Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Yud-Zayin · Mishná 17 de 17 — última do capítulo

A base dos ourives, a pedra de amolar e o encerramento do Perek Yud-Zayin

תַּחְתִּית הַצּוֹרְפִים, טְמֵאָה. וְשֶׁל נַפָּחִין, טְהוֹרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

A mishná final do capítulo reúne quatro pares de vasos de madeira aparentemente simples — a base dos artesãos, a pedra de amolar, a tabuinha de escrita e a esteira — cuja impureza depende inteiramente de terem, ou não, um receptáculo, encerrando com a disputa entre Rabi Akiva e Rabi Yochanan ben Nuri sobre o tubo de palha

A base dos ourives é impura; e a dos ferreiros é pura. A pedra de amolar que tem em si um receptáculo de azeite é impura; e a que não tem, é pura. A tabuinha que tem em si um receptáculo de cera é impura; e a que não tem, é pura. A esteira de palha e o tubo de palha — Rabi Akiva declara impuro, e Rabi Yochanan ben Nuri declara puro. Rabi Shimon diz: também a do pepino selvagem é semelhante a eles. A esteira de canas e a de junco é pura. O tubo de cana que foi cortado para servir de receptáculo é puro, até que se retire toda a sua medula.

A última mishná do longo Perek Yud-Zayin retorna ao princípio que atravessou boa parte do capítulo: a presença ou ausência de um receptáculo real determina a suscetibilidade de um vaso de madeira à impureza. A base sobre a qual os ourives apoiam sua bigorna é impura, pois serve para recolher os fragmentos de metal precioso que caem durante o trabalho; a base equivalente dos ferreiros é pura, pois não foi feita para receber nada. A pedra de amolar torna-se impura apenas se tiver escavado nela um pequeno receptáculo de azeite, usado para untar a lâmina; sem esse receptáculo, permanece pura. A mesma lógica vale para a tabuinha de escrita usada por lojistas e cambistas: impura se tiver um receptáculo de cera onde se grava com estilete, pura se não tiver. A mishná então registra uma disputa sobre a esteira e o tubo de palha, cuja pequena cavidade divide Rabi Akiva, que os considera vasos receptores plenos, e Rabi Yochanan ben Nuri, que não os considera algo que se sustenta por si. Rabi Shimon estende essa mesma disputa ao caule oco do pepino selvagem. Já a esteira feita de canas ou de junco é pura, pois se destina a cobertura, não a receber; e o tubo de cana só se torna vaso receptor pleno depois que se remove por completo a medula branca de seu interior.

תַּחְתִּית הַצּוֹרְפִים, טְמֵאָה. וְשֶׁל נַפָּחִין, טְהוֹרָה. מַשְׁחֶזֶת שֶׁיֶּשׁ בָּהּ בֵּית קִבּוּל שֶׁמֶן, טְמֵאָה. וְשֶׁאֵין בָּהּ, טְהוֹרָה. פִּנְקָס שֶׁיֶּשׁ בָּהּ בֵּית קִבּוּל שַׁעֲוָה, טְמֵאָה. וְשֶׁאֵין בָּהּ, טְהוֹרָה. מַחֲצֶלֶת הַקַּשׁ וּשְׁפוֹפֶרֶת הַקַּשׁ, רַבִּי עֲקִיבָא מְטַמֵּא, וְרַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי מְטַהֵר. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אַף שֶׁל פַּקּוּעוֹת כַּיּוֹצֵא בָהֶן. מַחֲצֶלֶת קָנִים וְשֶׁל חֵלֶף, טְהוֹרָה. שְׁפוֹפֶרֶת הַקָּנֶה שֶׁחֲתָכָהּ לְקַבָּלָה, טְהוֹרָה, עַד שֶׁיּוֹצִיא אֶת כָּל הַכָּכָי

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 17:17
תחתית הצורפים. החתיכה מעץ אשר ירכב בה הסומך…

Sobre “a base dos ourives” (tachtit hatzorfim): é a peça de madeira sobre a qual se apoia a bigorna, chamada no Ocidente “zavra habarzel”, e nós a chamamos “tachtit”; e diz que essa madeira, na qual há dois apoios, recebe impureza, pois está entre os que recebem impureza entre os vasos de madeira — pois nela se jogam os fragmentos de metais, e dali se recolhe o que se junta de restos de ouro e prata; assim, a escavação que há na madeira serve para receber. E a madeira na qual há os dois apoios dos ferreiros é pura, pois não foi feita para receber; e sabe-se que ela não se torna impura nem mesmo pelos rabinos, pois o limite do que se torna impuro pelos rabinos são os vasos simples de madeira — e esta é uma madeira sobre a qual os ferreiros apoiam o ferro; não tem sobre si a categoria de vaso.

Sobre “a pedra de amolar” (mashcheizet): é conhecida, e não é de pedra, pois os vasos de pedra não se tornam impuros de modo algum; e também não é de ferro, pois os vasos de metal simples são impuros de qualquer forma; assim, não seria necessário que tivesse um receptáculo; mas falaram aqui de um pedaço de madeira sobre o qual se afia a faca, aprimorando seu corte, como fazem os sangradores ao afiar a navalha sobre o couro; por isso, se tem um receptáculo de azeite, é impura, pela raiz já mencionada.

E no Talmude (Shabat 12b) disseram: “escreve-o no seu pinkás” — isto é, em suas tábuas; e há sobre a tábua um conjunto de tábuas, duas que se juntam como um pinkás; e se em uma dessas tábuas houver uma escavação onde se encontra a cera, no momento de escrever gravam nela a escrita — eis que é um vaso receptor.

Sobre “esteira” (machtzelet): é o que se chama em árabe “al-hasir”. Sobre “o tubo de palha”: a cana de palha também é um vaso receptor; e, ainda que seja pequena, já se te explicou que o vaso receptor não tem medida mínima, mas, quando recebe qualquer medida que seja, chama-se vaso receptor. Sobre “pekuot”: planta que também cresce com uma cana oca, pepino selvagem do campo. Sobre “a de junco” (chelef): é o “al-chalfar”.

Sobre “toda a medula” (kol hakachai): quer dizer tudo o que há em seu interior da medula branca que se encontra dentro da cana; e quando se corta para nela colocar colírio ou semelhante, e se retira tudo o que há em seu interior, ela passa a fazer parte dos vasos de madeira que recebem impureza, e se tornam impuros, purificando-se no mikvê. E sabe que a cana, em geral, antes que se lhe faça algo disso, não se torna impura, nem mesmo pelos rabinos, pois não é um vaso; e é isso que disse “a esteira de canas e a de junco é pura” — quer dizer, pura da impureza de réptil e semelhante; porém, quanto à cama do zav (fluxo) e seus semelhantes, que tornam impuros a cama e o assento, eis que se tornam impuros sem dúvida pela Torá, como já foi dito, a menos que a tenha feito para se proteger com ela, e não para sentar-se sobre ela, conforme se explica em Sucá (fl. 20a), pois então é totalmente pura. E a lei é como Rabi Akiva.

Bartenura · Keilim 17:17
תַּחְתִּית הַצּוֹרְפִים. צוֹרְפֵי זָהָב וָכֶסֶף יֵשׁ תַּחְתֵּיהֶם כְּלִי שֶׁשְּׁמוֹ תַחְתִּית…

Sobre “a base dos ourives”: os ourives de ouro e prata têm sob si um vaso chamado “base”, feito para colocar nele fragmentos de prata e de ouro; mas o dos ferreiros não é feito para receber, nem tampouco é destinado a assento.

Sobre “pedra de amolar” (mashcheizet): de madeira, com a qual se afia a faca; e fazem para ela um receptáculo de azeite, com o qual se unta para afiar.

Sobre “tabuinha de cera”: que tem o lojista e o cambista, sobre a qual escreve com um estilete.

Sobre “palha”: pontas das espigas; e delas se fazem esteiras.

Sobre “e o tubo de palha”: que é oco e tem um receptáculo.

Sobre “Rabi Akiva declara impuro”: ainda que sua capacidade seja pequena, pois já se ensinou acima (mishná 15) que quem faz um vaso receptor, de qualquer modo, é impuro; e discordam se é algo que se sustenta por si ou não, pois não é impuro senão o que se sustenta por si mesmo; e Rabi Akiva o considera algo que se sustenta, e Rabi Yochanan ben Nuri não o considera algo que se sustenta. E a lei é como Rabi Akiva.

Sobre “pekuot”: abóbora selvagem; e há quem diga: pequenos melões amargos; e sua cana é oca como o tubo de palha.

Sobre “junco” (chelef): uma espécie de erva, da qual se fazem hastes e esteiras; e chamam-lhe em árabe “chalfa”.

Sobre “é pura”: da impureza de réptil; mas não da impureza de cama e assento, pois, pela Torá, torna-se impura como cama e assento, se não é feita para cobertura de sucá.

Sobre “a cana que foi cortada para servir de receptáculo”: para nela colocar colírio ou coisa semelhante.

Sobre “a medula” (kachai): a medula branca que há dentro da cana; e, antes disso, a cana não tem impureza, nem mesmo pelas palavras dos escribas.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Yud-Zayin · סיום הפרק

הָרִמּוֹן, הַבֵּיצָה, הַגְּרוֹגֶרֶת, הָאַמָּה — כָּל הַשִּׁעוּרִין נֶאֶמְרוּ לְמֹשֶׁה מִסִּינַי

Com esta décima sétima mishná, encerra-se o Perek Yud-Zayin de Massechet Keilim — o mais extenso capítulo de todo o tratado, e um dos mais extensos de toda a Mishná, dedicado quase inteiramente às medidas-padrão (os “shiurim”) que sustentam todo o sistema de impureza dos vasos e de diversas outras áreas da Halachá.

O capítulo abriu (17:1) com a medida geral da romã para os vasos de donos de casa, contrastada por Rabi Eliezer, que preferia medir cada vaso por seu uso específico, e pela distinção entre os cestos de jardineiros, donos de casa e donos de banho. A mishná 17:2 tratou de vasos que permanecem impuros enquanto ainda retêm o conteúdo maior, ainda que já não retenham o menor — o odre, a caixa de tigelas, o penico. A mishná 17:3 mediu os cestos de pão e distinguiu as molduras trançadas de reforço das que ganham asas. A mishná 17:4 definiu operacionalmente a medida da romã como três romãs presas, com o teste do balanço em peneiras e cestos. A mishná 17:5 explorou a disputa sobre a dupla função das romãs de Badan — consagrar misturas e medir vasos — e fechou com a nota de Rabi Yosei sobre o dízimo certo dos produtos samaritanos.

As mishnayot 17:6 a 17:8 percorreram as medidas-padrão de alimentos: o ovo médio, contestado pelo ceticismo de Rabi Yosei; o figo seco médio, maior na Terra de Israel; e a azeitona, a cevada e a lentilha, cada uma com sua variedade regional, além da espessura do aguilhão de boi. As mishnayot 17:9 e 17:10 voltaram-se ao côvado — a tradição dos dois côvados gravados em Susã, a capital, e a disputa entre Rabi Meir e Rabi Yehudá sobre as exceções do Templo. As mishnayot 17:11 e 17:12 completaram o sistema com as medidas “pequenas” do padrão itálico e as variáveis conforme a pessoa — o punhado, o gole, o pão do eruv —, e as medidas “grandes” — a colherada de pó, o feijão da Cilícia, a tâmara, a rolha do odre e o punho de Ben Batiach.

As últimas cinco mishnayot deixaram as medidas para tratar de princípios estruturais: a mishná 17:13 excluiu da impureza os vasos de seres marinhos, exceto o cão-d’água; a mishná 17:14 organizou a suscetibilidade à impureza segundo os seis dias da Criação; a mishná 17:15 fixou que a ação de fazer um receptáculo basta para gerar impureza, ainda que falte intenção plena, como no caso das crianças; a mishná 17:16 reuniu instrumentos de enganadores com receptáculos ocultos, encerrando no célebre dilema de Rabi Yochanan ben Zakai; e esta última mishná, 17:17, fechou o capítulo com quatro pares de vasos de madeira cuja impureza depende inteiramente de terem, ou não, um receptáculo real.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Yud-Chet, que continuará explorando as leis de impureza dos vasos ao longo dos treze perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.