Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Yud · Mishná 8 de 8 — última do capítulo

Panelas uma dentro da outra, e o encerramento do Perek Yud

לְפָסִין זוֹ בְתוֹךְ זוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

Encerra o capítulo com panelas empilhadas uma dentro da outra, de bordas niveladas: se estão inteiras, só a que contém o sheretz se torna impura; se estão furadas na medida de reter líquido, a impureza se propaga por todas elas conforme a posição do sheretz e da borda mais alta

Panelas, uma dentro da outra, com suas bordas niveladas: se o sheretz está na de cima ou na de baixo, ela é impura, e todas as demais são puras. Se estavam na medida de reter líquido: se o sheretz está na de cima, todas são impuras. Na de baixo, ela é impura, e todas as demais são puras. Se o sheretz está na de cima, e a de baixo é maior, ela e a de baixo são impuras. Na de cima, e a de baixo é maior, tudo o que nela há de líquido que umedece é impuro.

A mishná encerra o Perek Yud com o caso de panelas (lefasin) empilhadas uma dentro da outra, todas com as bordas na mesma altura — situação já tratada, em parte, no Perek Chet, mas aqui generalizada para múltiplas camadas. Se as bordas estão niveladas e um sheretz é encontrado na panela mais interna (a “de cima”) ou na mais externa (a “de baixo”), apenas essa panela específica se torna impura, e todas as demais permanecem puras — pois a impureza do vaso de barro não se propaga pelo ar de um vaso a outro. Mas, se as panelas estão furadas na medida suficiente para reter líquido (kones mashke) — o que as torna, para efeitos de pureza, como um único espaço contínuo —, a situação muda: se o sheretz está na panela mais interna, todas se tornam impuras, pois todas se comunicam pelo mesmo ar; se está na mais externa, apenas ela se torna impura, e as demais permanecem puras, pois a impureza não entra pelo fundo. Se o sheretz está na panela mais interna, e a mais externa a ultrapassa em altura, tanto ela quanto a mais externa se tornam impuras; e, no caso equivalente, tudo o que dentro dela houver de líquido úmido ao toque se torna impuro.

לְפָסִין זוֹ בְתוֹךְ זוֹ וְשִׂפְתוֹתֵיהֶן שָׁווֹת, הַשֶּׁרֶץ בָּעֶלְיוֹנָה אוֹ בַתַּחְתּוֹנָה, הִיא טְמֵאָה וְכֻלָּן טְהוֹרוֹת. הָיוּ בְכוֹנֵס מַשְׁקֶה, הַשֶּׁרֶץ בָּעֶלְיוֹנָה, כֻּלָּן טְמֵאוֹת. בַּתַּחְתּוֹנָה, הִיא טְמֵאָה וְכֻלָּן טְהוֹרוֹת. הַשֶּׁרֶץ בָּעֶלְיוֹנָה, וְהַתַּחְתּוֹנָה עוֹדֶפֶת, הִיא וְהַתַּחְתּוֹנָה טְמֵאָה. בָּעֶלְיוֹנָה, וְהַתַּחְתּוֹנָה עוֹדֶפֶת, כֹּל שֶׁיֶּשׁ בָּהּ מַשְׁקֶה טוֹפֵחַ, טְמֵאָה:

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 10:8
כבר בארנו במה שקדם אמרם בכלי חרש אל תוכו ולא תוך תוכו…

Já explicamos, no que precede, o que disseram sobre o vaso de barro: “ao seu interior”, e não “ao interior do seu interior”. Por isso, quando havia vaso dentro de vaso, e o sheretz estava no vaso de cima, o vaso de baixo não se torna impuro; e assim disseram, sobre a impureza do vaso de barro, que tudo o que estiver “em seu interior” se torna impuro — e disseram “em seu interior”, e não “no interior do seu interior”. E quando o sheretz cai no vaso de baixo, não se torna impuro o que está no vaso de cima — isso quando as bordas de todos os vasos estão niveladas, ou quando a borda do vaso de cima é mais alta do que a do vaso que está abaixo dele.

E se todas essas panelas que estão sobre a de baixo estivessem furadas na medida de reter líquido — o que as faz voltar a não receber impureza, conforme já explicado — elas não protegeriam o que está dentro delas, como se explicou no capítulo oitavo; e, se o sheretz estava na de cima, é como se ele alcançasse o ar de cada uma delas, pois todas essas panelas intermediárias estão furadas na medida de reter líquido, e se torna impuro o que está dentro de cada uma delas, de alimentos e líquidos, pelo cercamento da de baixo sobre elas — e tudo isso está claro, por causa do furo; e é esse o sentido de dizerem “todas são impuras”, referindo-se à impureza do que está dentro delas.

E se o sheretz estava na de baixo, não se torna impuro o que está acima, já que o sheretz não alcança seu ar; e também, quando a borda da panela de baixo é mais alta, torna-se impuro tudo o que está dentro dela, de alimentos e líquidos, mas tudo o que está nesses vasos de cima permanece puro — e é esse o sentido de dizerem “ela é impura, e todas são puras”.

Volta ainda a outra situação, e diz que, se o sheretz estava na de cima e a de baixo a ultrapassa em altura, torna-se impura a de cima, sem dúvida, por o sheretz alcançá-la; e torna-se impura também a de baixo, por ter a borda mais alta, de modo que o sheretz já alcançou seu ar. Mas os demais vasos, que estão entre a de cima e a de baixo, cuja borda se nivela com a da de cima, permanecem inteiramente puros, ainda que estejam dentro da de baixo, já impura — e este é o princípio que expliquei no capítulo oitavo: que o vaso de barro não torna impuro outro vaso por seu ar.

E se, em um desses vasos que estão entre a de baixo e a de cima, havia líquido úmido o bastante para umedecer a mão ao tocá-lo, esse vaso é impuro, pelo princípio explicado no capítulo oitavo — que se torna impuro pelo cercamento, no ar da de baixo, que a ultrapassa e já está impura, e o líquido, por sua vez, torna impuro o vaso em que se encontra, como ali explicamos. E este é o sentido de dizerem: “na de cima, e a de baixo é maior, tudo o que nela há de líquido que umedece é impuro”.

Bartenura · Keilim 10:8
לְפָסִין. כְּמוֹ אִלְפָּסִין. מַחֲבוֹת גְּדוֹלוֹת שֶׁל בַּרְזֶל שֶׁמְּבַשְּׁלִין בָּהֶן…

Sobre “lefasin”: como “ilpasin” — grandes frigideiras de ferro nas quais se cozinha.

Sobre “com suas bordas niveladas”: que nenhuma borda é mais alta do que a outra.

Sobre “na de cima”: é a mais interna, estando a externa embaixo dela.

Sobre “ela é impura etc.”: se o sheretz está na de cima, os alimentos que estão na de baixo são puros, pois o Misericordioso disse (Vayikrá 11): “tudo o que cair em seu interior” — e não “no interior do seu interior” — e o sheretz que está na de cima está no interior do interior da de baixo. E se o sheretz está na de baixo, não se tornam impuros os alimentos que estão na de cima, pois o Misericordioso disse (ali): “tudo o que está em seu interior se tornará impuro” — e não o que está no interior do seu interior.

Sobre “se estavam na medida de reter líquido”: isto é, furadas na medida de reter líquido, que é a medida de sua purificação — pois as panelas são feitas tanto para líquidos quanto para alimentos, e por isso se lhes aplica o rigor da medida de reter líquido.

Sobre “o sheretz na de cima”: isto é, na mais interna.

Sobre “todas são impuras”: pois se considera o sheretz como se estivesse em cada uma delas, já que estão furadas na medida de reter líquido.

Sobre “na de baixo”: que é a mais externa.

Sobre “ela é impura, e todas são puras”: pois a impureza não entra pelo fundo. Porém, se havia alimentos e líquidos na panela mais interna, eles se tornam impuros, já que o furo não foi untado, como se demonstra acima, no capítulo oitavo. E a razão é que, tendo sido furada na medida de sua purificação, considera-se como se fosse o ar da externa; e alimentos e líquidos se tornam impuros pelo ar do vaso de barro, mas pessoas e vasos não se tornam impuros pelo ar do vaso de barro.

Sobre “o sheretz na de cima” (segunda vez): agora trata de panelas inteiras, não furadas.

Sobre “ela e a de baixo são impuras”: pois, sendo a de baixo mais alta, é como se o sheretz estivesse depositado dentro dela. Mas a intermediária é pura, pois vaso não se torna impuro pelo ar do vaso de barro.

Sobre “tudo o que nela há de líquido que umedece é impuro”: o líquido úmido que está dentro do vaso intermediário se torna impuro pelo ar do vaso de barro, e o líquido, por sua vez, torna impuros os vasos que o contêm — pois os sábios decretaram que o líquido torna impuro o vaso, por decreto relativo ao líquido do zav e da zavá. E, pela mesma razão, poderia ter-se ensinado essa novidade do líquido úmido já no caso anterior, quando o sheretz está na de cima e a de baixo é maior, e há líquido úmido na intermediária.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Yud · סיום הפרק

לְפָסִין זוֹ בְתוֹךְ זוֹ

Com esta oitava mishná, encerra-se o Perek Yud de Massechet Keilim, capítulo que abre um novo bloco temático dentro do tratado: as leis da tampa hermética (tzamid patil) que protege o conteúdo dos vasos na tenda do morto, princípio fundado no versículo de Bemidbar 19:15.

O capítulo abriu (10:1) com a lista dos materiais cujos vasos protegem por tampa hermética — esterco, pedra, barro cru, barro cozido, nêter, ossos e pele de peixe e de animais marinhos, e os grandes vasos de madeira —, e com a distinção entre o vaso de barro, que só protege alimentos, líquidos e outros vasos de barro, e os demais materiais, que protegem tudo. A mishná 10:2 desceu ao detalhe prático de com que substâncias se forma essa tampa — cal, gesso, piche, cera, lodo —, excluindo estanho e chumbo por não aderirem firmemente, e bolo de figo e massa de frutas por precaução contra futura impureza. As mishnayot 10:3 a 10:6 trataram de casos concretos de tampas e reparos de barris: a tampa frouxa que balança mas não se solta, em disputa entre Rabi Yehudá e os sábios (10:3); as coberturas ocas — bola, novelo de junco, remendo de pano — que exigem untão completa, ao contrário do papel ou couro amarrados (10:4); o barril descascado cujo piche interno permanece firme, e os jarros de salmoura vedados por dentro (10:5); e os reparos de furos com borra de vinho, sarmento de videira ou tábua, com a exceção das tábuas unidas por encaixes rígidos (10:6). A mishná 10:7 tratou do forno velho e do forno novo colocados um dentro do outro, e de como a posição de apoio da rede sobre a boca de um ou de outro determina se ele funciona como tenda protetora ou como simples vaso sujeito à impureza. E esta última mishná, 10:8, fechou o capítulo com o caso das panelas empilhadas uma dentro da outra, distinguindo entre panelas inteiras — nas quais a impureza do sheretz fica restrita à própria panela que o contém — e panelas furadas na medida de reter líquido, nas quais a impureza se propaga conforme a posição do sheretz e a altura relativa das bordas.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Yud-Alef, que continuará a explorar, com o mesmo rigor casuístico, as leis dos vasos de barro e de outros materiais — ao longo dos vinte perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.