas na medida suficiente para reter líquido (kones mashke) — o que as torna, para efeitos de pureza, como um único espaço contínuo —, a situação muda: se o sheretz está na panela mais interna, todas se tornam impuras, pois todas se comunicam pelo mesmo ar; se está na mais externa, apenas ela se torna impura, e as demais permanecem puras, pois a impureza não entra pelo fundo. Se o sheretz está na panela mais interna, e a mais externa a ultrapassa em altura, tanto ela quanto a mais externa se tornam impuras; e, no caso equivalente, tudo o que dentro dela houver de líquido úmido ao toque se torna impuro.
Já explicamos, no que precede, o que disseram sobre o vaso de barro: “ao seu interior”, e não “ao interior do seu interior”. Por isso, quando havia vaso dentro de vaso, e o sheretz estava no vaso de cima, o vaso de baixo não se torna impuro; e assim disseram, sobre a impureza do vaso de barro, que tudo o que estiver “em seu interior” se torna impuro — e disseram “em seu interior”, e não “no interior do seu interior”. E quando o sheretz cai no vaso de baixo, não se torna impuro o que está no vaso de cima — isso quando as bordas de todos os vasos estão niveladas, ou quando a borda do vaso de cima é mais alta do que a do vaso que está abaixo dele.
E se todas essas panelas que estão sobre a de baixo estivessem furadas na medida de reter líquido — o que as faz voltar a não receber impureza, conforme já explicado — elas não protegeriam o que está dentro delas, como se explicou no capítulo oitavo; e, se o sheretz estava na de cima, é como se ele alcançasse o ar de cada uma delas, pois todas essas panelas intermediárias estão furadas na medida de reter líquido, e se torna impuro o que está dentro de cada uma delas, de alimentos e líquidos, pelo cercamento da de baixo sobre elas — e tudo isso está claro, por causa do furo; e é esse o sentido de dizerem “todas são impuras”, referindo-se à impureza do que está dentro delas.
E se o sheretz estava na de baixo, não se torna impuro o que está acima, já que o sheretz não alcança seu ar; e também, quando a borda da panela de baixo é mais alta, torna-se impuro tudo o que está dentro dela, de alimentos e líquidos, mas tudo o que está nesses vasos de cima permanece puro — e é esse o sentido de dizerem “ela é impura, e todas são puras”.
Volta ainda a outra situação, e diz que, se o sheretz estava na de cima e a de baixo a ultrapassa em altura, torna-se impura a de cima, sem dúvida, por o sheretz alcançá-la; e torna-se impura também a de baixo, por ter a borda mais alta, de modo que o sheretz já alcançou seu ar. Mas os demais vasos, que estão entre a de cima e a de baixo, cuja borda se nivela com a da de cima, permanecem inteiramente puros, ainda que estejam dentro da de baixo, já impura — e este é o princípio que expliquei no capítulo oitavo: que o vaso de barro não torna impuro outro vaso por seu ar.
E se, em um desses vasos que estão entre a de baixo e a de cima, havia líquido úmido o bastante para umedecer a mão ao tocá-lo, esse vaso é impuro, pelo princípio explicado no capítulo oitavo — que se torna impuro pelo cercamento, no ar da de baixo, que a ultrapassa e já está impura, e o líquido, por sua vez, torna impuro o vaso em que se encontra, como ali explicamos. E este é o sentido de dizerem: “na de cima, e a de baixo é maior, tudo o que nela há de líquido que umedece é impuro”.
Sobre “lefasin”: como “ilpasin” — grandes frigideiras de ferro nas quais se cozinha.
Sobre “com suas bordas niveladas”: que nenhuma borda é mais alta do que a outra.
Sobre “na de cima”: é a mais interna, estando a externa embaixo dela.
Sobre “ela é impura etc.”: se o sheretz está na de cima, os alimentos que estão na de baixo são puros, pois o Misericordioso disse (Vayikrá 11): “tudo o que cair em seu interior” — e não “no interior do seu interior” — e o sheretz que está na de cima está no interior do interior da de baixo. E se o sheretz está na de baixo, não se tornam impuros os alimentos que estão na de cima, pois o Misericordioso disse (ali): “tudo o que está em seu interior se tornará impuro” — e não o que está no interior do seu interior.
Sobre “se estavam na medida de reter líquido”: isto é, furadas na medida de reter líquido, que é a medida de sua purificação — pois as panelas são feitas tanto para líquidos quanto para alimentos, e por isso se lhes aplica o rigor da medida de reter líquido.
Sobre “o sheretz na de cima”: isto é, na mais interna.
Sobre “todas são impuras”: pois se considera o sheretz como se estivesse em cada uma delas, já que estão furadas na medida de reter líquido.
Sobre “na de baixo”: que é a mais externa.
Sobre “ela é impura, e todas são puras”: pois a impureza não entra pelo fundo. Porém, se havia alimentos e líquidos na panela mais interna, eles se tornam impuros, já que o furo não foi untado, como se demonstra acima, no capítulo oitavo. E a razão é que, tendo sido furada na medida de sua purificação, considera-se como se fosse o ar da externa; e alimentos e líquidos se tornam impuros pelo ar do vaso de barro, mas pessoas e vasos não se tornam impuros pelo ar do vaso de barro.
Sobre “o sheretz na de cima” (segunda vez): agora trata de panelas inteiras, não furadas.
Sobre “ela e a de baixo são impuras”: pois, sendo a de baixo mais alta, é como se o sheretz estivesse depositado dentro dela. Mas a intermediária é pura, pois vaso não se torna impuro pelo ar do vaso de barro.
Sobre “tudo o que nela há de líquido que umedece é impuro”: o líquido úmido que está dentro do vaso intermediário se torna impuro pelo ar do vaso de barro, e o líquido, por sua vez, torna impuros os vasos que o contêm — pois os sábios decretaram que o líquido torna impuro o vaso, por decreto relativo ao líquido do zav e da zavá. E, pela mesma razão, poderia ter-se ensinado essa novidade do líquido úmido já no caso anterior, quando o sheretz está na de cima e a de baixo é maior, e há líquido úmido na intermediária.
Com esta oitava mishná, encerra-se o Perek Yud de Massechet Keilim, capítulo que abre um novo bloco temático dentro do tratado: as leis da tampa hermética (tzamid patil) que protege o conteúdo dos vasos na tenda do morto, princípio fundado no versículo de Bemidbar 19:15.
O capítulo abriu (10:1) com a lista dos materiais cujos vasos protegem por tampa hermética — esterco, pedra, barro cru, barro cozido, nêter, ossos e pele de peixe e de animais marinhos, e os grandes vasos de madeira —, e com a distinção entre o vaso de barro, que só protege alimentos, líquidos e outros vasos de barro, e os demais materiais, que protegem tudo. A mishná 10:2 desceu ao detalhe prático de com que substâncias se forma essa tampa — cal, gesso, piche, cera, lodo —, excluindo estanho e chumbo por não aderirem firmemente, e bolo de figo e massa de frutas por precaução contra futura impureza. As mishnayot 10:3 a 10:6 trataram de casos concretos de tampas e reparos de barris: a tampa frouxa que balança mas não se solta, em disputa entre Rabi Yehudá e os sábios (10:3); as coberturas ocas — bola, novelo de junco, remendo de pano — que exigem untão completa, ao contrário do papel ou couro amarrados (10:4); o barril descascado cujo piche interno permanece firme, e os jarros de salmoura vedados por dentro (10:5); e os reparos de furos com borra de vinho, sarmento de videira ou tábua, com a exceção das tábuas unidas por encaixes rígidos (10:6). A mishná 10:7 tratou do forno velho e do forno novo colocados um dentro do outro, e de como a posição de apoio da rede sobre a boca de um ou de outro determina se ele funciona como tenda protetora ou como simples vaso sujeito à impureza. E esta última mishná, 10:8, fechou o capítulo com o caso das panelas empilhadas uma dentro da outra, distinguindo entre panelas inteiras — nas quais a impureza do sheretz fica restrita à própria panela que o contém — e panelas furadas na medida de reter líquido, nas quais a impureza se propaga conforme a posição do sheretz e a altura relativa das bordas.
O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Yud-Alef, que continuará a explorar, com o mesmo rigor casuístico, as leis dos vasos de barro e de outros materiais — ao longo dos vinte perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.