Seder Tehorot · Massechet Keilim · Perek Yud-Chet · Mishná 9 de 9 — última do capítulo

A cama dividida entre irmãos e a disputa sobre impureza em feixe ou por membros

מִטָּה שֶׁנִּגְנַב חֶצְיָהּ, אוֹ אָבַד חֶצְיָהּ, אוֹ חֲלָקוּהָ אַחִין, אוֹ שֻׁתָּפִין, טְהוֹרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · המִשְׁנָה

A cama dividida entre herdeiros ou sócios torna-se pura, mas volta a ser suscetível se reunida; e o debate entre Rabi Eliezer e os sábios sobre se a cama impura se purifica “em feixe” (toda de uma vez) ou “por membros” (peça por peça), encerrando o Perek Yud-Chet

Uma cama da qual foi roubada a metade, ou se perdeu a metade, ou a dividiram irmãos ou sócios, torna-se pura. Se a devolveram, volta a receber impureza a partir de então. Uma cama torna-se impura em feixe e se purifica em feixe, palavras de Rabi Eliezer. E os sábios dizem: torna-se impura em membros e se purifica em membros.

A última mishná do Perek Yud-Chet retoma o tema da divisão física da cama, mas sob outro ângulo: quando metade de uma cama é roubada, perdida, ou dividida entre herdeiros ou sócios, a parte que resta perde a condição de vaso e se torna pura, pois já não corresponde à intenção original de seus donos. Se as partes voltam a se reunir, o vaso volta a ser suscetível à impureza, mas apenas dali em diante, sem efeito retroativo. A mishná fecha o capítulo com a disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre a unidade da cama para fins de impureza e purificação: para Rabi Eliezer, a cama só contrai e perde impureza como um todo unido; para os sábios, cada membro — cada perna, cada travessa — pode contrair e perder impureza individualmente, desde que ainda constitua parte funcional do leito. A lei segue os sábios.

מִטָּה שֶׁנִּגְנַב חֶצְיָהּ, אוֹ אָבַד חֶצְיָהּ, אוֹ חֲלָקוּהָ אַחִין, אוֹ שֻׁתָּפִין, טְהוֹרָה. הֶחֱזִירוּהָ, מְקַבֶּלֶת טֻמְאָה מִכָּאן וּלְהַבָּא. מִטָּה מִטַּמְּאָה חֲבִילָה, וּמִטַּהֶרֶת חֲבִילָה, דִּבְרֵי רַבִּי אֱלִיעֶזֶר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, מִטַּמְּאָה אֵבָרִים, וּמִטַּהֶרֶת אֵבָרִים

Halachot · הַלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Keilim 18:9
אֲמָרוֹ מְקַבֶּלֶת טֻמְאָה מִכָּאן וּלְהַבָּא. עַל הַשֹּׁרֶשׁ אֲשֶׁר זָכַרְנוּ בְּפֶרֶק ט"ו מִזּוֹ הַמַּסֶּכְתָּא…

Sobre disse “volta a receber impureza a partir de então”: segundo o princípio que mencionamos no Perek Tet-Vav (capítulo quinze) deste tratado, que é dizer “quebraram-se, purificaram-se; voltou e fez deles vasos, recebem impureza a partir de então”.

E disse “torna-se impura em feixe”, que ela não se torna impura senão toda unida, e assim não se purifica senão quando está unida, e assim se imerge. E a expressão dos sábios “torna-se impura em membros” esclareceu o Talmude que seu sentido é que ela seja comprida e duas pernas, ou curta e duas pernas, pois então ela se torna impura, sendo parte da cama, já que sua reparação é que se coloque ao lado, num lugar alto, e se estenda a madeira sobre elas e se deite sobre isso; e assim disse que, quando ela estava completa e se tornou impura e se purificou e se cortou um pedaço, ela é pura; e a lei é como os sábios.

Bartenura · Keilim 18:9
טְהוֹרָה. וַאֲפִלּוּ אִיכָּא אֲרֻכָּה וּשְׁתֵּי כְרָעַיִם, הוֹאִיל וְאֵין בְּדַעְתָּם לְהַחֲזִיר…

Sobre “torna-se pura”: e ainda que haja uma comprida e duas pernas, já que não têm intenção de devolvê-la. E quando isso vale? Apenas no caso em que tudo pertence a uma única pessoa. Sobre “volta a receber impureza a partir de então”: mas não retroativamente, pois, uma vez que a dividiram, a impureza voou dela.

Sobre “torna-se impura em feixe”: se a perna se separou da comprida e permanece com a curta, há união; e se a perna se torna impura, a curta se torna impura; assim como, quando ela está inteira, se um de seus membros se torna impuro, ela toda se torna impura, assim também, quando a perna se separa da comprida e permanece com a curta, forma-se um feixe com a curta, e quando a perna se torna impura, a curta se torna impura junto com ela. Sobre “e se purifica em feixe”: pois, se imergiu a perna junto com a curta, a curta não separa sobre ela, do mesmo modo que não separa sobre ela quando a imerge estando inteira.

Sobre “e os sábios dizem: torna-se impura em membros”: e não em feixe, pois, se a perna se torna impura, ela está impura, e não a curta, já que não é união como quando está inteira. Sobre “e se purifica em membros”: quando vem imergi-la, imerge a perna sozinha, e não em feixe com a curta, pois a curta separa sobre ela, já que não é união como quando está inteira — pois quem imerge a cama inteira, ela é pura ainda que não a tenha desmontado; mas agora que a perna se separou da comprida, não há feixe com a curta, e é necessário imergi-la sozinha. E a lei é como os sábios. Assim parece a explicação desta mishná, a partir da Tosefta, e assim a explicaram meus mestres.

Perush — os Mefarshim · הַמְפָרְשִׁים

Massechet Keilim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.

Encerramento do Perek Yud-Chet · סיום הפרק

מִטַּמְּאָה חֲבִילָה, וּמִטַּהֶרֶת חֲבִילָה — מִטַּמְּאָה אֵבָרִים, וּמִטַּהֶרֶת אֵבָרִים

Com esta nona mishná, encerra-se o Perek Yud-Chet de Massechet Keilim — capítulo que sucede o extenso Perek Yud-Zayin, dedicado às medidas-padrão, e volta sua atenção, quase inteiramente, ao mobiliário de madeira do lar — a shidá (arca), o leito (mitá) e o tefilin —, explorando como a conexão e a separação de suas partes determinam a suscetibilidade à impureza.

As mishnayot 18:1 e 18:2 abriram o capítulo com a shidá, a grande arca de madeira cuja pureza depende de conter, ou não, as quarenta se’á que definem a medida-padrão dos vasos domésticos: Bet Shamai mede o espaço interno, Bet Hilel mede pela superfície externa, e Rabi Yossei e Rabi Shimon Shezuri disputam se a espessura das pernas, das bordas e o vão entre elas entram na conta. A mishná seguinte tratou dos acessórios da shidá — o mucni removível e a cobertura abobadada (kimron) —, cuja conexão física determina se são medidos junto com o vaso principal, se protegem sob o mesmo teto de um cadáver e se podem ser arrastados no Shabat.

As mishnayot 18:3 e 18:4 voltaram-se ao leito propriamente dito, distinguindo as partes que sempre permanecem puras — os suportes do dossel, o apoio contra a umidade, os revestimentos — das que constituem o próprio vaso, a moldura retangular; e discutiram o caso especial da moldura apoiada sobre “línguas” salientes, comparando-a às molduras destináveis dos levitas, sempre puras.

As mishnayot 18:5 e 18:6 examinaram os danos físicos que anulam a impureza por midrás ao desfazer a forma reconhecível da cama — a diferença entre retirar a travessa curta e a comprida, os cortes diagonais e a redução de altura — e o caso mais sutil da travessa comprida quebrada e consertada duas vezes, em que a impureza recua gradualmente de midrás a simples toque, até se dissipar por completo.

As mishnayot 18:7 e 18:8 aplicaram o mesmo princípio de conexão e separação, primeiro à perna do leito que já trazia impureza antes de ser unida à cama — e ao dente de metal da enxada, regido pela mesma lógica —, e depois ao tefilin de quatro compartimentos, cujo rodízio de substituições degrada progressivamente a impureza de morto até a purificação total, pois “o toque não gera toque”.

A última mishná, 18:9, fechou o capítulo com a cama dividida entre irmãos ou sócios, que se torna pura e só volta a ser suscetível à impureza dali em diante, e com a disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre se a cama impura se comporta como um feixe unido ou como membros independentes — disputa cuja lei segue os sábios.

O estudo de Massechet Keilim prossegue agora para o Perek Yud-Tet, que continuará explorando as leis de impureza dos vasos ao longo dos doze perakim que ainda restam deste, o mais extenso tratado de toda a Mishná.