A haste da balança e o rasoiro que têm em si um receptáculo para metais, e o cajado que tem em si um receptáculo para moedas, e o bastão do mendigo que tem em si um receptáculo para água, e a vara que tem em si um receptáculo para uma mezuzá e pérolas — eis que estes são impuros. E sobre todos eles disse Rabi Yochanan ben Zakai: ai de mim se eu disser, ai de mim se eu não disser.
Esta mishná singular reúne uma série de instrumentos comuns que, embora sejam vasos simples de madeira e a princípio não sujeitos à impureza, escondem em seu interior uma cavidade oculta usada para engano: a haste da balança, oca por dentro para nela esconder metal que faça pender o prato desejado; o rasoiro usado para nivelar medidas de grão, adulterado de modo semelhante; o cajado do trabalhador, que esconde no seu interior o dinheiro furtado do salário; o bastão do mendigo, que oculta água para fingir jejum; e a vara que esconde uma mezuzá ou pérolas para sonegar o imposto alfandegário. Todos esses, precisamente por terem sido transformados em receptáculos, ainda que para fins fraudulentos, tornam-se suscetíveis à impureza. A mishná fecha com o célebre lamento atribuído a Rabi Yochanan ben Zakai, dividido entre dois temores: o de que, ao descrever essas artimanhas, ensine o próprio engano a quem as desconhece; e o de que, calando-se, dê a impressão de que os sábios não conhecem os truques dos enganadores, encorajando-os a enganar ainda mais.
Os enganadores, entre os homens, fazem a haste da balança oca, e colocam metal dentro dessa cavidade, para que esse lado da balança pese mais; e recebem pelo lado leve, e vendem pelo lado em que está o metal. E “o rasoiro” (machok) é um instrumento com o qual se rasa a medida, segundo o padrão, para eliminar o excesso; e o enganador coloca dentro dessa tábua metal, para que tenha peso e desça na medida com peso, fazendo cair dela muito.
Sobre “o cajado” (essel): é uma vara que se coloca sobre o ombro, na qual se pendura o que se vende; e o comerciante engana, fazendo dentro dela um receptáculo de moedas, para colocar ali o que rouba do dinheiro da mercadoria, sem que se saiba. E “a vara do mendigo”: fazem-na oca, e colocam dentro dela água para beber, e dizem às pessoas que estão em jejum, para que se compadeçam dele; e assim colocam na ponta do bastão um receptáculo de pérola, para escondê-la do imposto, e semelhantes.
Eis que todos estes, ainda que sejam vasos simples de madeira, que não recebem impureza pela Torá, como já estabelecemos como raiz, uma vez que se lhes fez um receptáculo, de qualquer modo, eis que são impuros.
E disse Rabi Yochanan ben Zakai: “ai de mim se eu disser” — estas coisas, para que delas aprendam de mim o engano e a falsificação; “e ai de mim se eu não disser” — para que se calem estes maus, dos quais não conhecemos os seus ardis. E já disseram no Talmude (Bavá Batrá 89b) que ele disse, citando: “pois retos são os caminhos do Eterno”, e não discordou de que se tornam impuros; mas Rabi Yochanan reforçou o assunto com essas palavras, conforme mencionamos.
Sobre “a haste da balança”: os enganadores a fazem oca, e colocam em sua cavidade mercúrio; e, ao pesar, inclinam ligeiramente a haste, e o mercúrio vai para o lado do objeto pesado, tornando-o mais pesado e fazendo-o pender.
Sobre “o rasoiro” (machok): com o qual se rasa a medida quando está transbordante; e se o fazem de abóbora ou coisa semelhante, leve, ele aligeira, e é ruim para o vendedor; e se o fazem de metal, ele pesa, e é ruim para o comprador; mas fazem-no de oliveira, de noz e de ébano. E o enganador faz o rasoiro de oliveira ou de noz oco, e, quando vende, coloca nele metal para que pese mais, e quando compra, retira-o.
Sobre “o cajado” (essel): vara com a qual se carrega no ombro; e quando há muitos trabalhadores, depois de receber seu salário, o trabalhador coloca no receptáculo que há na vara o salário roubado, e diz ao dono da casa: “não me deste meu salário” — e, quando o revistam, não se ocorre de procurar ali.
Sobre “a vara do mendigo que tem em si um receptáculo de água”: e bebe dela; e, quando lhe perguntam se provou algo, diz: “estou em jejum hoje”. E meus mestres explicaram: receptáculo de água é receptáculo de líquidos, e, quando trabalha junto ao dono da casa na prensa de azeite, rouba dele o azeite.
Sobre “a vara que tem em si um receptáculo de mezuzá e pérolas”: e fazem assim para roubar com ela o imposto.
Sobre “ai de mim se eu disser”: para que as pessoas não aprendam de mim a enganar.
Sobre “e ai de mim se eu não disser”: para que os enganadores não digam que os sábios não são versados na obra de nossas mãos, e, por causa disso, venham a enganar ainda mais. E por que o disse? Porque está escrito (Oséias 14): “pois retos são os caminhos do Eterno; os justos andarão neles, e os transgressores neles tropeçarão.”