Uma sandália cuja uma das presilhas se rompeu e foi consertada é impura por midrás. Se a segunda se rompeu e foi consertada, é pura de midrás, mas impura por contato com midrás. Se não deu tempo de consertar a primeira antes que a segunda se rompesse, é pura. Se seu calcanhar se rompeu, ou seu bico foi removido, ou ela se partiu em duas, é pura. A sola que se rompeu de qualquer modo é pura. Um sapato que se danificou: se já não recebe a maior parte do pé, é puro. O sapato que está sobre a forma: Rabi Eliezer declara puro, e os Sábios declaram impuro. Todos os odres amarrados são puros, exceto os dos árabes. Rabi Meir diz: o nó temporário torna-os puros; o nó permanente, impuros. Rabi Yossei diz: todos os odres amarrados são puros.
A mishná examina, primeiro, o efeito cumulativo do rompimento e conserto sucessivo das duas presilhas (ou orelhas) da sandália sobre sua impureza de midrás — a impureza transmitida por quem tem fluxo (zav) ao pisar ou apoiar-se sobre o objeto. Se apenas uma presilha se rompeu e foi reparada, a sandália, ainda inteira em sua estrutura essencial, mantém sua impureza plena; mas se a segunda também se rompe depois de consertada a primeira, a mishná considera que se trata, na prática, de um objeto novo, que perde a impureza de midrás anterior, retendo apenas impureza por contato. Dano mais grave — calcanhar rompido, bico removido, ou divisão em duas partes — anula toda a impureza, pois o objeto deixa de ser um calçado utilizável. Em seguida, a mishná trata do sapato ainda montado sobre a forma do sapateiro, e por fim retorna ao tema dos odres de couro amarrados (já visto no capítulo vinte), com a disputa entre Rabi Meir e Rabi Yossei sobre se a natureza temporária ou permanente do nó que veda o furo determina a pureza do odre.
Disse que, quando o odre foi perfurado e ficou puro por causa do furo, como se explicou no capítulo vinte, e depois se amarrou esse furo e se o tapou, eis que ele permanece puro e não recebe impureza por causa do furo — e esse nó não vale nada e não se sustenta, a menos que seja um odre dos árabes, cujo costume é amarrar seus odres de modo permanente. E na Guemará de Menachot (37b) disseram: aquele que amarra sua capa não fez nada, é como se estivesse solta, pois ensinamos: “todos os odres amarrados são puros, exceto os dos árabes”.
E disse Rabi Meir: se seu nó foi feito para durar apenas por um tempo, e depois o desataram, considera-se como se estivesse solto, e é puro; mas se o amarrou e o manteve de modo a ser um nó permanente, eis que o furo já está tapado, e ele recebe impureza. E disse Rabi Yossei que todos os odres, mesmo os dos árabes, amarrados são puros, seja nó temporário seja nó permanente — e a halachá é como o primeiro tana (os Sábios).
Sobre “e foi consertada, é impura por midrás”: ainda permanece em sua impureza, pois a segunda presilha ainda está intacta. Sobre “pura de midrás”: ainda que a primeira tenha sido consertada antes de a segunda se romper, de todo modo é pura, porque são “faces novas” que chegaram ali: depois que baixou sobre ela a impureza de midrás, renovaram-se nela estas faces, e esta já não é a mesma peça primeira, visto que nela já se deu o dano suficiente para sua anulação.
Sobre “mas impura por contato com midrás”: porque, quando a primeira presilha se rompeu e foi consertada — trazendo outra presilha no lugar da rompida e unindo-a à sandália —, ela se tornou impura por contato com midrás, pois tocou na sandália impura por midrás; e quando a segunda presilha se rompeu, removendo-se dela a impureza de midrás, restou nela a impureza de contato, pois toda a sandália está unida à primeira presilha que foi consertada.
Sobre “seu calcanhar”: o couro da sandália que cobre a altura do pé correspondente à perna, por trás. Sobre “seu bico”: o que se ergue diante dos dedos do pé, pela frente. É “pura” da impureza retroativa, mas recebe impureza dali em diante.
Sobre “sola”: o couro que fica apenas sob a planta do pé, sem calcanhar. Sobre “a forma”: molde de sapato feito de couro cheio de pelo. Rabi Eliezer declara puro porque entende que o trabalho do sapato não se completa até que se o retire de sobre a forma; e os Sábios declaram impuro porque consideram que seu trabalho já está completo. E a halachá é como os Sábios.
Sobre “todos os odres amarrados”: odres que foram perfurados por um furo que os retira de seu estado de impureza, e amarraram o furo. São “puros”, como estavam antes, porque se pretende desfazer o nó no futuro — exceto o nó dos árabes, que não é fácil de desatar.
Sobre “nó temporário”: nó feito para durar pouco tempo, com intenção de desatá-lo. Sobre “nó permanente”: nó feito para permanecer para sempre. Sobre “todos os odres amarrados são puros”: seja nó permanente seja nó temporário, e mesmo os dos árabes. E a halachá é como o primeiro tana.